Era 2008. O tempo em que os celulares não tinham tela de toque, as músicas vinham em MP3 players com menos de 2GB, e as conversas mais importantes aconteciam no MSN depois das 18h. As escolas públicas ainda tinham ventiladores pendurados no teto, quadros verdes riscados de giz branco e carteiras que já tinham nomes de outros estudantes gravados a caneta. Ali, no turno da tarde, entre as paredes descascadas e o som abafado de conversas no corredor, dois corações adolescentes aprendiam a sentir sem dizer.

Lucas chegava todos os dias com o skate debaixo do braço. Cabelo castanho, sempre levemente bagunçado, camiseta preta com estampa rachada de alguma banda de rock alternativo, e o olhar meio perdido, meio atento. Sempre andava com seus dois amigos Cleiton e Pedro. Ouvia suas músicas no volume máximo, rabiscava letras nos cantos do caderno e sentava na mesma quarta cadeira da fileira dois da direita. Ali, com a mochila entre os pés e o olhar fixo em qualquer lugar que não fosse a frente, ele observava o mundo.

Mais especificamente, observava Marina.

Ela entrava na sala como quem flutua. Cabelos loiros escorrendo perfeitamente até o meio das costas, olhos azuis que brilhavam mesmo sem luz direta. Não precisava falar alto pra ser notada. Havia algo nela que prendia a atenção — uma tristeza bonita, um silêncio carregado de histórias que ninguém sabia. Marina andava com o grupo de sempre, mas era fácil perceber que estava sempre um pouco distante, como se vivesse metade do tempo em outro lugar.

Lucas e Marina só se conheceram no Ensino Médio, exatamente naquele ano. Nunca haviam trocado mais do que duas ou três frases — e mesmo essas frases foram sobre coisas banais, como "a professora pediu pra passar a folha" ou "você tem corretivo emprestado?". E ainda assim, havia algo entre eles que não precisava de palavras.

Os dois sabiam.

Sabiam do que sentiam.

Só nunca disseram.

Às vezes rolava até um certo desconforto de ambos, por nunca terem dito nada, como se um achasse que o outro era convencido demais! Mas era apenas a timidez da adolescência inocente dos anos 2000 falando mais alto.

Lucas não se lembrava quando começou a se apaixonar por Marina. Talvez tenha sido numa tarde em que ela usava uma presilha azul no cabelo. Ou no dia em que ela ficou olhando para a chuva cair pela janela durante a aula de matemática, com os olhos tão distantes que ele teve vontade de entrar no mundo que ela via. O fato é que, a partir dali, ela passou a ocupar o espaço entre uma batida e outra do seu coração. E ele nunca teve coragem de dizer nada.

Era skatista. Sabia cair, levantar, se ralar e seguir. Mas quando se tratava dela, o medo de errar era maior do que qualquer manobra arriscada. Preferia sentir de longe, guardar tudo nos versos que escrevia no caderno, onde rabiscava frases como “ela brilha, mesmo quando chove” e “o que eu sinto, ninguém vê”.

Marina, por sua vez, também sabia.

Sabia que o jeito como Lucas a olhava era diferente. Que ele disfarçava mal quando ela passava perto. Que às vezes colocava os fones de ouvido, mas não ouvia nada, só pra fingir distração enquanto a observava de canto de olho. Ela sabia, mas nunca puxou assunto. Tinha medo. Medo de quebrar a mágica. Medo de transformar aquele silêncio bonito em um diálogo desastroso.

Ela escrevia cartas que nunca entregava. Em seu caderno de capa azul havia páginas inteiras só sobre ele. Coisas como “hoje ele sorriu, e eu não consegui sorrir de volta” ou “se ele soubesse o que eu guardo aqui dentro...”.

O tempo passava. As aulas continuavam. A vida seguia. E o amor crescia — sem beijo, sem toque, sem promessa.

Até que chegou o último semestre do segundo ano.

O clima na escola mudou. As aulas ganhavam um tom de despedida disfarçada, e os professores já falavam em preparação para o terceiro ano como se todos fossem continuar exatamente do mesmo jeito. Mas Lucas sentia que algo estava para mudar. Sentia que o tempo estava escorrendo rápido demais entre os dedos. E, mais do que nunca, Marina parecia inalcançável.

Veio a feira de ciências — o evento mais esperado do ano. Por algum motivo, Marina parecia mais radiante naquele dia. Os cabelos estavam soltos, ainda mais lisos do que o normal, e ela parecia brilhar, mesmo sob as luzes frias da quadra coberta. Ria com as amigas, tirava fotos ao lado do estande dela, explicava com entusiasmo um projeto sobre o efeito das cores no humor humano. Lucas a observava de longe, sem conseguir tirar os olhos.

Naquele mesmo dia, ele havia aprendido a completar uma nova manobra de skate: um hardflip que vinha tentando havia semanas. Conseguiu acertar sozinho na quadra da escola, mais cedo, antes dos portões abrirem para a feira. Pensou, por um segundo, que se encontrasse Marina depois, poderia comentar sobre isso, fazer piada, puxar assunto. Mas o pensamento passou, como todos os outros.

Porque, no fundo, ele sabia: nada que dissesse pareceria suficiente diante do que sentia.

Ela estava linda demais. Tão linda que doía.

Naquele dia, não houve conversa. Nem um aceno. Apenas olhares trocados entre multidões. Ele, suando por causa da apresentação da turma, naquele dia deveria apresentar um coração bovino simulando a circulação sanguínea humana. Ela, com um crachá no pescoço e os olhos atentos a tudo — menos a ele. Ou talvez estivessem atentos, e ele é quem não percebeu. O silêncio entre os dois parecia gritar mais alto que o som dos microfones e dos estandes barulhentos.

Depois da feira, a rotina seguiu, mas o clima era outro. O final do ano se aproximava, e cada dia parecia ter mais peso do que o anterior.

No último dia de aula, Lucas chegou mais cedo que o habitual. Não havia mais provas, nem tarefas. Apenas conversas soltas, risadas altas, despedidas. Marina estava com um casaco branco amarrado na cintura e o cabelo preso em um coque malfeito, como sempre fazia quando estava distraída.

Lucas a viu cruzar o pátio, rindo de algo que uma amiga dizia. E ficou parado, perto da escada, com o skate encostado ao lado da perna, desejando que o tempo parasse ali. Que ela olhasse. Que, por algum motivo do destino, ela viesse até ele e dissesse algo que desbloqueasse tudo o que ficou guardado.

Mas isso não aconteceu.

Durante a última aula, poucos prestavam atenção. Era mais um encontro de despedida do que uma aula de verdade. Marina sentou duas fileiras à frente de Lucas. Por mais que ele tentasse disfarçar, não conseguia parar de olhar.

E foi ali, naquele momento comum, que as lágrimas começaram a surgir. Não caíram de uma vez. Vieram devagar, queimando os olhos, enquanto ele fingia encostar o rosto na mão para disfarçar. Não era só por saber que o ano havia acabado. Era por saber que ele não estudaria mais no turno da tarde, e que iria embora sem dizer o que sentia a Marina. Era por nunca ter dito nada. Por nunca ter tido coragem de cruzar a linha entre o "quase" e o "talvez".

Quando o sinal tocou, muitos correram para abraçar os amigos. Jogaram água uns nos outros. Pularam, comemoraram, tiraram fotos, assinaram nas camisetas.

Lucas saiu devagar.

Passou pelo corredor. Parou ali por alguns segundos. Ela estava ao longe, se despedindo de alguém. Ele quis correr até ela, segurá-la pelo braço e dizer tudo de uma vez. Falar que por um ano inteiro a amou em silêncio. Que ela foi a inspiração de cada verso escondido no caderno. Que ela era a única coisa que fazia a escola parecer suportável.

Mas, mais uma vez, não disse nada.

Pegou o skate, desceu a rampa e foi embora, engolindo o choro que insistia em voltar.

Marina o viu de longe. Quase chamou. Mas não chamou. Porque não sabia o que diria se ele virasse. Porque, talvez, ela também tivesse medo do que poderia acontecer se tudo aquilo saísse do lugar de segurança onde sempre esteve: o silêncio.

Naquele dia, quando chegou em casa, Lucas escreveu:

"Ela foi embora e não levei nada dela. Nem um abraço, nem um bilhete, nem um olhar final. Só o que ficou dentro de mim. E isso, talvez, seja mais pesado do que qualquer lembrança."

Marina, naquela mesma noite, tirou da mochila a folha de chamada que usava como marca-página. No verso, escreveu com sua letra pequena:

Algumas coisas são mais bonitas quando não acontecem. E talvez você nunca saiba, mas eu senti tudo também.

Guardou no caderno de desenhos. Nunca mostrou pra ninguém.