Nas últimas décadas, o mundo digital seduziu idosos, adultos e, principalmente, crianças e adolescentes, oferecendo uma avalanche de estímulos imediatos. Em meio ao brilho das telas, algo essencial foi se apagando: o tempo de brincar, de se expressar com lápis de cor nas mãos e cadernos no colo. Agora, especialistas alertam: estamos diante de uma epidemia de sofrimento psíquico — e os livros de colorir podem ser aliados poderosos para virar esse jogo.
A geração mais ansiosa da história
Você evita situações sociais? Tem medo de falar em público? Prefere permanecer em um emprego que odeia do que passar por um processo de seleção? Se respondeu “sim” a alguma dessas perguntas, saiba que você pode estar entre as milhões de pessoas que convivem com ansiedade social — um medo avassalador de ser julgado, rejeitado ou exposto ao constrangimento em interações com os outros.
E você não está sozinho.
A ansiedade social pode limitar oportunidades valiosas: de conquistar o emprego dos sonhos a fazer amizades ou se abrir para relacionamentos afetivos. A boa notícia é que há caminhos para lidar com ela. Em Ansiedade social: enfrentando seus medos e aproveitando os contatos sociais com a terapia cognitivo-comportamental, o especialista em TCC Stefan G. Hofmann oferece técnicas comprovadas para transformar o medo em segurança emocional.
O sofrimento psíquico generalizado entre jovens também está no centro das discussões da obra A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, que aponta o uso excessivo das telas e redes sociais como um dos fatores centrais desse fenômeno contemporâneo.
De acordo com o psicólogo social Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa, desde os anos 2010 observamos uma explosão nos índices de depressão, ansiedade, autolesão e suicídio entre adolescentes. Um dos fatores centrais é a substituição da “infância baseada no brincar” por uma infância marcada pela hiperconectividade. As consequências são profundas: privação de sono, fragmentação da atenção, isolamento social e empobrecimento emocional.
Haidt defende um plano de ação coletivo que resgate práticas simples e eficazes — como o desenho e a arte — como antídotos possíveis para esse colapso emocional e cognitivo.
A febre dos livros de colorir
A chamada febre dos livros de colorir explodiu com o lançamento de Jardim Secreto (2013), de Johanna Basford. Traduzido para dezenas de idiomas, o livro encantou adultos e crianças ao redor do mundo, promovendo uma experiência lúdica, meditativa e reconfortante.
Essa popularidade não é por acaso. A ciência explica:
Relaxamento cerebral: colorir ativa o córtex pré-frontal (responsável pelo foco e planejamento) e reduz a atividade da amígdala cerebral (associada ao medo e à ansiedade), promovendo um efeito similar ao mindfulness. Um estudo da University of Otago mostrou redução significativa de estresse em adultos após 10 minutos de coloração diária.
Desenvolvimento da inteligência emocional: a atividade promove paciência, tolerância à frustração, foco e autorregulação emocional. Também evoca memórias positivas da infância, incentivando o autoconhecimento.
Reconexão com a criança interior: muitos adultos se distanciaram do lúdico. Colorir é um espaço de expressão sem julgamentos, que ajuda a restaurar autoestima e bem-estar emocional.
Detox digital: num mundo de notificações constantes, colorir oferece pausa, silêncio e concentração ativa.
Acessível e sem regras: não é preciso ser artista. Qualquer pessoa pode experimentar, independente da idade ou habilidade.
Efeito de comunidade: colorir também é social. A hashtag #adultcoloringbook soma milhões de postagens, revelando um movimento coletivo por bem-estar.
Impacto psicomotor e psicossocial
Em crianças e adolescentes
Para crianças, os livros de colorir têm papel essencial no desenvolvimento psicomotor:
Coordenação motora fina e ampla;
Força manual;
Direcionalidade e orientação espacial;
Planejamento visual-motor.
Do ponto de vista psicossocial, colorir favorece a empatia, a partilha, a criação de vínculos e o respeito à diversidade. Em contextos terapêuticos e escolares, pode ser usado para tratar emoções difíceis e desenvolver competências socioemocionais.
Em adultos
Embora muitas vezes associados à infância, os livros de colorir também exercem efeitos psicomotores e psicossociais importantes em adultos. Ao movimentar os dedos, escolher cores e seguir contornos, há um refinamento da coordenação motora fina e um estímulo aos sentidos, o que pode beneficiar idosos, pessoas com estresse crônico, ansiedade ou mesmo transtornos neurológicos leves. Em pacientes em reabilitação, por exemplo, colorir pode atuar como atividade complementar no fortalecimento de habilidades motoras e cognitivas.
Do ponto de vista psicossocial, os livros de colorir proporcionam tempo de qualidade, introspecção e fortalecimento do autocuidado. Atuam como mediadores na redução do isolamento, promovem autoestima, favorecem o estado de flow e facilitam processos terapêuticos em grupos ou individualmente. Em grupos de apoio emocional ou espaços de saúde mental, a prática de colorir tem sido utilizada como recurso de vínculo e expressão simbólica.
Colorir, para adultos, é mais do que lazer: é reparo emocional e reconexão com aspectos esquecidos de si.
Autores independentes e sua contribuição à saúde mental
Autores independentes têm contribuído com a saúde emocional, produzindo obras que integram arte, acolhimento e desenvolvimento humano. Em um contexto de excesso de telas, seus livros resgatam o valor do toque, da atenção e da imaginação.
Entre eles, destaco três obras de minha autoria:
Fluffy Dog: Patadas de Azuki e Kira – Uma aventura fofa e sensível que acompanha dois cachorrinhos em jornadas de empatia e companheirismo. Um convite à ternura e à construção emocional na infância.
Travel Joy – Série de livros de colorir com pontos turísticos de diversos países, que une geografia, cultura e imaginação. Estimula o interesse cultural e a expressão artística livre.
Doramei – Livro de colorir inspirado no universo dos doramas coreanos, voltado ao público adolescente. Uma experiência estética e emocional que promove a calma, a identidade e a autoexpressão.
Essas obras foram criadas com o propósito de oferecer alternativas saudáveis, educativas e afetivas ao entretenimento digital excessivo. Elas mostram como o trabalho autoral pode dialogar com temas urgentes da atualidade, contribuindo com práticas de bem-estar acessíveis e transformadoras.
Menos tela, mais saúde: o alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria
Desde 2016, a SBP vem publicando documentos sobre o impacto das tecnologias no desenvolvimento infantil. Em 2024, a atualização do projeto “Menos Telas, Mais Saúde” reforçou os riscos da exposição precoce, excessiva e sem supervisão a telas digitais.
Dentre as evidências levantadas:
95% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos estão conectadas à internet;
24% acessaram a internet antes dos 6 anos;
26% foram expostos a cyberbullying;
16% viram conteúdo relacionado à automutilação;
14% visualizaram conteúdo sobre suicídio;
25% relataram perda de controle sobre o tempo online.
O uso precoce de telas está relacionado a atrasos na linguagem, problemas de sono, aumento de miopia, agressividade, sedentarismo, compulsões alimentares e transtornos mentais. Além disso, o desequilíbrio entre o sistema límbico (emoções) e o córtex pré-frontal (julgamento e tomada de decisão), típico na adolescência, é acentuado pelas recompensas instantâneas promovidas por jogos e redes sociais.
O documento da SBP também ressalta as obrigações legais do Estado, das famílias e das escolas quanto à proteção integral prevista pela Constituição, pelo ECA, pela LGPD, pelo Marco Civil da Internet e pela Lei 14.811/2024. São recomendadas políticas de educação digital, alfabetização midiática, mediação parental e programas que promovam o brincar livre e as conexões presenciais.
Colorir é resistir
A psicanálise também contribui para entendermos os efeitos da solidão, da desconexão e da ausência de espaço psíquico para o brincar. Em Solidão Essencial, Christopher Bollas apresenta, a partir dos ensinamentos de D.W. Winnicott, como o "brincar" e a relação com objetos criativos são estruturantes da saúde mental. O que acontece quando esse brincar é substituído por estimulações passivas e constantes? A resposta está nos altos índices de ansiedade, apatia e desorganização emocional que observamos hoje.
Em meio a esse cenário de sobrecarga digital, colorir se torna um ato de resistência. Um gesto simples, mas profundamente simbólico. Uma forma de pausar o mundo, resgatar a escuta interna, cultivar a paciência e encontrar sentido nas pequenas coisas. Os livros de colorir são, hoje, uma ponte entre gerações, uma terapia acessível, uma ferramenta pedagógica e um convite à reconexão.
Em meio a esse cenário de sobrecarga digital, colorir se torna um ato de resistência. Um gesto simples, mas profundamente simbólico. Uma forma de pausar o mundo, resgatar a escuta interna, cultivar a paciência e encontrar sentido nas pequenas coisas. Os livros de colorir são, hoje, uma ponte entre gerações, uma terapia acessível, uma ferramenta pedagógica e um convite à reconexão.
Viver com mais saúde é do lado de cá, junto com as crianças e adolescentes, ao vivo. Nunca do lado de lá, com robôs e algoritmos.
Referências:
Basford, J. (2013). Jardim Secreto. Sextante.
Bollas, C. (2023). Solidão essencial. Blucher.
Cook, L. (2023). Bem-vindo ao Meu Mundo Secreto. HarperOne.
Curry, N.A., & Kasser, T. (2005). Can coloring mandalas reduce anxiety? Art Therapy, 2022(2), 81–85.
Haidt, J. (2024). A Geração Ansiosa. HarperCollins.
Hofmann, S. G. (2018). Ansiedade social: enfrentando seus medos e aproveitando os contatos sociais com a terapia cognitivo-comportamental. Artmed.
Sociedade Brasileira de Pediatria. (2024). Manual de Orientação: Saúde na Era Digital.















