Por vezes, sem aviso, imagino o meu próprio funeral. Não com mórbida angústia, mas como quem escreve um guião numa tarde de tédio existencial. Fantasio com quem apareceria. Quem sairia do trabalho mais cedo para me prestar homenagem... quem choraria, quem se fingiria comovido, quem aproveitaria a ocasião para reencontrar velhos amigos. É uma espécie de vaidade póstuma, uma curiosidade quase sociológica, ou talvez só um episódio de narcisismo doméstico. Vejo-me ausente, claro. Encostado ao caixão fechado, porque a ideia de me ver ali, imóvel e pálido, também me incomoda. Prefiro imaginar o velório como um palco onde os vivos fazem a sua última performance perante o morto ou perante a ideia que construíram dele.
Questiono-me: que versão de mim sobreviveria nesse dia? O filho prestável, o companheiro amoroso, o amigo bem-disposto, o colega distante? Seria lembrado pelos defeitos confessáveis ou pelas virtudes discretas? Alguém contaria aquele episódio embaraçoso que sempre quis esquecer? Haveria risos tímidos no meio das lágrimas? Uma playlist que fizesse justiça ao meu gosto musical e não um “Avé maria” genérico? Mas depois caio em mim.
Esse filme mental, embora com uma realização competente, tem um pequeno detalhe: eu não estarei cá para vê-lo não escutarei os discursos, não saberei quem foi ou deixou de ir. Não saberei se choveu ou fez sol, se o café estava amargo ou se alguém ficou a remoer palavras que nunca disse. Aí percebo… meio desiludido, meio aliviado, que o meu funeral não me pertence. É dos outros. É o momento deles, não o meu. É estranho, não é? Pensarmos no nosso funeral como se fosse um espetáculo em que queremos controlar o público e o guião, esquecendo que o protagonista já saiu de cena. Será este pensamento normal? Ou estarei só a ser egocêntrico, com um toque dramático? Talvez um pouco dos dois.
Fui a poucos funerais. Dizer que não gosto de funerais soa quase redundante, pois ninguém gosta. Mas até agora, tive a sorte de ter perdido poucas pessoas próximas. Ainda assim, é sempre um momento estranho. O ambiente torna-se pesado, o ar fica denso e ninguém parece saber bem como estar ou o que dizer. Cresci habituado a ver funerais em filmes de Hollywood: a atmosfera dramática, as lágrimas medidas, o convívio posterior na casa do familiar, as mesas cheias de comida e as memórias partilhadas. Por cá é diferente. Aqui há o velório, esse último adeus silencioso, antes do funeral propriamente dito. Menos encenação, mais peso.
Depois, há a questão da morte em si. Se foi doença, acidente, suicídio ou até assassinato. Depois, cada circunstância parece decidir se o caixão ficará aberto ou fechado no velório. E há sempre aquelas figuras discretas que lidam com isto todos os dias: os funcionários das agências funerárias. São eles que preparam os corpos, vestem-nos, maquilham-nos, reposicionam-nos com cuidado para que pareçam “normais” à última vista. Imagino que, para eles, “cada um seja apenas mais um”. Para nós, nunca é “mais um”. São defuntos, velórios, câmaras ardentes, cremações, pêsames. Palavras pesadas, carregadas de rituais e de dor.
Depois há também a “burocracia” da morte. Primeiro, avisar a família, amigos, conhecidos. Passar por toda aquela angústia, aquela explicação sem explicar nada e aqueles momentos de dor, vezes sem conta. E mesmo depois do funeral, vem as dores de cabeça outra vez burocráticas. Os “papeis pós-morte”. Habilitação de herdeiros, divisões, chatices e ainda mais papeis. No fundo, é o sofrimento dos que ficam, que assistem à partida de alguém que, tantas vezes, parecia novo demais, não merecia ter sofrido tanto ou que decidiu partir por vontade própria, deixando-nos sem chão. A morte, é sempre dos outros.
Eu continuo a pensar como será quando chegar a minha vez. Imagino o meu próprio funeral, sem razão aparente. Sei apenas que quero ser cremado. Não quero deixar o peso de um túmulo que obriga visitas formais, nem ser lembrado através da pedra fria. Prefiro que as minhas cinzas repousem num lugar bonito, para que quem quiser se lembre de mim sem obrigação nem luto prolongado. Porque, no fim, quando já não estiver cá, não terei voto da matéria. A dor será dos outros. Não tenho curiosidade em saber quando virá o meu último dia, nem de que forma. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a muito tempo. Espero que seja daqui a muito tempo. Mas, sem razão aparente, continuo a pensar no meu funeral, como se imaginar o fim fosse, paradoxalmente, uma forma de me sentir vivo.
Na verdade, há quem diga que pensar na própria morte é um sinal de consciência plena de vida. Outros acham-no uma excentricidade narcisista. Afinal, todos nós queremos deixar alguma marca — ainda que pequena, ainda que invisível — no coração de alguém. Imaginar o próprio funeral talvez seja apenas o sintoma de um desejo antigo: o de ser lembrado com ternura. E se isso for ser egocêntrico, então que o sejamos. Porque talvez, no fim de tudo, o que queremos mesmo saber, embora nunca venhamos a descobrir, é se alguém vai sentir a nossa falta com verdade. E se a resposta for sim, talvez a vida já tenha valido a pena.
Playlist para o meu funeral
“Gymnopédie No. 1” – Erik Satie.
“Talk Is Cheap” – Chet Faker.
“Canção de engate” – António Variações.
“A Terra Gira” – Os Quatro e Meia.
“In The Air Tonight” – Phill Collins (a partir do minuto 3:41).
“last day on earth” – Tai Verdes.
“Don´t Worry Be Happy” – Bobby McFerrin.















