Em pequeno imaginava as vidas das pessoas, inventava-lhes rotinas, medos, amores falhados; mais tarde, na adolescência, escrevia sobre elas, quando percebeu que ninguém queria ser o que era, que o divórcio entre o que se projectava e o que se era aumentava a distância entre a loucura e a normalidade. A vida tornara-se uma vitrina com reflexos estilhaçados, qualquer um produzia e veiculava informação, apimentando a sua realidade para os amigos virtuais que só liam as três primeiras linhas do lead, incapazes de suportar um parágrafo inteiro, viciados na distração contínua, como moscas a bater contra a mesma lâmpada.
Acordou num repente, assaltado por uma ideia para o livro. Arrumou-se dentro da roupa, como quem veste uma pele emprestada, materializou-se, em silêncio, diante do computador, e começou a descrever a personagem: agrupava os pedaços de comida aos pares — duas batatas, dois brócolos, duas tiras de carne. O gesto mecânico era a prova do desajuste, como se a ordem minuciosa fosse o único antídoto contra o caos. E só então percebia que algo não ia bem, quando o sofrimento se tornava trivial, a felicidade se encolhia, envergonhada, e deixava o caminho livre às recordações tristes.
Sempre lhe fizera espécie os urinóis modernos, sem privacidade nenhuma. Detestava perceber, pelo canto do olho, o indivíduo ao lado, distraído a olhar para o seu coiso — curiosidade estúpida que o deixava desconfortável, não por qualquer motivo ou sentimento homofóbico, mas porque não suportava olhares por cima do ombro. E, ainda por cima, não conseguia falar sobre o seu coiso com outra palavra que não fosse essa: coiso, uma espécie de pudor linguístico que o condenava à infância.
Sabia, claro, que havia coisas bem mais graves, como o modo brutal e inconsciente com que o mundo era governado, a indiferença de quem detinha poder, a pressa com que se consumia cada tragédia, descartada ao ritmo das notícias de rodapé. Mas um escritor, pensava ele, questionava-se sempre, como uma criança na idade dos porquês, reagindo de forma excessiva a tudo: ao barulho dos vizinhos, ao soluço de uma frase mal escrita, ao silêncio prolongado de um amigo. Era uma cruz, uma missão, talvez um castigo: hipersensibilidade que criava espaços de sombra, memórias sequestradas, uma distância cada vez maior entre nós e o mundo, a aumentar a inquietação, a sensação de insuficiência que o perfeccionismo e o absurdo alimentavam como lenha no lume.
Inquietava-se constantemente. A morte era a única coisa de que não conseguiria guardar memória — logo a que mais importava. A morte como um corte de eletricidade, súbito, inapelável. O que mais o afligia, como escritor, era chegar a um ponto em que não tivesse mais nada para dizer. Quem não tem nada para dizer cala-se; mas era precisamente isso que sempre quis evitar: ficar calado, condenado a ouvir apenas o eco das próprias dúvidas. Idealizava o paraíso como um espaço pessoal de resistência às coisas do mundo, ao mal, à guerra, à estupidez geral. Silêncio, luto, luta, rendição — palavras que o acompanhavam sempre na escrita, como rosário íntimo. Como escritor, tinha dificuldade em coabitar com as personagens: oferecia-lhes corpo e respiração, mas elas invadiam-no como hóspedes ruidosos, nunca devolvendo o sossego inicial.
Às vezes as manias regressavam com um frenesim incontrolável. Convencido de que não tinha tempo a perder, comprava pão fatiado para fazer as torradas mais depressa, andava com um bloco de notas, um telemóvel e um tablet para registar ideias súbitas, comprava comida feita para o almoço, não fosse atrasar-se na confecção. Saía o mínimo possível de casa, não fosse alguma ideia surgir e escapar-lhe.
Só abria uma excepção para ouvir as conversas da dona do café com a Maria da papelaria — matéria-prima para construir personagens: o engenheiro muito bem posto, que deixara boas gorjetas nos restaurantes e que trocara a Isaura por uma jovem de coxas largas, diziam, de acrobacias invejadas; a empregada da cabeleireira, cujo marido motorista fora posto a andar ao queixar-se da hérnia na L3 e na L4, despedido cedo demais, indemnização baixa, o miúdo a precisar de computador novo para a escola, e ela ainda sem dentes postos, a patroa já a avisar que aquele desleixo era mau para o negócio. Histórias pequenas, insignificantes, mas que latejavam como sangue debaixo da pele.
Autor de prosa barroca, retorcida nas ideias e no brilho, encandeava palavras mergulhadas em dourados e rococós estilísticos, convencido de que praticava uma narrativa modernaça, onde as personagens escorregavam no dia-a-dia sem graça. Vivia em permanente oposição às coisas, metáfora de contraste, a bílis a corroê-lo, desgastado pela falta de consideração do tempo pelas pessoas, enfastiado com uma existência vaga no mundo. Bola mágica, hemorragia do real, confronto entre pressupostos, preconceitos e desejos: a filigrana da sua educação judaico-cristã, sempre a soprar-lhe nos ouvidos culpa e remorso, como se cada frase escrita fosse pecado e penitência.
Acordava muitas vezes desabitado do corpo. Olhava pela janela a neblina que todas as manhãs se estendia em direcção ao rio e sentia-se mais velho. Ou talvez sempre tivesse sido velho, sempre sénior, segundo a cartilha ridícula do politicamente correcto, como se Hemingway pudesse ter escrito O Idoso e o Mar com o mesmo peso. Deixava correr o tempo sem aprender outras formas de ver o rio, desperdiçando os alicerces do passado, como quem passa por cima das próprias fundações. Sentado sobre o absoluto, em redor dos seus quarenta anos em muito mau estado, perdera a confiança na fiabilidade social. Por isso saía pouco de casa, temendo morrer sozinho — com a sua tristeza, com o seu medo. E talvez fosse esse o verdadeiro livro: não o que escrevia, mas o que não conseguia calar, a história que latejava dentro dele sem nunca se entregar às palavras.















