O sonho era simples: encontrar o amor em um clique. Um match, uma boa conversa, dois corações pulsando no ritmo do algoritmo e... felizes para sempre, porque não? Mas a realidade? Horas deslizando compulsivamente, abrindo perfis repetidos com bio de três palavras, iniciando dezenas de conversas que morrem no “kkk” e colecionando silêncios como se fossem troféus de uma maratona emocional. Não apenas isso, mas a quantidade absurda de nudes, homens achando que estão selecionando a refeição do dia e o imediatismo absurdo que faz o usuário se perguntar “essa gente trabalha ou só é desesperada mesmo?” Você entra procurando amor e sai precisando de terapia com ansiolíticos pesadíssimos.

No começo, tudo parece mágico (se você for da classe dos padrões, pois do contrário vai continuar amargando a solidão e a autoestima sendo destruida). Os apps prometem democratizar o amor, acabar com a timidez, encurtar distâncias, “conhecer pessoas”. O flerte, que antes dependia de contexto, coragem e timing, agora cabe na palma da mão e numa simples mensagem. Basta deslizar para a direita, dar aquele coraçãozinho, trocar meia dúzia de frases e marcar um encontro, rezando para não virar estatística e pauta de telejornal sensasionalista. Simples, rápido, eficiente, contudo ninguém avisou que junto com a facilidade viriam também a superficialidade, a inconstância, o cansaço emocional, o assédio, conversa de baixo nível e nudes não solicitados (e com fotos de qualidade bem ruim).

Os aplicativos de relacionamento transformaram o flerte em passatempo, ou pior, em vício. O deslizar virou um ritual automático, quase hipnótico, como um zumbi fazendo o mesmo movimento repetitivo de novo e de novo e de novo. Não se busca mais alguém de verdade, mas sim a próxima notificação ou a transa da vez. Aquela pequena explosão de dopamina que vem na cabeça da pessoa que achou a próxima transa, a próxima conquista. A conexão deixou de ser um objetivo e virou uma distração. Conversas? Quanto menos melhor, o objetivo é marcar um encontro para transar. Quando alguém finalmente puxa papo, lá vem a ladainha: “Oi, tudo bem?”, “Gosto de séries”, “Signo?”. Um déjà-vu eterno de conversas mornas e previsíveis, que começam sem entusiasmo e terminam com sumiço, principalmente quando o assunto sempre pende para o lado sexual (e a quantidade de mulheres que reclama disso é enorme) ou quando o “garanhão” vê que não vai ter um sexo fácil com aquela pessoa.

Como os apps prometem amor e entregam burnout emocional somado a uma vontade de nunca mais arrumar um relacionamento

Você instala o aplicatico por conta do tédio e começa a usar ele enquanto espera o ônibus, depois enquanto está no sofá vendo série, e de repente está deslizando até no banheiro, entre um scroll e outro nas redes sociais. O app vira um brinquedinho emocional: dá pequenas doses de esperança, mas quase nunca entrega resultados. Pior: quanto mais opções aparecem, menos disposição se tem para investir em alguém. O chamado paradoxo da escolha entra em cena, com tanta possibilidade, ninguém parece bom o suficiente. E pior, as vezes nem é mesmo, pois a superficialidade desses aplicativos beira a um pires de xícara.

É como estar em um buffet com 300 pratos e sair com fome porque nenhum parece ideal, ou pior, parecem todos mofados e for a da validade. Mesmo quando se acha um bom, ao dar a primeira mordida (começaa conversar) vê que o recheio é estragado. A abundância gera ansiedade, comparação constante e uma sensação de que sempre pode vir alguém “melhor” no próximo deslize. Então, ninguém investe de verdade. Tudo fica raso, provisório, em suspenso. As pessoas têm preguiça de conversar e, ou pior, não querem conversar e mostrar a total falta de cultura e QI.

Conversar nos apps virou um ciclo de fórmulas prontas. Começa com o “oi”, passa por elogios genéricos (“vc é linda”, “curti seu estilo”, as vezes nem isso, só mandam um nude sem nem dar um “oi”) e estaciona no papo sobre signos, pets e séries da Netflix (isso quando chega a isso né, porque até conversa sobre o tempo eles tem o dom de transformar em uma conversa sexual). Parece que todos estão seguindo o mesmo roteiro, como figurantes de um teatro do tédio ou de uma pornochanchada de baixo orçamento.

Pior do que isso são as pessoas que parecem até legais no começo, demonstram interesse, trocam ideias por alguns dias (dias é bondade da minha parte) e somem, parecendo fugitivos. Às vezes, no meio da conversa (ou até mesmo sem conversa nenhuma). Às vezes, depois de um encontro (isso se o encontro acontece). Às vezes, depois de semanas de trocas diárias (principalmente depois que o ato foi consumado e o objetivo atingido). A sensação é a de estar emocionalmente sendo levado a sério por cinco minutos e descartado como se nada tivesse acontecido (isso quando tem uns usuários que tem amnésia seletiva e te mandam mensagem de novo, como se nada tivesse acontecido).

Esse comportamento ganhou nome e status: ghosting. Sumir sem explicação virou etiqueta social e pior, normalizado como se fosse comum e aceitável. Não é mais falta de educação é “autocuidado”, é “falta de tempo” ou no pior dos casos é falta de vergonha na cara mesmo. As pessoas desaparecem do nada, deixam mensagens no vácuo e seguem como se nada tivesse acontecido. Porque, afinal, “ninguém deve nada a ninguém”, certo? Se as pessoas parassem e pensassem em como seria bizarro esse comportamento ao vivo talvez pensariam 2 vezes antes de fazer isso (a quem queremos enganar? Iriam fazer do mesmo jeito).

A banalização do outro virou norma. Estamos desaprendendo a lidar com frustração, rejeição e, principalmente, com a responsabilidade emocional (essa última principalmente, parece até um dom especial). Sumir é mais fácil do que dizer “não tô afim”, “não me interesso”, “não faz meu tipo”, etc. Ignorar é mais confortável do que lidar com a conversa difícil. Nos apps, o maior truque não é conquistar é desaparecer sem culpa e arrumar uma transa fácil.

E se você ainda tiver esperança de encontrar alguém que queira compromisso sério, prepare o chapéu de explorador, porque a jornada será digna de uma expedição arqueológica. Navegar pelos apps em busca de uma relação estável é mais difícil que achar petróleo. Na verdade, é mais fácil achar a cura do câncer do que alguém que queira ter uma conversa minimamente ininteressante.

E vamos ao bingo do medo de compromisso:

“Não sei o que quero” (quero transar e dar tchau);

“Vamos ver no que dá” (quero ver se rola uma transa e depois tchau);

“Sem pressa” (a frase que ativa um ghosting automático dos que querem o fast foda);

“Gosto de deixar as coisas leves” (vulgo, vou falar de sexo e transformar qualquer assunto em contexto sexual);

“Quero algo natural, sem cobranças” (ele tem compromisso e não quer que a coitada da namorada descubra).

Tradução: estou aqui só pelo entretenimento emocional, para aumentar meu ego e/ou para arrumar uma trepada fácil e free. E do lado da mulher a maioria das vezes é assim: conversa todo dia (quando por milagre acha alguém), manda bom dia e boa noite (e se questiona se está sendo emocionada ou não), faz planos futuros (vulgo, se ilude), mas ao primeiro sinal de expectativa,éa outra parte se retrai e/ou desaparece.

A verdade é que compromisso virou palavrão ou motivo de chacota. E enquanto ninguém quer se prender, todo mundo fica preso nesse ciclo de envolvimentos rasos, que deixam cicatrizes profundas. Você sai de cada “quase algo” com mais dúvidas do que entrou: será que o problema sou eu? Será que esperei demais? Será que fui ingênuo?

Enquanto isso, os perfis viram um verdadeiro showroom de narcisismo. Selfies na academia, viagens exóticas (ou nem tanto, a gente sabe quando você foi para a Praia Grande e não para as Maldivas), fotos com cães alheios (mais fácil a gente dar match com o doguinho), legenda filosófica para parecer uma pessoa culta (mas em menos de 10 mensagens já nota que a pessoa é tapada feito uma porta) e bio digna de LinkedIn: “Sou inteligente, engraçado e espontâneo”, tudo escrito sem vírgulas, mas com emojis e erros de digitação “propositais”. O objetivo já não é mais encontrar alguém. É parecer interessante. Isso quando não vem a maldita foto sem camisa mostrando o abdômen, fazendo nossos olhos se revirarem para trás de preguiça, pois em qualquer Smart Fit da vida você acha uns 15 iguais.

O “eu” virou produto, o app é a vitrine e o match é o selo de validação e o bost no ego fragilizado. A busca por conexão foi substituída pela necessidade de curtidas disfarçadas de interação. Não se quer um par, se quer fãs e seguidores para as redes sociais. Alguém que admire, que aplauda, que alimente o ego. A troca afetiva virou exibição.

É comum ver pessoas dizendo que querem “alguém leve, divertido, sem drama”, mas não estão dispostas a lidar nem com uma conversa mais profunda. A busca é por entretenimento, não por conexão. E, ironicamente, quanto mais “disponíveis” parecemos, mais distantes nos tornamos.

Em meio a esse mar de futilidade, quem sabe conversar vira exceção. O simples ato de manter uma conversa decente passou a ser diferencial. Quem consegue escrever algo além de “oi linda” já sai na frente. Quem usa ponto final é visto como culto. Quem faz uma pergunta interessante é considerado raro.

Trocar ideia virou arte perdida. Inteligência virou fetiche. Frases com coesão, conteúdo e senso de humor são vistas como afrodisíaco. A superficialidade é tanta que conseguir sustentar um diálogo por mais de 10 mensagens já te coloca no topo da cadeia evolutiva dos apps.

E ainda assim, nem isso garante interesse genuíno. Porque muitas vezes as pessoas conversam apenas por tédio, vaidade ou carência momentânea. Elas querem sentir que ainda “têm jogo”, que ainda atraem. Mas, na prática, não estão dispostas a sair da tela para a vida real.

Talvez o ponto mais triste de tudo seja perceber que os aplicativos deixaram de mostrar quem as pessoas são, e passaram a exibir quem elas querem parecer ser. Os perfis parecem fichas de RPG: todos viajam, meditam, leem Nietzsche e ouvem jazz, mas não sabem sustentar uma conversa básica sem se esconder atrás de clichês, não sabem conversar sem terem que ir para o lado do cunho sexual.

Todo mundo tem foto em cachoeira e no mar, mas ninguém quer se molhar emocionalmente. É o fenômeno da curadoria da vida afetiva. Não se trata de ser, mas de parecer. A gente dá match com personas, não com pessoas. Cria expectativas com base em fotos bem escolhidas e bios editadas como slogans publicitários. Depois se decepciona quando encontra o ser humano por trás do filtro.

E se tudo isso ainda não te fez rir (ou chorar né), aqui vai o manual não autorizado do flerte via app do século XXI:

  • Comece com o clássico “oi”, ou “oi, td bem?”

  • Receba um elogio genérico tipo “vc é linda” e responda com “imagina kkk”, fingindo humildade.

  • Emende um papo mole sobre signos, pets e séries, que ele certamente vai conseguir transformar em algo sexual, até mesmo se você falar sobre o funeral da sua avó.

  • Dê sinais de que está curtindo, se quiser acabar a conversa, pois o cara vai sumir.

  • Se ele não sumir, diga que não curte “fast foda” e essa é garantia dele evaporar na hora.

  • Espere um mês (ou quando você reinstala o app) e depois receba um “e aí, sumida?” como se nada tivesse acontecido.

Parabéns! Você acaba de viver mais um ciclo do flerte moderno. Nos apps, a conversa nunca morre, só entra em coma ou em amnésia seletiva. O aplicativo é um eterno “quase”, um looping de expectativas frustradas, carências alimentadas e tempo perdido.

No fim das contas, o que era pra ser ponte virou labirinto (ou fundo do poço mesmo). O que prometia conexões gerou distanciamento (e ranço). E o que vendia amor, entregou meses de terapia. A ironia cruel: o app que prometia te aproximar de alguém especial talvez só tenha te deixado mais sozinho, mais cínico e mais dependente de validação.

Os aplicativos não mataram o amor. Mas colocaram ele em um reality show, onde a aparência vale mais do que o conteúdo, e onde sentimentos reais são tratados como bug no sistema. Se antes já era difícil se conectar, agora é preciso coragem para continuar tentando (ou burrice nossa, convenhamos).

Em tempos de superficialidade digital, comunicação virou sedução, profundidade virou luxo e vulnerabilidade virou risco. Se você ainda tem disposição para se mostrar de verdade, fazer perguntas sinceras, ouvir com atenção e não desaparecer no primeiro incômodo, parabéns: somos iguais a unicórnios, considerados inexistentes.

Talvez o problema não seja o app em si, mas a cultura emocional que se construiu em torno dele. Uma cultura de pressa, consumo afetivo e desconexão.

A solução? Fazer piada, ou escrever um artigo para as pessoas se divertirem (ou sofrerem TEPT com as memórias). Esse texto é um oferecimento as minhas amigas que se divertiram em ler sobre minhas experiências no meio do lodaçal, que minhas experiências traumáticas continuem a cada dia mais divertindo vocês.