Sobre as colunas de um palácio, uma águia com um disco solar na cabeça observava o tempo transcorrendo à sua volta. Pessoas com túnicas de tecidos raros, com motivos egípcios, transitavam diante da imponente construção, mas sem pressa. Carros alados e placas luminosas completavam a modernidade antiga daquela cena.
Louis encontrava-se em meio a essa multidão. Estava vestido como os demais e se misturava aos passantes. Observava tudo com muita curiosidade e, embora não entendesse o idioma em que falavam, percebeu que estaria na linha temporal alternativa de que tratava seu projeto literário. Não conseguia ler o alfabeto das placas, mas ouviu perfeitamente, por algumas das pessoas ali presentes, a palavra Mennefer. O que significava?
A águia saiu de seu posto e desceu até a praça. Parou em frente a Louis e, após uma reverência, disse em francês: “É chegada a hora de preparares a tua obra. Vai, ó jovem! As Musas de todas as tradições que já passaram por este mundo aprovam teu intento e aguardam teu contacto para inspirarem tuas palavras. Coragem!”.
Despertou mais uma vez num sobressalto. Estava arrepiado dos pés à cabeça, como se em seu sonho uma revelação imensa, ancestral, tivesse sido feita. E talvez fosse exatamente esse o caso.
Pláton olhava curioso para seu tutor. Quando se lembrou da adoração dos egípcios pelos gatos e de sua simbologia no Antigo Egito, arrepiou-se novamente. Era mais um sinal para enfim mergulhar de cabeça em seus escritos, além dos meros parágrafos que havia produzido.
Fez sua rotina matinal e, depois do café da manhã (café bem forte, um pão com manteiga e meio blansaïme de chocolate e framboesa), sentou-se diante do PC. Quase que instintivamente, Pláton subiu em seu colo e ali se aninhou. Como era domingo, haveria bastante tempo para o jovem escrever e para o felino dormitar.
Embora não fosse muito religioso – era um espiritualista, mas sem se ligar a dogmas –, fez uma breve pausa, antes de começar: com as mãos postas junto ao coração e os olhos fechados, pediu que a inspiração prometida no sonho viesse naquele momento e sempre que fosse escrever. Também pediu que o resultado fizesse jus àquele tempo tão antigo e tão importante, e que fosse honroso à memória de todas as pessoas que nele viveram. Percebeu que sua prece fôra atendida quando Pláton deu um longo miado. Pôs-se a escrever – não sem antes pesquisar sobre a palavra revelada no sonho: era nada menos que uma versão moderna de Mênfis!
A produção transcorria de forma fluida, quase sem alterações. Os parágrafos e as ideias pareciam um rio infinito serpenteando pelos Kb do documento criado. Vez ou outra, Louis parava para pesquisar algo ou confirmar uma informação, mas dificilmente havia interrupções.
Eram 14h00 quando a fome lhe avisou que já havia passado a hora de almoçar. Pláton, que muito tempo antes voltara à cama, estava em mais um cochilo. O rapaz olhou para o gato e sorriu por causa de tamanha tranquilidade.
Acabou pedindo alguma coisa rápida para comer – um risoto de funghi de um restaurante próximo – e, assim que recebeu o pedido, foi para a cozinha. Arrumou o prato e os talheres e achou que merecia um vinho: abriu um Dornaccio tinto que encontrou em sua pequena adega. Como sobremesa, a outra metade do blansaïme e um espresso de máquina. Pouco depois das 15h00 já havia até lavado a louça – era hora de retomar o trabalho.
No começo, a fluidez se dissipou um pouco, mas logo alcançou o ritmo de antes. Páginas e páginas do arquivo Word iam se completando com parágrafos, cenas e diálogos, de forma quase frenética.
Passaram-se horas naquela produção intensa – às vezes, até uma gota de suor era notada. Mas Louis não se sentia cansado, ao contrário: parece que as Musas, ao lhe darem a inspiração, também lhe forneciam algum néctar de vitalidade.
Pouco antes das 19h00, o rapaz saiu do quase transe e parou de escrever. Espantou-se ao ver a quantidade imensa de páginas que estavam salvas no computador. É claro que ainda haveria bem mais a ser escrito – e revisado –, mas aquela verdadeira tour de force já deixara o autor tranquilo e certo do caminho que escolhera. Com alguns cliques, leu por alto parte do escrevera e sorriu, satisfeito. Agradeceu às Musas novamente, salvou o arquivo – no computador e na nuvem – e foi à varanda para descansar um pouco.
A noite estrelada mostrava-se belíssima: era possível ver perfeitamente diversas constelações. Louis sentou-se e ficou por vários minutos apenas observando aquele espetáculo celeste – acompanhado por Pláton, que se reunira ao tutor. Sua satisfação e sua gratidão eram imensas, e o bem-estar que sentia parecia o prenúncio de algo grandioso que estava por vir.
Ainda levaria algumas semanas trabalhando em seu projeto, escrevendo e revisando, até chegar ao resultado a ser encaminhado a Eugène Hyndormais. Tirava os domingos para produzir mais e nos outros dias, mais do que escrever, verificava o texto feito e as informações de suas pesquisas. Nesse ínterim, trocava mensagens com o Prof. Hakeem al-Najib, Gérard de Joutronnard e Rosalie d’Astrournal, contando o andamento do livro e agradecendo novamente por toda a ajuda.
Quando viu seu livro terminado, ficou muito contente e satisfeito. Faltava apenas o título, mas as Musas mais uma vez lhe foram bastante gentis: o nome lhe foi revelado num dos vários sonhos “egípcios” que continuava a ter. Faria apenas mais uma revisão antes de enviar o material ao editor.
Como diriam os romanos: alea iacta est!















