Quanto mais tempo passamos diante das telas, menos o sono chega. Pode parecer exagero, mas há uma explicação científica bem clara por trás disso. O hormônio que regula o sono (melatonina) é diretamente inibido pela luz azul emitida por telas de celulares, computadores e televisores. Essa luz confunde o relógio biológico do nosso corpo, fazendo o cérebro acreditar que ainda é dia, mesmo quando já passa da meia-noite.

A consequência? O organismo adia a liberação da melatonina o que, por sua vez, atrasa o início do sono, reduz sua qualidade e causa aquela sensação de cansaço constante. Dormir pouco uma noite pode não parecer grave, mas o problema surge quando isso se torna rotina. O sono é fundamental para saúde física e mental, influencia nossa memória, humor, metabolismo e até o sistema imunológico.

O celular, que muitas vezes é nosso companheiro de estudos, trabalho e lazer, também é o principal vilão do descanso. Ao manter a mente em constante estímulo (notificações, vídeos e redes sociais), ele impede o cérebro de relaxar. Mesmo depois de desligar a tela, o corpo ainda leva tempo para reduzir o nível de alerta. É como tentar dormir logo após uma corrida: o coração e a mente ainda estão acelerados.

Eu sei bem como é. Já perdi várias noites de sono por causa de estudo. A pressão por prazos, provas e trabalhos acadêmicos pode nos colocar em um estado permanente de vigília. Em muitos momentos, meu cérebro parecia ter criado um “modo automático” de alerta. Mesmo quando não havia necessidade, eu acordava no meio da madrugada com a sensação de que precisava fazer alguma coisa.

Essa privação constante de sono não afeta apenas o corpo, mas também a mente. Uma das experiências mais diferentes que já vivi foi a paralisia do sono, aquele momento em que você acorda, mas não consegue se mover. É como se o corpo ainda dormisse, enquanto o cérebro desperta. A sensação é estranha, e, embora dure poucos segundos, parece uma eternidade.

A paralisia do sono é comum entre universitários e jovens adultos, justamente por causa da irregularidade nos horários de descanso e da alta carga de estresse. A mente cansada e o corpo exausto entram em conflito, e o sistema nervoso acaba reagindo de forma confusa.

Com o tempo, percebi que não adiantava apenas “dormir mais cedo”, era preciso reaprender a dormir. Nosso corpo é um sistema que funciona em ritmo: se passamos o dia todo acelerados, é natural que o cérebro demore para entender que chegou a hora de desacelerar.

Entre os hábitos que mais me ajudaram a melhorar o sono, dois foram essenciais: o banho quente e a atividade física regular. O banho quente, à noite, ajuda a relaxar os músculos e a reduzir a tensão acumulada. Já o exercício físico, quando praticado algumas horas antes de dormir, auxilia na regulação dos hormônios do estresse e contribui para o equilíbrio do ciclo circadiano, aquele “relógio interno” que controla quando devemos dormir e acordar.

Outro ponto importante é o uso consciente da tecnologia. Não se trata de demonizar os aparelhos, mas de entender seus impactos. Hoje, fala-se em “higiene do sono”, um conjunto de práticas que inclui desligar telas pelo menos uma hora antes de dormir, reduzir a exposição à luz intensa, evitar cafeína à noite e manter horários regulares. Pequenas mudanças podem gerar grandes resultados.

As inovações tecnológicas trouxeram inúmeros benefícios, aplicativos que monitoram o sono, dispositivos que ajustam a iluminação conforme o horário e até óculos com filtros de luz azul. No entanto, nenhuma dessas ferramentas substitui o papel fundamental do descanso natural.

É curioso perceber como, em meio à era da informação, dormir bem virou um luxo. Somos estimulados a estar sempre disponíveis, conectados e produtivos. Mas, biologicamente, nosso corpo não evoluiu para lidar com esse ritmo. A privação de sono está associada ao aumento de doenças cardiovasculares, obesidade, depressão e queda de desempenho cognitivo. Em outras palavras, quanto mais tentamos “ganhar tempo” ficando acordados, mas o perdemos em qualidade de vida.

A ciência tem alertado que dormir é um ato ativo de manutenção da mente. Durante o sono, o cérebro realiza uma espécie de “faxina” neural, eliminando resíduos metabólicos e consolidando memórias. Negligenciar esse processo é como tentar trabalhar em um computador que nunca reinicia: uma hora ele trava.

A tela é uma ferramenta poderosa, mas também exige responsabilidade. Saber desligá-la é um gesto de autocuidado. A tecnologia pode ser nossa aliada, mas desde que não nos afaste do que há de mais essencial: o descanso, o silêncio e a reconexão com nós mesmos.

Dormir é, em última instância, um ato de resistência em um mundo que não para. E talvez o verdadeiro avanço tecnológico esteja em aprender a equilibrar o digital e o humano, usando a ciência não apenas para entender o sono, mas para valorizá-lo.