Meer
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Certa vez, entrevistei uma paciente oncológica para um projeto sobre narrativas de cura. Ela me disse algo que nunca esqueci: "Eu não fiquei doente quando o tumor apareceu. Eu fiquei doente muito antes, quando parei de escutar o que eu sentia"
A resposta não está só no conteúdo técnico, mas na presença por trás da mensagem. Na escuta que antecede a fala. Na escolha de palavras que respeitam o tempo do outro. No tom. No ritmo. No silêncio também.
Comunicar saúde é, no fundo, lembrar o outro de que ele não está só
Durante muito tempo, fomos ensinados a ver o corpo como um sistema mecânico. Um conjunto de peças que funcionam bem até que, de repente, algo quebra. Nessa lógica, a emoção aparece apenas como um "fator de risco": estresse, ansiedade, raiva. Mas e se for o contrário? E se a emoção for o ponto de partida? E se saúde for menos sobre "evitar a doença" e mais sobre sustentar um estado de presença consigo mesmo?
A frase me atravessou como um aviso. Quantas vezes silenciamos o corpo em nome da produtividade, da razão, do compromisso? Quantas vezes um sintoma "pequeno" é empurrado pra depois, até que o corpo finalmente grite o que a emoção já sussurrava há meses?
Volto àquela sala de espera onde comecei este texto. Eu também já estive ali, desconectada, ansiosa, querendo apenas que tudo passasse logo. Mas hoje, quando entro nesses lugares, tento me lembrar de respirar com intenção. De perceber o corpo. De perguntar como estou, de verdade

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