Meer
segunda-feira, 4 de maio de 2026
Não eram pré-históricos. Pelo contrário: tinham acesso à tecnologia, à educação, ao tempo livre. O homem de Neandertal lutava por comida; estes lutam por nada. Praticam violência porque podem, porque querem, porque dá cliques. Porque alguém do outro lado vai ver. Dejectos da sociedade, dizíamos entre nós, mas a verdade é que também nós fazíamos parte do mecanismo
Já recusei muita coisa. Geralmente mal paga. Um país tornado num enorme call center da Europa, com sotaque neutro e salário mínimo. Primeiro dizem que somos bons, que o serviço é simples, que é só atender chamadas
Com o salário de amanuense de escritório (como costumo dizer) a não permitir grandes gestos, fiquei eu com a loiça, todos os dias, no fim das refeições. Pratos, copos, talheres, a espuma a escorrer para o ralo como uma paciência doméstica que se vai gastando. Depois despejo o lixo, olho de relance para o sítio onde costumo estacionar a mota, a confirmar se ainda está lá — este gesto automático, quase supersticioso —, aceno com a cabeça a um ou dois vizinhos e subo as escadas. Fraco exercício físico, apenas o suficiente para calar a mulher, que insiste que é preciso mexer o corpo. Depois sento-me diante do computador para fazer o meu desporto diário e compulsivo sempre que tenho algum tempo livre: escrever crónicas
Ao fim do dia, todos querem ir para casa agarrar-se às redes sociais, mas eu já não tenho paciência para redes desde a última experiência profissional, que durou três meses. Analisávamos conteúdos para uma plataforma qualquer. Vídeos, imagens, relatos. O que o ser humano faz quando pensa que ninguém está a ver? Crueldade sobre animais, violência gratuita, humilhação
Estou no supermercado. Há imensa gente. Acordaram agora para o facto de se avizinhar nova tempestade. Uma tempestade anunciada, com mapas coloridos e setas vermelhas, mas que ainda assim apanha todos de surpresa. O medo organiza filas

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