Das coisas que mais me tiram do sério, há um pódio muito claro. Não tem que ver com política, nem com a eterna espera no balcão dos correios, nem sequer com o fogo de artifício que amedronta os animais. São irritações mais quotidianas, mas íntimas, que talvez não façam manchetes, mas que corroem por dentro como quem é obrigado a sorrir em frente a um copo de Coca-Cola morna. Sim, bebida fresca que não está fresca devia ser considerada fraude emocional.
Há poucas traições maiores do que pedir uma bebida fresca em busca de alívio depois de um dia ao sol ou de um esforço físico desmedido e receber um copo de bebida que parece ter estado só a fazer turismo pelo frio. Fresca só de nome, à temperatura ambiente com pretensões. É como se me dessem uma sombra pintada numa parede. É por isso que sou consumidor devoto, quase litúrgico, de gelo. Cubos, pedras, lascas – venham eles. Se pudesse, talvez me tornasse produtor doméstico de gelo artesanal, com moldes específicos, como quem cultiva bonsais: “gelo com alma”.
Depois vem o ar, ou a ausência dele. Não é o calor que me incomoda mais. O calor até pode ser tolerável… é o “ar abafado”. Estar num sítio onde o ar não circula é como estar a tentar ler um livro numa língua que não se compreende. O corpo sente-se prisioneiro, os pulmões em greve. É uma espécie de claustrofobia invisível, onde o que falta não é o espaço, mas oxigénio. E há sempre aquele dilema: abre-se a janela, mas “entra pó”; “entra barulho”; “as pessoas vão olhar cá para dentro”. Então ficamos ali, todos a suar em silêncio, vítimas da estética da estagnação. E se há uma categoria onde essas duas irritações se unem numa harmonia infernal é na cozinha sem exaustor ligado ou pior: com exaustor desligado e janela fechada.
Parece que há um pacto secreto contra o arejamento. Cozinhar sem renovar o ar é como respirar dentro de uma air fryer. A comida pode até ficar boa, mas a experiência… a experiência é um campo de batalha para os sentidos. Não sei se é falta de sensibilidade olfativa, preguiça de carregar no botão ou uma visão romântica da “tradição portuguesa”, onde se cozinha como antigamente com fumo e tudo. Mas há um limite entre o nostálgico e o sufocante. E esse limite é atravessado sempre que alguém refoga cebola sem abrir a janela.
Claro, quando começo a pensar neste assunto lembro-me de mais uma ou outra situação que me deixa perplexo e até às vezes irritado. É o caso de andar de carro com pouco oxigénio e se for em tempo de chuva e humidade alta, tudo fechado, parece que estamos numa caixa hermética com rodas. Se o carro for antigo e não tiver ar condicionado, com a chauffage a pedir reforma e a não trabalhar como deve ser – aspirando só o monóxido de carbono do carro da frente – os vidros ficam todos embaciados e andamos com um paninho de microfibra a “limpar o embaciamento”. Mas na verdade não estamos a limpar coisa nenhuma, estamos é a espalhar a gordura dos vidros por toda a parte e ficamos com a visibilidade de um míope a olhar para as letras pequeninas dos ingredientes nos frascos de salsicha.
Abrem-se os vidros para renovar o ar, mas a chuva tocada a vento molha o carro todo. Uma boa solução é aquele acessório que se coloca na ponta dos vidros, os chamados “chuventos”, o que permite termos alguma entrada de ar sem apanhar chuva. Para quem fuma, é um acessório obrigatório. Há quem acredite também que o carro ganhe cerca de cavalo e meio de potência com a sua instalação e se ainda forem fumados, então é que é.
Só há uma situação de que me lembro que não é assim tão mal e até se percebe. É quando frequentamos uma piscina coberta, sobretudo as municipais. Água quente entre os 26º C e os 28º C e a temperatura ambiente a 30º C. Nem se consegue respirar como deve ser. Mais uma vez, os vidros embaciados, e os óculos de natação de igual forma. Sim, os óculos embaciados são um desastre. Há variadíssimos truques para que não aconteça isso, mas muito sinceramente, nunca funcionaram como prometiam. Depois de umas braçadas, no fim, só quero tomar banho de água fresca para revitalizar o corpo, mas a piscina municipal que frequento só tem água quente. Saio de lá a sentir que o meu corpo não tem esqueleto e sou simplesmente todo de borracha e preciso de 2 dias para recuperar.
No fundo, talvez isto seja tudo uma grande metáfora para o que me irrita mais do que bebidas mornas, ar parado ou fumo em excesso: a ausência de frescura na vida. Frescura como liberdade, como fluidez, como o espaço para respirar e circular. É isso.
Gosto de viver num mundo onde o ar se mexe, o gelo estala e a janela está sempre prestes a abrir-se. Se me virem, ali no canto, com um copo cheio de gelo e perto de uma janela entreaberta, não se admirem… estou só a tentar sobreviver à vida com alguma dignidade. E oxigénio.















