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domingo, 14 de junho de 2026
A cada seis horas, uma mulher não volta para casa no Brasil. Essa é a realidade nua e crua que deveria nos envergonhar como sociedade. Em 2025, o país bateu o recorde de feminicídios: foram 1.470 mulheres assassinadas, uma média de quatro por dia. Enquanto em 2026 muitos discutem eleições, Copa do Mundo, feriados e horários de folga, a vida de milhares de mulheres continua sendo ceifada por uma violência que não é acidente, não é destino. É ódio. É machismo. É covardia institucionalizada
Em 2026, celebram-se onze anos da *Lei do Feminicídio* e vinte anos da *Lei Maria da Penha*. Dois marcos que deveriam simbolizar avanço civilizatório. No entanto, o que se vê é um país que ostenta um aumento de 316% nos casos de feminicídio nos últimos dez anos. Um recorde vergonhoso, uma estatística que não deveria existir. Enquanto se discute eleições, Copa do Mundo e feriados, mulheres continuam a ser assassinadas simplesmente por serem mulheres. O Brasil, que deveria se envergonhar de sua história escravocrata, repete o mesmo padrão de violência e desumanização contra metade de sua população
Este artigo é um grito. Um grito de revolta, de repulsa, de dor. Um grito que acolhe quem já perdeu alguém por feminicídio. Um grito que reconhece que, sim, você está sozinha. Que a segurança pública não irá protegê-la. Que o Estado não irá protegê-la. Que seus amigos e familiares, muitas vezes, não farão nada. E que, dependendo do caso, seus dias estão contados
Existe uma lei de medida protetiva. Mas ela só vale se você tiver tido um relacionamento formal. Se você saiu uma única vez com um homem que se tornou obcecado, que decidiu te perseguir, que decidiu te ameaçar, a lei não te protege. Nesse caso, a mensagem cruel que fica é: “você deveria ter aceitado o pedido de namoro dele”. O ordenamento jurídico brasileiro, que deveria ser escudo, transforma-se em papel morto. A lei existe, mas não alcança. A lei promete, mas não cumpre. A lei protege apenas dentro de limites estreitos, incapaz de compreender que a violência contra a mulher não se restringe ao espaço doméstico ou ao vínculo afetivo
Esses dias, a televisão noticiou casos curiosos: uma mulher, em gesto de vingança, vendeu o PlayStation 5 do namorado por um valor irrisório; outra, para devolver a frustração que carregava, espalhou glitter por toda a casa. São exemplos de como mulheres, diante da dor, escolhem formas simbólicas de retaliação, pequenas rebeldias que não ferem, não matam, não destroem vidas. Mas, quando a escolha é deles, quando o homem se vê confrontado pela autonomia feminina, o desfecho é outro. Quando uma mulher decide que não quer seguir em um relacionamento, eles decidem que ela não deve seguir em relacionamento algum. Nem com ele, nem com o mundo. Eles decidem que o momento de ela respirar chegou ao fim. Isso é necropolítica

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