Meer
sexta-feira, 19 de junho de 2026
Sem a necessidade de termos técnicos, existe uma fase do desenvolvimento em que a criança começa a perceber os lugares que ocupa dentro da família. Ela se identifica, compara, deseja exclusividade, sente ciúmes, tenta se afirmar. Observa as relações, interpreta gestos, reage a presenças e ausências. É um momento fundamental, porque ali se organizam sentimentos que mais tarde irão reaparecer nas relações adultas, muitas vezes sem que a pessoa perceba a origem
A psicanálise se dedica exatamente a esse ponto: ao que não está evidente. Aquilo que aparece nas entrelinhas do discurso, nas escolhas que se repetem, nas reações que parecem desproporcionais, nos incômodos que surgem sem explicação clara. Há uma lógica nessas repetições, ainda que ela não seja imediatamente acessível
No setting analítico, esse padrão aparece com frequência. Pessoas que se colocam sempre no mesmo lugar: ou cuidam demais, ou se anulam, ou precisam ser escolhidas a qualquer custo, ou evitam vínculos mais profundos. Há também aquelas que se envolvem intensamente no início e, quando o outro se aproxima de forma mais consistente, se afastam sem entender exatamente o porquê
Quando essa etapa não é suficientemente elaborada, alguns padrões tendem a se repetir ao longo da vida. Mulheres que se envolvem com parceiros emocionalmente indisponíveis, como se estivessem sempre tentando conquistar um lugar que nunca se consolida. Homens que mantêm uma distância afetiva constante, mesmo quando desejam estar em uma relação, como se a proximidade representasse um risco difícil de sustentar
Muitas vezes, essa lógica se revela em pequenos detalhes: na forma como a pessoa se coloca nas relações, no tipo de parceiro que escolhe, na maneira como reage ao afastamento, na dificuldade de sustentar proximidade ou, ao contrário, de lidar com a distância

Na Rua

Pesquisar no Calendário

Subscribe
Get updates on the Meer