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quarta-feira, 20 de maio de 2026
Existem parâmetros comportamentais que simplesmente não mudam. Eles estão conosco desde a Gênese e, arrisco dizer, estarão até o último suspiro da civilização. A tecnologia pode mudar o canal de expressão, mas não a essência da inveja, da ambição, da lealdade seletiva ou da busca incessante por controle. São forças telúricas, quase fisiológicas, que governam as interações sociais, não importa se você está em um vilarejo remoto ou em um boardroom de Manhattan
A tecnologia moderna apenas transformou a fila do supermercado em uma rede social ou em uma eleição. O desejo de prevalecer, de manipular as regras a seu favor, de julgar ou de ser conivente é o mesmo. O instrumento mudou, mas a melodia do egoísmo e da hierarquia não. Acreditem, meus caros leitores, essa é a primeira lição que aprendi depois de anos advogando para quem está no topo e para quem está na base: a natureza humana é a verdadeira constante universal
Poucos de fora da minha profissão têm a oportunidade de testemunhar o espectro completo da tragédia e da comédia que é a existência humana. Eu tive. Sou, por força do ofício, um espectador privilegiado e, ao mesmo tempo, um ator coadjuvante nos palcos mais diversos. Vi o mais abjeto desespero nos olhos do homem mais pobre e, em seguida, a frieza calculista na cúpula do poder financeiro. O meu escritório já serviu de confessório para a prostituta de luxo que negociava informações sensíveis em troca de segurança e para o político influente que ditava os rumos de uma nação
Para ser didático e acessível, como exige a leitura fácil para quem nos acompanha, pense em um exemplo cotidiano, algo que qualquer um consegue entender, longe dos corredores da alta política ou dos tribunais. Imagine a fila em um supermercado. Sempre existirá aquele que tentará passar à frente, aquele que observará a manobra com indignação silenciosa e aquele que fará vista grossa, talvez por temer a confrontação ou por desejar a mesma vantagem no futuro
Mas há uma segunda lição, mais crucial e talvez mais difícil de engolir, especialmente para aqueles que dedicam a vida a defender uma bandeira ou uma ideologia. Depois de passar anos ao lado de figuras que movimentam o tabuleiro global, de coordenar operações psicológicas, cheguei a uma conclusão perturbadora: no topo, as linhas de demarcação ideológica que tanto inflamam as massas simplesmente não existem. Não existe direita. Não existe esquerda. O que existe é o Poder. E os seus donos

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