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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
Veja a diferença, por exemplo, com o filme Hairspray, que é um retrato muito mais próximo de uma narrativa passada nos anos 1950. A novela em vez de construir um retrato histórico honesto, optou por incluir diálogos anacrônicos, pautas atuais de forma extremamente forçadas (e incabíveis naquela época) e um presentismo que prejudicou a verossimilhança da trama. Não é porque é uma “obra de ficção” que não se precisa ter o mínimo de coerência com a época, afinal isso acaba por ser um apagamento histórico em nome de uma representatividade rasa e descontextualizada
Inserir diversidade em roteiros ruins não é revolução, é simplesmente  oportunismo. O público não é burro. Ele percebe quando a personagem negra, gay ou trans está ali apenas para cumprir cota. A representatividade precisa ser orgânica, bem escrita, relevante e inserida dentro de um contexto narrativo sólido. Não basta copiar bordões de militância do Twitter ou replicar slogans vazios em diálogos artificiais. É preciso comprometimento com as histórias e com as pessoas que essas histórias pretendem representar
O caso das novelas da Globo nos últimos anos é exemplar. Mania de Você recebeu uma enxurrada de críticas. Parte da rejeição foi motivada sim por racismo, um reflexo do preconceito ainda enraizado na sociedade brasileira, no entanto, a maior parte da insatisfação do público veio pela forma como a protagonista foi escrita: chata, sem carisma, mal desenvolvida, além de iniciar sua trajetória como traidora da melhor amiga. A protagonista negra foi mal construída, e o roteiro raso apenas reforçou estereótipos, ao invés de quebrá-los. O final da novela foi ainda pior, com Viola praticamente sendo jogada para escanteio e seu par na novela tendo morrido (outro personagem que sofreu rejeição massiva)
E o problema não é exclusivo da teledramaturgia nacional. A Disney tem enfrentado queda de audiência e fracassos consecutivos nas bilheterias ao tentar aplicar diversidade de forma superficial. O próprio CEO da empresa, Bob Iger, afirmou que a companhia “errou a mão” em sua abordagem de inclusão, reconhecendo que a implementação apressada e sem profundidade afastou parte significativa do público, com o último filme da Branca de Neve sendo um dos maiores fracassos da Disney
Viola Davis, em seu discurso no Oscar, disse: “Não peçam apenas para que atores negros interpretem papéis escritos para brancos. Escrevam histórias para nós, com nossos conflitos, nossa cultura, nossa complexidade.” Isso vale para todas as minorias. Representar é mais que substituir. É criar com profundidade. Sem isso, a inclusão vira um espelho deformado

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