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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Mas como falar hoje dessa experiência artística em rede? O que restou de suas promessas de democracia estética, de suas tensões com o mercado e de sua materialidade sempre em fluxo? O desafio crítico é situar net.art para além da nostalgia, ou seja, como campo que ainda pode pulsar, capaz de nos ensinar sobre o presente em que algoritmos e interfaces moldam o fazer artístico e a vida social
Essa perspectiva dialogava, em diferentes graus, com artistas internacionais como Roy Ascott e Nam June Paik, com os experimentos visionários de Lucio Fontana e até mesmo com o espírito iconoclasta dos dadaístas berlinenses, que já haviam intuído, décadas antes, a comunicação à distância como matéria artística legítima
A net.art — como o próprio nome sugere — é uma forma de arte concebida na e para a internet. No Brasil, ninguém prefigurou esse impulso com maior lucidez do que o artista Waldemar Cordeiro, que, já nas décadas de 1960 e 1970, via nas novas mudanças tecnológicas uma via de fuga às amarras da arte tradicional, ainda presa ao fetiche do objeto físico. Sua visão antecipava a possibilidade de uma poética fundada na circulação e no acesso ampliado à arte, princípios que mais tarde se tornariam centrais para a net.art
Nos anos 1990, o clima era de uma euforia quase messiânica. A internet surgia como promessa de igualdade, experimentação e liberdade, em um mundo que, no pós-Guerra Fria, buscava novas formas de circulação da informação. A Documenta X (1997) ofereceu então uma consagração breve, mas significativa, à net.art. Contudo, essa visibilidade trouxe à tona sua contradição mais aguda: um projeto que se anunciava antissistêmico dependia, paradoxalmente, das mesmas instituições e curadorias que pretendia subverter
Dez anos depois, o mundo foi abalado pelo 11 de setembro de 2001, e a internet, outrora um espaço de liberdade, transformou-se em um território de vigilância. O software de código aberto, antes celebrado, passou a ser encarado com desconfiança, e a net.art mergulhou num grande ostracismo institucional

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