Meer
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Crianças cochichavam, algumas mães espiavam; o absurdo do normal nos olhares alheios tornava o gesto ainda mais homérico. As praças e os quintais tinham cheiro de barro e liberdade. Esculpiam mapas de bravura em asfalto e em terra batida
Andávamos por corredores onde a poeira grudava nos tênis; cruzávamos olhares como pecadores. Sua presença reluzente era vidro à luz forte
Filho único, pai ausente, mãe de 19 anos. Nos anos 1980, uma mulher jovem e solteira, com dois empregos, encontrava coragem e tempo para me levar ao futebol. Era um milagre típico brasileiro que faz o heroísmo parecer habitual. Percorria os quarteirões de folhas secas e rachadas com a naturalidade de quem equilibra o mundo no próprio compasso. Segurava minha mão com cuidado, como se protegesse uma taça de cristal; receava que os passos pudessem estilhaçar algo precioso
Enquanto meu sorvete derretia, ela me guiava pela voz firme — na condução da sua própria joia
Nossa visita ao estádio era memória e lição. Entre um chute e outro, crianças corriam pelas ruas, chutavam tampinhas de garrafa como gols impossíveis — alquimia de azar e esperança

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