A ficção ensina-nos a unir contra monstros vindos do espaço. A realidade insiste em mostrar que os monstros estão, afinal, entre nós.
Dizem que nada une mais do que um inimigo comum e toda a gente já ouviu o célebre provérbio “O inimigo do meu inimigo é meu amigo” que capta perfeitamente essa essência. Ao longo do tempo fomos percebendo a sua múltipla aplicação, especialmente no campo da estratégia, na política e nas relações internacionais. É curioso. Passamos séculos a desenhar fronteiras com régua e sangue, a erguer muros físicos e simbólicos entre “nós” e “eles”, e, ainda assim, bastaria um disco voador pairar sobre a Torre Eiffel ou a Estátua da Liberdade para, de repente, os “outros” na Terra se tornarem “nossos”. Já estou a imaginar: Putin a apertar a mão de Zelensky, Netanyahu a partilhar abrigos com líderes palestinianos, ativistas climáticos e negacionistas de mãos dadas num bunker. Tudo porque, vindo do céu, nos chega um inimigo tão absolutamente “outro” que relativiza, por momentos, as nossas divisões mais antigas.
É claro que esta ideia não é nova. Hollywood já a explorou (dezenas de vezes), como em O Dia da Independência (1996), onde o mundo inteiro, subitamente invadido por alienígenas mal-intencionados e altamente destrutivos, que levam a humanidade a unir-se num esforço de sobrevivência. Sob a liderança de um presidente norte-americano (faz lembrar alguma coisa?!) de vocação heroica, o mundo encontra uma coragem comum e vence a ameaça. A humanidade sobrevive, triunfa, claro, reencontra a sua essência: a coragem, a união, o sacrifício. Bonito e poético, sim. Mas com um pequeno senão.
Sem querer parecer muito pessimista, sejamos honestos: se amanhã avistássemos uma nave no céu, o mais provável é que as potências mundiais gastassem as primeiras 48 horas a discutir quem tem jurisdição sobre o espaço aéreo extraterrestre. Os canais de notícias estariam divididos entre teorias de conspiração, acusações mútuas e debates entre especialistas em ovnilogia. O Twitter (perdão, X) explodiria com hashtags como #AliensWelcome e #FakeInvasion. Alguns diriam que foi Trump ou Putin. Outros culpariam os chineses.
Haveria negacionistas a protestar nas ruas com cartazes a dizer “Extraterrestres não existem, é só IA”. Mas mesmo perante a aniquilação iminente, é de duvidar que abandonássemos os nossos ismos nefastos. O racismo não desaparece porque alguém tem tentáculos; o machismo não se dissolve só porque um ET é hermafrodita. O classismo, o capacitismo, o fundamentalismo ou o egoísmo não se evaporam com um ataque vindo do céu. O preconceito, seja qual for a sua forma, é resiliente. Talvez mais do que a própria espécie humana. Talvez seja até por isso que ainda não fomos visitados por “eles”. E admito que pensar nessa razão até tem uma certa piada.
E não nos deixemos enganar… mesmo que vencêssemos a invasão alienígena e hasteássemos orgulhosamente a bandeira da Terra sobre os destroços de uma nave intergaláctica, nada garante que o mundo ficasse melhor. Essa foi a ilusão precoce durante a pandemia de COVID-19: “Vai ficar tudo bem”. Sairíamos mais solidários, mais conscientes, mais humanos. Lembram-se? Pois. O que se viu foi o reforço das desigualdades, o aumento da desinformação, o regresso apressado à “normalidade”. Não estávamos todos “no mesmo barco” nem todos tivemos o mesmo destino.
Eventualmente, com a ajuda da ciência, com o esforço incomensurável das equipas médicas, dos enfermeiros e de toda a gente que estava na linha da frente, juntos, fomos aos poucos superando a maior e mais desafiante batalha do séc. XXI. Há resquícios e efeitos colaterais que vão perdurar durante muito tempo e cabe a todos refletir sobre esse período e sobre como poderemos enfrentar outra situação semelhante.
Mas admito: há uma centelha de esperança nessa distopia. A possibilidade de um choque cósmico que nos obrigasse, finalmente, a olhar para o planeta como um lar comum. Talvez precisemos mesmo de um susto à escala galáctica para deixar de fingir que as nossas guerras são nobres e os nossos muros, necessários. Seria trágico que a última hipótese de paz entre humanos passasse pela chegada de um extermínio interplanetário. No entanto, a verdadeira prova civilizacional, portanto, não está na capacidade de nos unirmos contra um perigo alienígena, mas sim na coragem de enfrentarmos as violências quotidianas e estruturais que alimentamos entre nós — aquelas que são tão humanas que já nem causam espanto.
Agora, ficções à parte, deixemos os discos voadores no cinema. O que falta acontecer, aqui neste planeta, com estes rostos, estas fronteiras e estas feridas, para que termine a lógica da guerra, do ódio e da trágica desumanização? Será mesmo preciso olhar para o céu à espera de “um monstro” para finalmente vermos o humano ao nosso lado? Talvez o verdadeiro alienígena seja a empatia: algo tão estranho, tão improvável, que já ninguém acredita que exista por cá. Resta-nos pensar o que seria mais ficcional. O facto de sermos invadidos por alienígenas a qualquer momento ou a humanidade juntar-se toda, em sintonia com um objetivo em comum? Tendo em conta o nosso passado e ao mesmo tempo a atualidade, acho que é fácil perceber qual seria a resposta.















