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quarta-feira, 3 de junho de 2026
O Avelino, que andava com os pais na lavoura, era o mais próximo de um amigo: pobre ao ponto de me parecer impossível que fosse real, como se a miséria não coubesse numa criança. Não tinha brinquedos — apenas uma camioneta sem uma roda — e eu, habituado a ter pouco mas ainda assim o suficiente, tinha dificuldade em acreditar naquela falta de tudo
Recordo-me de tudo isto agora porque toda a família, ou a parte que ainda tem disponibilidade foi recentemente à terra ver a casa antiga, as paredes gastas, o cheiro a abandono. Ainda não conseguimos regularizar o registo das propriedades depois das partilhas
Um dia, a mãe dele deixou-o ir brincar comigo depois do almoço. Chuviscava. Ficámos na cozinha de uma vizinha, com o chão de terra batida baço de humidade. Eu levei três brinquedos; ele tinha a camioneta amputada. Rapidamente percebemos que nada nos unia: ele lia devagar, desconfiado das palavras; eu não sabia esconder o espanto. Anos mais tarde, soube que tinha sido preso por roubo. Não me surpreendeu — certas vidas parecem começar já com a porta trancada
Havia ainda o Acácio, cujo rasto se perdeu como se nunca tivesse existido, e duas irmãs da minha idade que moravam na rua dos meus avós; trabalhavam cedo, casaram-se ainda jovens, uma delas divorciou-se num sobressalto breve
No regresso parámos num café. A minha tia, cansada da estrada, começou a falar de política — sempre política — Trump, Venezuela, manifestações, desigualdade social. Eu, já exausto do mesmo discurso, queria falar de coisas pequenas: o preço do pão, o cheiro da terra molhada, os vizinhos de antigamente, o rumo que a nossa vidas tomou

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