Todas as manhãs, ele tinha o hábito de caminhar na beira do rio que banhava a sua cidade. Era nesse momento que esquecia dos boletos, da falta de amor e de todas as lembranças ruins que foram se acumulando ao longo dos anos. Ele caminhava sempre no mesmo horário, seguindo uma rotina que fazia ele se sentir pertencente a alguma coisa, que ajudava a vida a ter sentido.

Naquela manhã, ele saiu em um horário diferente. Tinha um pressentimento de que algo estava prestes a acontecer. Mesmo assim, seguiu seu rumo, distraído, como de costume, aproveitando o momento e esquecendo da vida. Era inverno e o sol estava dando as caras depois de semanas de chuva ininterrupta. As pessoas saíam das suas tocas que cheiravam a mofo e as roupas tinham odor de cachorro molhado. Ele seguiu caminhando até que, sem perceber, ela saiu do carro, fechou a porta e começou a caminhar ao seu lado.

Caminharam juntos, no mesmo ritmo, por menos de 10 metros, até que ela esbarrou numa pedra solta, e ele, num gesto cavalheiresco, segurou a mão da moça para impedir que caísse. Ambos se olharam e sorriram. Até aí, tudo normal. Porém, o inexplicável aconteceu: eles seguiram de mãos dadas e fizeram todo o trajeto assim. No fim, ela largou a mão do rapaz e entrou de volta no carro. Nenhum dos dois trocou uma só palavra. Depois do ocorrido, olharam os celulares e conferiram o horário.

No dia seguinte, ele acordou, conferiu a hora e saiu de casa tentando cumprir o tempo do dia anterior. Então, chegando no ponto do encontro, a viu saindo do carro e vindo em sua direção. Quando se cruzaram, ela foi direto pegar em sua mão. E assim seguiram, caminhando mais um dia tal qual um casal apaixonado.

Por meses, essa rotina se repetiu. Diariamente, ambos controlavam a hora e saíam de casa para chegar ao local e compartilhar uma caminhada em total silêncio. Andavam de mãos dadas, mas assim que se separavam, voltavam às suas vidas normalmente, ignorando o acontecido, como se jamais tivesse existido.

Num desses dias, ela pegou o celular, pois tinha recebido uma mensagem. Ele pode ver na tela o nome do contato: um nome incomum. Na mensagem, a pessoa estava dando oi e chamando a moça pelo nome. Então, foi fácil achá-lo em redes sociais e procurá-la nos amigos do rapaz. Começava, assim, o primeiro contato com a vida um do outro. O mais curioso era que se seguiam, mas não mandavam mensagem alguma. No máximo, curtiam as postagens um do outro e olhavam fotos e posts, descobrindo detalhes sobre suas vidas: hábitos, profissão, amigos e família.

O tempo foi passando e as caminhadas eram quase diárias, com exceção de dias chuvosos. E eles cada dia mais próximos, já criando sentimentos um pelo outro. Tudo foi ficando tão intenso que, numa manhã ensolarada e silenciosa, ele se ajoelhou em frente a ela e, como num filme de cinema mudo, deu-lhe uma aliança. Ela abraçou-o em prantos.

A data do casamento foi combinada por mensagens na rede social, pois eles não queriam estragar a magia do silêncio que os unia. Esse foi o primeiro contato que eles fizeram por escrito, inclusive. Depois da data marcada, foram confeccionados os convites e a distribuição para os convidados começou. As pessoas andavam tão absortas em si mesmas e desinteressadas pela vida alheia que nem perguntaram muitos detalhes. Somente aceitaram e confirmaram o comparecimento no evento.

No dia do casório, todos estavam lá. Alguns movidos pela amizade, alguns pelo amor, outros pela comida e bebida, mas muitos estavam lá pela curiosidade mesmo.

—Onde ele conheceu essa moça?

—Não faço a mínima ideia, mas ele nunca foi muito de expôr a vida particular mesmo. Então, pode ter vindo de qualquer lugar. Até de aplicativos de namoro. Tomara que não seja cilada.

—Onde ela conheceu esse cara, afinal? Nunca nos falou nada.

—Dizem que é amor antigo. Mas ouvi que pode ser até familiar. Por isso, ela escondeu.

Apesar das fofocas, tudo corria bem, até que chegou a hora do “você aceita…”.

—Sim.

—Sim??? Você fala? Eu passei meses tentando aprender libras para te surpreender e agora descubro que você fala.

—Meu amor, empatamos, então. Tive que pagar essa mesma porra de curso para que nossa lua-de-mel não fosse um desastre.

—Desculpa, querida, mas agora tem alguém aqui que se opõe a esse casamento: eu mesmo. Não posso confiar numa pessoa que passa meses fingindo não ter o dom da fala.

—Ah, é, meu lorde? Acho que essa via tem mão dupla.

Ambos, então, deram as costas para o padre e para os convidados e seguiram caminhando, cada um para um lado.

Depois do fiasco, meses se passaram. E foi num ensolarado dia de verão, num horário completamente aleatório, que ela caminhava na beira do rio e sentiu uma mão tocar a sua.