Depois da estreia discográfica com “Inside me”, em 2017, a cantora Xixel Langa volta aos discos com “Vatekile”, 2023, apostando no AfroJazz e onde reforça o seu trabalho de autora, com quase 30 anos de carreira.

É mais um produto do desassossego, da pandemia, das nítidas memórias da escravatura, da exploração. Chama-se “Vatekile”, o mesmo que “Levaram” em português, uma obra que promove a paz, o amor e o respeito. Mas “o que levaram? Levaram nossas terras, nossos princípios. Levaram nossos hábitos, nossos nomes. Levaram-nos a graça de viver. Levaram-nos os nossos antepassados, através da escravatura, de doenças. Vatekile, levaram e continuam a levar até hoje”, diz Xixel.

Essa tónica dá alma ao disco e traz outra atmosfera à música moçambicana. O primeiro cenário, imaginado, é o de perdas, de lágrimas, de dor. Há uma sugestão rítmica do rock e o blues, na sua fusão com o jazz, bem familiar aos nossos ouvidos, mas que depois se dilui num universo sonoro onírico, moçambicano, africano. O disco, diríamos, é, por isso, uma seleção de aforismos extraídos da nossa essência, enquanto seres desassossegados, maltratados. E é o que nos sugere a segunda música, cujo título é igualmente Vatekile.

Vimo-la cantá-la pela primeira vez, a 20 de setembro, no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo, no concerto de TP50. Entrou num violento despertar e encheu sozinha o palco. A música, como afirma o seu irmão, Dário Langa, é

Muito rica e diversificada, moderna e com uma classe e características africanas muito bem representadas. Ela transcende barreiras étnicas e miscigena o Moçambique como um todo e transporta o jazz, o rock e o blues abraçando com raízes enfatizando a essência de suas origens”.

Esta letra não foi criada para estes tempos, mas não é por isso que a sentimos. Porque o som, aquele som que define a loucura artística de Xixel, orgânico e eletrónico, máquina a bombear sangue, ecoa na perfeição nesta atualidade musical de fronteiras estéticas derrubadas. Ecoa de forma particularmente pungente, na sua intensidade e urgência, no seu desespero neurótico e grito libertador, neste presente que atravessamos. Que se registe: Xixel é um caso raro, então!

Um álbum que respira a espontaneidade

Um álbum surpreendente. Um disco solar, num país cinzento. Uma obra onde são percetíveis a dor de perder um pai, a dor de ser explorada e roubada, a dor da saudade, o amor à tradição, o sacrifício do trabalho para sustentar os (nossos) dependentes, abusando, num universo próprio, de elementos das mais diversas tipologias, como rock, jazz, bossa nova, psicadelismos, ambientalismo, africanismos, vários ou eletrónicas, sobretudo com uma descontração imensa e imersiva. É coisa rara por estes lados: um disco simultaneamente bem executado e capaz de respirar espontaneidade e graça por todos os poros. Segundo a artista:

Esta música traz o passado que nos conta o futuro. Vendo o que está a acontecer neste momento, tem muito a ver com o nosso passado. Isto é uma crise social, uma crise existencial. Já não sabemos quem somos, não sabemos de onde viemos e hoje estamos a trazer transtornos. Desvalorizamos muito quilo que somos para valorizarmos aquilo que não nos interessa, não nos trará ganho nenhum”

A primeira canção, B´ava, é paradigmática do que se ouvirá até ao fim, mas não faz jus ao título do álbum. Aliás, tenta. Aqui, Xixel exalta o seu pai, Hortêncio Langa, músico falecido em abril de 2021 vítima da Covid19. “Não tenho pai por causa do Corona”, diz repetidas vezes, às vezes alternando numa loucura em scatsinging. É dor que invade a música até explodir no mesmo refrão.

Foi muito difícil lembrar aqui o meu pai, mas ao mesmo tempo quis abraçar a todos que perderam os seus entes queridos nas mesmas circunstâncias. Foi igualmente uma forma de ter consolo na minha alma. Foi uma música que fiz entre choros. Chorei muito, mas foi bom.

A segunda música, Vatekile, começa liderada pelos instrumentos de cordas, vozes harmónicas, no comando e no coro, desenvolvendo-se sobre uma base rítmica vagamente inspirada no fusion e acaba por desembocar em dinamismos e acordes do AfroJazz, denso, dramático, dinâmico. Tudo feito na maior naturalidade, com espaço, tempo e harmonia. É uma viagem, das grandes, a mais intensa neste álbum.

Miela Guwa, ou Cala-te, em português, a sexta música, segue as mesmas trilhas sonoras. Existe qualquer coisa de profundamente elaborado e, simultaneamente, de intuitivo na construção desta música. O coro é extasiante e a artista, a líder, um fenómeno vocal. Em momentos mais próximos, os gritos brotam subtilmente, parecendo por vezes entulhados em cima uns dos outros, mas na verdade fluindo, organizados, livres e soltos.

A nova música, Ntumbuluku, assente em ritmos das percussões acústicas e com o chocalhar das maracas a navegar entre África e Moçambique, transforma-se numa deliciosa atmosfera do jazz. Há igualmente marcas de scatsinging — o fulcral da loucura de Xixel.

Este tema, como se depreende, foi criada com propósito funcional preciso, o de servir o desenrolar da aventura no álbum. Daí o nome que serve igualmente para ilustrar para o álbum: raízes. Sim, essas que nos levaram.

Em 10 músicas, Xixel ousa, reinventa-se e assume a maturidade. “Neste álbum temos uma Xixel mais madura, porque no primeiro álbum, "Inside me", estou mais para o jazz e o pop. Neste, "Vatekile", descubro mais o meu lado Afro, e é mais AfroJazz. A tendência é melhorar e acho que foi bem conseguido. O 'Vatekile" vem da alma”.

Sente-se e respira-se, embora não seja em todas as músicas. Esse amadurecimento, contou, vem do seu percurso artístico com grandes mestres, incluindo o seu pai. Nos seus anos de estrada, entre 2006 e 2009, integrou vários projetos, a destacar a banda Tucan Tucan, do baterista moçambicano Frank Paco, a residir na vizinha Africa do Sul. Foi nesse período que teve a oportunidade de conhecer outra qualidade e exigência musicais.

Influências sul africanas vincam-se no álbum

Um fait divers: muito antes de cantar a solo, aos 19 anos, Xixel Langa ou Xisseve, como também é conhecida, trabalha na Africa do Sul com os Tucan Tucan e Manding Khan. Depois seguiram inúmeras colaborações, em Moçambique, com artistas como Jimmy Dludlu, Stewart Sukuma, Ghorwane, Timbila Muzimba, Kapa Dech, Félix Moya e Roberto Isaías.

Além do canto, foi também bailarina. Mas prefere considerar um passado distante, embora essa arte lhe dê presença vibrante em palco nos dias de hoje. O centro da sua vida é o canto. É a música. Agora o AfroJazz. "Vatekile", o álbum, foi gravado — em Joanesburgo, na África do Sul — olhando para essas dicotomias: a dança, o canto, mas principalmente as suas influências sul africanas.

Gosto de gravar na África do Sul devido ao estilo de música que faço, o AfroJazz. O jazz é nosso, é dos antigos escravos, é dos pretos, é de África. E na África do Sul estudam isso. Eles são uma das referências culturais da nossa região. Eles estudam os ritmos africanos, o jazz em sim. É essa mistura que preciso, da nossa africanidade e do jazz que é contemporâneo. Nós aqui ainda não temos. Na Faculdade de Música ainda se estuda o clássico europeu.

(Xixel Langa)

Em suma, "Vatekile" é uma obra de paradoxos, ousada do ponto de vista conceptual, mas exalando simplicidade.