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quarta-feira, 10 de junho de 2026
Aguinaldo Silva escreveu a venda do bebê apenas para causar choque dentro da narrativa, sem ser nem um pouco condizente com a personagem montada por Gilberto Braga no começo da novela. Tanto o ato quanto a cena soaram extremamente artificiais, ainda mais levando em conta que a cena anterior havia sido Fátima deixando seu bebê aos cuidados de Raquel
Ao reassistir à novela de 1988 em 2026, fica evidente o duplo padrão de gênero: atitudes similares (ou até mais graves) de personagens masculinos raramente são rotuladas com a mesma veemência moral que as de Fátima. Marco Aurélio, César,  Afonso e Ivan são apenas alguns exemplos desse padrão duplo.
Gilberto Braga mostra, até de forma bem excessiva e repetida, que, apesar de ser moral e completamente errada, a venda da casa acaba por ser culpa também de Raquel, por ter colocado a casa apenas no nome de Fátima, como vários personagens apontaram para ela. “Ah, mas então quer dizer que você acha certo o que a Fátima fez com a mãe?” De maneira alguma, mas da mesma forma que o advogado de Raquel aponta na novela, a venda da casa não foi ilegal, foi imoral sim, mas Raquel jamais deveria ter deixado apenas no nome de Fátima
Aliás, a decisão extrema de Fátima de vender o filho, por mais chocante que seja, precisa ser situada em um universo onde recursos, redes de proteção e expectativas de futuro eram drasticamente limitados para muitas mulheres. Em outras palavras: o ato é condenável, mas sua gênese atravessa estruturas
Esse viés cultural explica por que Fátima ficou marcada: a figura da “filha ingrata” aciona códigos sociais poderosos sobre maternidade e obediência feminina. Nos imaginários conservadores, quebrar esses códigos é mais “perdoável” quando praticado por homens ricos do que por mulheres pobres em ascensão. Aliás, até a ambição é tratada de forma desproporcional entre os gêneros, a de Ivan é justificada, já a de Fátima é absurda e imoral

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