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segunda-feira, 18 de maio de 2026
Desde cedo, somos treinados para buscar resultados, notas altas e eficiência máxima. Errar vira sinônimo de fracasso, não de aprendizado. Quando adultos, carregamos isso para tudo: trabalho, corpo, relações. E hoje enxergo isso até na hora de praticar um hobby. Parece que até o lazer precisa ser performático
Na aula de cerâmica, isso fica muito claro. A pessoa chega empolgada, com referências visuais lindas na cabeça, imagens que viu no Instagram ou no Pinterest. Ela imagina a peça pronta antes mesmo de tocar no barro. E, quando percebe que a argila não responde exatamente como o pensamento idealizado, que as pontas dos dedos não estão conseguindo traduzir o que está na mente, vem a frustração
Desde que comecei a dar aulas de cerâmica, esse contato semanal com os alunos tem me provocado muitas reflexões, e este texto nasce de mais uma delas. A grande maioria das pessoas que frequentam minhas aulas e workshops está prestes a trabalhar com a argila pela primeira vez. Algumas não têm contato com nenhuma atividade manual ou artística desde a infância, lá na escola. E é justamente nesse primeiro encontro com a arte que surgem reações muito diferentes: curiosidade, empolgação, silêncio, ansiedade…
Por isso, quando digo aos alunos que a peça não precisa ficar bonita, vejo olhares desconfiados. Como assim não precisa? Não é pra isso que estamos aqui? E aí explico que a aula não é sobre a peça final, mas sobre o que acontece enquanto ela está sendo feita. Sobre o gesto, a concentração, a relação com o tempo e também com a frustração
E talvez essa seja uma das maiores lições de uma aula de cerâmica: aceitar ser iniciante. Aceitar não saber. Aceitar que o primeiro resultado dificilmente será incrível — e que isso não tem problema nenhum, é totalmente esperado quando estamos começando

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