Meer
domingo, 8 de fevereiro de 2026
O trabalho é desenvolvido em pé, vendedor de loja do centro tem de ficar em pé, tem de mostrar serviço em pé, tem de tratar bem o cliente em pé. Anda e anda pelo estabelecimento, pega mercadoria, mostra as opções, devolve para o estoque, organiza o ambiente, sorri. Dentro das botas estão queimando de desconforto o que sustenta o todo perfeito
As lembranças de quando vieram ao mundo ficam cada vez mais distantes. Nasceram perfeitos como parte de um todo perfeito. De parto natural foram os últimos a sentir o frescor da vida. Cresceram e sentiram a terra, o chão, o asfalto, até que conheceram um invólucro de materiais vários para escondê-los, sufocá-los, torturá-los (protegerem?)
O cansaço vence e chega a hora favorita dos pés, quando o corpo está na horizontal e finalmente eles podem sentir o ar e, com a luz apagada sonham com o vento, com massagens, com carinho de areia e água do mar, sonham com passos de dança e corrida na grama fresca, sonham com asas...
Na rua têm de andar até o ponto do ônibus para que cheguem à estação do metrô, o destino ainda está depois de uma pequena caminhada. Em alguns momentos nesse percurso ficam sem o peso total, mas a posição não muda, estão voltados para baixo no escuro mundo do material sintético das botas
As lembranças de quando brincavam com o ar e depois eram levados à boca com prazer ficam cada vez mais perdidas num passado tão passado... Eram pequenos assim como o bebê que descobria o seu corpinho e, a sensação de serem sugados e explorados por aquela boquinha inocente era de derreter. Até que cresceram e não cabem mais na ingenuidade

Na Rua

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