O sono foi reparador. François acordou às 7h30 com o alarme do smartphone e, em meia hora, já estava descendo para o café da manhã, depois de fazer sua higiene matinal e mandar mensagens para seus entes queridos. Passou pela recepção, onde uma jovem usava um crachá em que se lia “Marianne”, e foi ao salão principal – alguns dos hóspedes já estavam lá.

Viu pessoas bem interessantes, até alternativas, fazendo seu desjejum. Chamou-lhe a atenção a presença de um senhor de cerca de setenta anos, de voz grave e um pouco rouca pelo tabaco, que lhe parecia conhecido. Lembrou-se depois: era Ernest Glouzanne, um crítico de ópera famoso no sul do país. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça.

Tomou calmamente seu café da manhã, observando mais pessoas que chegavam ao salão: mentalmente já criava cenas que poderia reproduzir em suas aquarelas. Uma pena que o caderno de desenhos havia ficado no quarto – decidira que não mais se separaria dele durante toda a viagem. Quando terminou, por volta das 8h30, subiu novamente. Levaria vinte minutos para descer e ganhar a cidade.

Krantournac já estava quase toda desperta quando François passou a flanar por suas ruas, a princípio sem rumo certo. As lojas se abriam e o cheiro de café fresco vindo dos bistrots se misturava ao de flores recém-colhidas colocadas diante das floriculturas. A inspiração era totalmente sensorial: aqueles aromas criavam imagens que se transformariam em futuras aquarelas.

Vez ou outra, François se encostava diante de algum muro, sempre de modo a não atrapalhar os transeuntes, e rabiscava algo em seu caderno; quando encontrava um banco, numa praça ou num jardim, aproveitava-se dele por breves instantes e fazia trabalhar o lápis 6B, um de seus fiéis companheiros de criação.

A fome começou a dar sinais e, como já estava próximo à Marina de Krantournac (nem se dera conta de que estava de novo perto do hotel!), escolheu um bistrot para comer algo – talvez um croissant e um blansaïme acompanhados por um café-crème.

Passava das dez da manhã. Àquela hora, a marina estava em plena atividade. François decidiu aproveitar um píer com vários barcos e pôs-se a desenhar enquanto seu pedido não chegava. O Sol ainda não estava muito alto e as sombras por ele projetadas davam ao cenário um toque todo especial.

Já apreciando a culinária local, virou levemente a cadeira, de modo que estava de frente para o escritório principal da marina. Atrás dele via-se uma igreja – que depois o rapaz descobriria ser de Saint-Ambroise – e alguns prédios históricos, como o da Bolsa de Valores e o da Mairie. Posteriormente iria até a praça onde estavam, para melhor apreciá-los.

Terminados os rascunhos do píer e do escritório, decidiu que era hora de partir. Pagou e pôs-se a caminhar em sentido norte até a mencionada praça – a Place Marquisale, com bustos de alguns dos Marqueses de Krantournac; depois de escolher um banco perto de uma frondosa árvore (era quase meio-dia), abriu novamente o caderno e começou novamente a desenhar.

Os lanesanos são hospitaleiros e gentis, mas também curiosos – principalmente os do Sul de Terre de Sainte-Sophia. Mesmo a cidade já não sendo tão pequena, muitas pessoas ainda se conheciam (como acontecia trinta ou quarenta anos atrás) e alguém de fora acabava chamando a atenção.

Uma senhora de cerca de oitenta anos, ao ver François sentado, aproximou-se.

Bonjour, meu jovem. Sou Hourdonnay, Florence Hourdonnay. Desculpe a curiosidade, mas não pude deixar de notar sua concentração ao desenhar e gostaria de saber mais sobre seu trabalho.

Bonjour, madame. Pourmondot, François, Pourmondot. – respondeu o rapaz, consciente de que uma abordagem assim é totalmente aceitável no Reino de Lanes – Claro, com prazer! Vim para Krantournac para me inspirar – sou de Phlarmonsy. Gosto de fazer esse tipo de viagem de vez em quando e é minha primeira vez na cidade.

— Seja bem-vindo! – disse ela, cordialmente, sendo respondida com um aceno de cabeça – Nossa cidade está sempre de portas abertas aos artistas. E gostei da sua ideia de viajar para se inspirar. Sabe, na minha juventude eu pintava, e às vezes ia para o chalé da família, a alguns quilômetros a oeste, para ter inspiração. Nunca fui muito mais longe com esse objetivo, embora eu me sentisse renovada a cada “retiro”. – fez as aspas com as mãos.

— Eu entendo perfeitamente.

— Se não se importa, posso ver seus desenhos?

S'il vous plaît! Fique à vontade. – ofereceu o caderno à senhora, que o devolveu alguns instantes depois.

— Estou impressionada. Meus parabéns!

Merci beaucoup.

— Realmente gostei de sua arte. Apenas trabalha com desenhos a lápis ou de outros tipos também?

— Na verdade, meu foco principal são as aquarelas. Mas gosto de rascunhar num caderno e depois reaproveitar o que acho mais interessante.

— É uma excelente forma de trabalhar, sem dúvida! – mexeu na bolsa à procura de algo e dela tirou um cartão, que entregou ao rapaz – Aqui estão meus contactos. Sempre que quiser, pode me mandar uma mensagem. Eu adoraria conhecer mais de sua arte, quando possível.

Merci beaucoup. Depois mandarei por e-mail fotos de algumas aquarelas. Fiz uma exposição recente na minha cidade.

— Excelente! – levantou-se e ofereceu a mão, que François aceitou e delicadamente apertou – Agradeço por estes momentos e dou-lhe novamente as boas-vindas. À bientôt! – saiu.

À bientôt! Sou eu quem agradece. – com um aceno de cabeça, ela partiu.

Que interessante interação aquela! Como exercício de memória, François ficaria mais algum tempo sentado ali, tentando desenhar, de memória, o rosto da gentil Florence Hourdonnay.