Meer
sábado, 18 de abril de 2026
O céu começava a escurecer quando Rita decidiu voltar para casa. Subiu as escadas lentamente, como se cada degrau a puxasse para baixo, para o fundo de si mesma. As escadas caracóis como seus cabelos, escura como seus olhos, como nunca antes tivera notado? Se parecia tanto com coisas. Só coisas. Avulsas no mundo
Todos-os-dias. Passava o mesmo batom vermelho nos lábios ressecados pelo frio, fazia o coque solto no cabelo, combinando a praticidade com a sexualidade de um descuido que só poucos podem ter. Com sol ou sem sol, mascarava o rosto de protetor, não era descuidada nesse ponto
Piscou os olhos. Mexeu-se de um lado para o outro. Encostou o nariz no vidro frio. Nada. Nenhum traço de sua imagem estava ali. O quarto, sim. A cama desarrumada, a poltrona com o casaco jogado por cima, as sombras das cortinas. Mas ela? Evaporara
Quando abriu a porta do apartamento, parou por um momento, encarando o silêncio do lugar. Ser invisível era aterrador, mas também libertador. Pela primeira vez, percebeu que podia ser qualquer coisa. Ninguém esperava nada dela. Não havia julgamentos, exigências, expectativas, reflexos que contassem seus segredos. Apenas o nada absoluto
 Rita, apesar de passar grande parte de suas horas da vida gastas se admirando, ou se torturando no espelho, não gostava de se olhar. Ela se olhava em busca de afirmar o próprio descontentamento, parecia

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