A primeira vaca nos encara, a segunda também e na sequência as demais. Ao todo cinco vacas nos encaram e, preocupados, não sabemos o que fazer. Encaramos de volta? Olhamos para o outro lado? Corremos? Qual é a melhor decisão? Resolvemos encará-las! A vaca malhada não gosta e lentamente avança em nossa direção.
Assustados, apressamos os passos. Não adianta, ela segue vindo em nossa direção e as demais a seguem. Aflitos, apressamos os passos. Tampouco adianta! Elas também aceleram. Nos desesperamos e começamos a correr. Elas começam a correr em nossa direção. Gritamos: Vamos dispersar! Cada um segue para um lado.
Monique, em seu caminho, se depara com infindáveis montes de cocôs de vaca; Rodney e Berni disparam mais à frente à esquerda, saindo da trilha e entrando em meio a vegetação; e eu resolvo entrar à direita e me deparo de cara com uma enorme ave, que assustada me ataca e levanta voo fazendo um grande barulho lembrando as hélices de um helicóptero. Minutos depois nos reencontramos num cruzamento. Monique toda suja de merda de vaca; Rodney e Berni segurando uma pequena cobra e eu cheio de arranhões nos braços fruto da tentativa de me defender do grande pássaro. Imaginação!
Calma! Mas, como chegamos até aqui?
Férias de julho! Decidimos finalmente conhecer a cidade de Gramado. Algumas semanas antes, a Monique solicita aos filhos que avaliem as opções de possíveis passeios na região de Gramado. Rodney descobre que bem próximo a Gramado, existe o Cânion do Itaimbezinho. Animado inclui esta opção na lista de passeios da viagem. Após um tumultuado dia de aeroporto lotado, voo perdido, voo reprogramado e uma viagem de carro entre Porto Alegre e Gramado, chegamos finalmente no final do dia ao hotel.
O hotel ficava numa área rural de Gramado, que adicionado ao nosso estado letárgico pelo extenso dia de viagem, resolvemos apenas ficar no hotel e planejar os próximos dias. No jantar começamos a repassar as opções de passeios. Rodney comenta de Itaimbezinho; Berni de passear no centrinho de Gramado. Verifico a distância para chegar ao cânion e percebo que são 130 km de viagem. Olhamos a previsão do tempo. Concluímos que, em função do dia cansativo da viagem até Gramado e da previsão de chuva dentro de três dias, o melhor seria passearmos no centrinho no dia seguinte e no próximo pegaríamos as pouco mais de duas horas de estrada até o Cânion de Itaimbezinho. Nosso racional nos convenceu que, apesar da distância, deveríamos ir até o cânion, considerando a baixa probabilidade de regressarmos ao Rio Grande do Sul ou a Santa Catarina apenas pelo cânion.
Uma semana antes da nossa viagem de férias comecei a sentir dores lombares, que pioraram na primeira noite mal dormida no colchão do hotel. Berni, por sua vez, vinha apresentando alguns desconfortos no joelho. Em função disto, pesquisamos as opções de trilhas disponíveis via internet e concluímos que o melhor seria seguirmos pela Trilha do Vértice e pela Trilha do Cotovelo, na parte alta do cânion. A outra trilha (Rio do Boi) seria pela parte baixa, pelo interior do cânion, bem mais longa e de terreno mais irregular. A viagem até o Cânion Itaimbezinho foi relativamente tranquila pela estrada até pegarmos o trecho de terra entre a estrada e a portaria do Parque Nacional dos Aparados da Serra (entrada ao cânion), onde passamos por alguns solavancos no carro baixo em que estávamos.
Uma vez no parque, momento de decisão. Seguiríamos pela Trilha do Vértice ou pela Trilha do Cotovelo? A primeira com 1,5 km de ida e volta e a segunda com aproximadamente 6,3 Km. Berni e eu avaliamos as condições da lombar e do joelho. Deixei para Berni escolher e ele respondeu que encararia a Trilha do Cotovelo. Seguimos caminhando por pouco mais de 2 Km através de uma trilha larga repleta de árvores, com destaque para as imponentes araucárias e acompanhando o som do Rio do Boi que corre bem próximo.
Ultrapassando um ou outro caminhante mais retardatário, chegarmos até a indicação de uma vista. Nos aproximamos, nos deparamos com uma mureta de madeira para proteção. Olhamos para a frente e vemos o descomunal cânion. Um enorme paredão de pedra, com uma deslumbrante floresta abaixo e o rio se transformando em uma cachoeira. Paramos alguns instantes em silêncio apenas para contemplar aquele “absurdo”. Pouco depois, iniciamos um diálogo de como aquilo tudo teria se formado. Imaginamos, cheio de dúvidas, que poderia ser resultado de erosões até sermos interrompidos por uma pessoa ao nosso lado para esclarecer que a origem daquela formação teria sido os “terremotos e vulcões na fase da divisão entre a América e a África, há milhões de anos e, claro, os contornos vieram com a erosão e a vegetação”. A falta que faz não passar pelo Centro de Visitantes antes da caminhada!
Olhamos para o lado à direita e nos damos conta que a partir daquele ponto tudo passaria ser uma incrível caminhada numa pequena trilha a beira do cânion, ora mais cerca, permitindo uma aproximação maior do precipício, com direito a pequenos belvederes de madeira em alguns momentos. Ao final da Trilha do Cotovelo encontramos um pequeno mirante em escadas, como se fosse uma pequena arquibancada para apreciar a deslumbrante vista.
Paramos, sentamo-nos e mais uma vez ficamos a apreciar aquele espetáculo da natureza. Instantes depois percebemos uma placa indicando a existência de mais uma trilha à frente: a Trilha do Camisas. Uma trilha de 8 Km de ida e volta. Um grupo ao lado comenta que não caminhariam por mais 8 Km, tendo ainda mais 3 Km de retorno da Trilha do Cotovelo até a entrada do parque. Rodney sedento por mais trilha provoca o Berni e ambos no final lançam a dúvida sobre mim: “se o papai topar...”. Ouço como um desafio e respondo: “Topo!” Após algumas sessões de alongamentos seguimos...
A trilha do Camisas era desprovida de grandes árvores em sua margem e consequentemente de sombra, nos deixando mais expostos ao Sol. Caminhadas interrompidas por pequenas sessões de alongamentos se repetem durante todo o percurso, afinal a coluna reclamava. Encontramos outros trilheiros, porém todos de bicicleta. Parecíamos ser os únicos a caminhar. Pela trilha nos deparamos, inúmeras vezes, com pequenos montinhos de cocô de vaca. Aí voltamos ao início. Em um determinado momento, percebemos um pequeno grupo de vacas à frente... A primeira vaca nos encara, a segunda também e na sequência as demais. Ao todo cinco vacas nos encaram e, preocupados, não sabemos o que fazer. Encaramos de volta? Olhamos para o outro lado?
Corremos? Qual é a melhor decisão? Decidimos olhar para o outro lado e seguimos caminhando tranquilamente! Realidade! Nada acontece! Caminhamos até chegarmos numa bifurcação com uma placa e os seguintes dizeres: “Fim da trilha”.
Num misto de raiva e decepção, incrédulos não conseguíamos acreditar que havíamos caminhado quatro quilômetros apenas por um passeio no campo, quando a nossa grande expectativa era vermos outra visão deslumbrante do cânion. Imaginamos as razões de termos seguido na trilha se as informações no site diziam que as trilhas para ver os cânions eram três, duas pela parte alta e uma pela parte baixa e nenhuma delas tinha o nome de Trilha das Camisas. Concluímos que foi a empolgação da vista! O que nos restava? Fazermos nosso lanche ali mesmo no entroncamento do “Fim da Trilha” e depois mais algumas sessões de alongamento para enfrentarmos o retorno de quatro quilômetros.
Na volta descansamos no mirante arquibancada da Trilha do Cotovelo; retornamos até o Centro de Visitantes; caminhamos até a Trilha do Vértice para termos mais outras visões encantadoras do cânion. Por fim, retornamos mais uma vez ao Centro de Visitantes, comemos um bom pastel de pinhão, antes de regressarmos para Gramado. No caminho de volta imaginamos diversas histórias possíveis com as vacas do caminho, incluindo que elas estariam rindo da nossa cara e pensando “mais alguns turistas trolados na Trilha do Camisas! Humanos tolos, não sabem que não há mais cânion adiante!”.















