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quarta-feira, 10 de junho de 2026
Em hinos antigos traduzidos por Samuel Noah Kramer, Inanna é exaltada como “aquela que se ergue em poder, que caminha sobre o céu e que fala palavras de comando”. Ela era a encarnação da energia erótica e cósmica que move o universo: o Eros primordial. Os templos dedicados a ela em Uruk foram centros de poder político, religioso e sexual. Suas sacerdotisas, as entu, praticavam ritos sagrados de união sexual (hieros gamos) com os reis, simbolizando a fusão entre o humano e o divino
Enquanto Inanna jaz morta, Ereshkigal lamenta e grita de dores. Essa parte do mito, muitas vezes negligenciada, é a mais enigmática. A sombra feminina, o aspecto reprimido, negado, marginal, se manifesta. Ereshkigal não é vilã; é o reflexo de tudo que Inanna não quer ver: a dor, o limite, o fim
Inanna é o arquétipo primordial do feminino que desce para reencontrar a si mesma. Sua jornada não é de submissão, mas de integração: ela se despe de todos os seus poderes, enfrenta o abismo e retorna transformada. É a mãe das iniciações, a Deusa que ensina que a luz só é plena quando conhece a sombra
Diferente das imagens posteriores de deusas dóceis, Inanna era ambígua: senhora do amor e da guerra, da fertilidade e da destruição. Sua força era total, circular, não moralizada. Como observa a mitóloga Jean Shinoda Bolen, em “As deusas em cada mulher”, Inanna encarna o aspecto instintivo e inteiro do feminino, anterior à cisão entre corpo e espírito, prazer e culpa
O ocultista Kenneth Grant, em “The Magical Revival” (1972), interpreta a descida de Inanna como o encontro da sacerdotisa com o “útero escuro da Mãe Cósmica”, o abismo pré-criacional de onde surge toda forma. A morte de Inanna representa o retorno ao caos primordial, à matriz do Ser

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