Dez anos mais tarde, Albino é inspetor sénior da Força de Inspeção. As casas mantêm-se pobres e desgastadas. Não há sinal de pessoas na rua, apenas um sinal de desolação.
O mundo continua em silêncio, o sol acorrentado, os pássaros rastejantes, as gentes submissas perante este regime autoritário e opressor. Apenas Albino mudou neste mundo para um homem corpulento, de uniforme exímio e um cargo de respeito, condecorado pelo regime.
Albino chega no seu carro guiado por um motorista. Observa as casas com alguma indiferença até que pede para parar numa casa não muito diferente das outras, mas ao que parece a porta da sua antiga casa.
A porta está aberta, ele entra perguntando se está alguém em casa. Os cortinados rasgados, a sala com a mobília coberta por lençóis, o chão desgastado e com ripas de madeira partidas.
Albino não tem a certeza que é a casa dele, a memória escasseia destes tempos antes de integrar na Força de Inspeção. Atravessa o corredor, as suas botas pretas encarecidas de verniz preto, fivelas douradas, estalam no chão.
Na porta para o jardim, lembra-se de uma árvore grande, mas ali nada existia. As memórias estão enevoadas. Ao abrir a porta de rede, um espaço desolado, um jardim moribundo. Olha-o com os olhos semicerrados como se procurasse algo que já não existe. Ao canto, alguém sentado numa cadeira de baloiço.
Nessa cadeira que chiava a cada movimento, uma pessoa muito velha, vestida de rugas, olhava o infinito naquele pequeno jardim. Albino aproxima-se lentamente, mas não tem reação por parte da senhora.
“Olá, minha senhora, peço desculpa a minha intrusão, mas achei que não vivia aqui ninguém!”. “Ninguém vive aqui há muito tempo. Morri na minha solidão, e aqui fico à espera de que me levem como levaram tudo”.
“Posso ajudá-la de alguma forma, minha senhora?” Albino repara que o seu olhar se mantinha na mesma direção. Era cega. “Nem a morte me deixou ir, esqueceu-se de mim aqui”. “Desculpe, como se chama?”.
“O que quer de mim? Quer-me levar o nome também? Vocês com essas botas roubaram-me tudo! Saia daqui!” As mãos delas de dedos entrelaçados tremiam de ansiedade, raiva, talvez repulsa, Albino não conseguia identificar.
“Levaram-me a paz, o medo, o filho, a árvore, até os olhos. Nada me resta a não ser esperar que me levem de vez, se já não fui, também!” Albino olhou em redor mais uma vez para o jardim, e nada reconheceu daquele ambiente familiar.
“Eu tenho alguns pendentes nesta região e voltarei assim que os terminar.” Sem resposta, Albino saiu.
Decidiu caminhar, o motorista escoltava-o na viatura. Sentia a cabeça confusa. A imagem do jardim era-lhe estranha, mas simultaneamente familiar, a voz daquela senhora, a falta da árvore e a conversa das botas?
Teria sonhado com tudo isto?, pensava. Um nevoeiro abatia-lhe sobre a visão e sentia-se cegar, assim como aquela velha.
“É esta que está no ficheiro, Sr. Inspetor!” Albino tocou à campainha. Esperou pacientemente. Ouviam-se passos, por isso sabia que estava alguém em casa. Um homem abre a porta e Albino entrou sem esperar por convite.
Olhou em volta até perguntar “Quem mais está consigo?”, mas sem efeito. O homem que lhe abrira a porta estava silencioso. “Responda-me, o silêncio não o ajudará!”, disse enquanto vasculhava no interior de cada divisão.
O homem olhava cabisbaixo, focado apenas nas botas, altas, envernizadas, fivelas douradas, exímias, tacando o chão. “Só vos posso ajudar se me ajudarem. Venho como amigo.” A madeira estala no andar de cima e os dois olham nessa direção.
Desce uma mulher, vestida de bata e um avental com um lenço na cabeça que se abraça ao homem. No silêncio que se ouvia, Albino avisa-os: “Recebemos uma queixa de vizinhos acerca de sons proibidos. Conhecem o sistema, a lei é para cumprir”.
“É falso, senhor. Somos apenas os dois nesta casa.” disse a mulher. “Pois, muito bem.” Respondeu Albino ao caminhar para o jardim.
As casas naquele bairro eram similares, construções esbatidas próximas das indústrias eram feitas com o mesmo modelo, a mesma falta de cor, todas elas tinham um jardim por mais pequeno que fosse nas traseiras.
Albino caminhou até lá abrindo a porta de rede e deparou-se com um pequeno cão que balançava a cauda e corria freneticamente pelo jardim. Olhou os proprietários que o seguiam em passos curtos e receosos.
No jardim havia uma árvore despida, mas troncolenta, alguns ramos que brotavam novos e vivos contrastando o restante corpo naquela árvore. Aproximou-se lentamente, ao ponto de poder tocar no tronco.
A árvore era a mesma que a sua parca memória se esforçava a esquecer. Ao tocar no tronco, uma forte dor de cabeça como se facas se espetassem nas frontes desequilibra-o e cai de joelhos.
O casal aproxima-se, assustado, queriam ajudá-lo, mas Albino faz-lhes sinal para pararem, ele próprio levantava-se lentamente. Dentro da sua cabeça ecoava um choro sorrindo. Ao largar o tronco, o som cessara.
Levantando-se, limpou a farda, ajeitou o cinto, passou a mão numa mancha de terra sobre as botas. Olhou para o casal que permanecia sem saber o que fazer, congelados pelo medo. O cão com a cauda entre as pernas escondia-se entre as pernas do casal.
Aproximou-se deles e com uma mão sobre o ombro do homem disse-lhes: “Lembrem-se que sou vosso amigo” enquanto dava a volta pelo exterior da casa até ao carro, onde o motorista o esperava.
“Sr. Inspetor, está tudo bem?” Perguntou o motorista ao ver o seu superior a caminhar lentamente numa postura pesada. Aquela árvore, o cão, o casal, tudo lhe circundava numa tontura estranha.
“Vamos. Voltamos depois, parece-me que estão a esconder alguma coisa.”
Albino, nessa noite, dormiu mal. Sonhava com o cão, a imagem da mãe e do pai fragmentada pela rigidez da sua formação. Na escuridão da noite, voltava a sentir a dor nas suas costas, nas suas mãos, das penalizações e castigos que passara ainda em criança.
Quando se sentia adormecer, voltava a ver a cara do agente, a voz que lhe dizia ao ouvido: “Vais ser meu pupilo, a bem ou a mal ...” um riso de maldade. Este riso era controverso, um riso manipulador, proibido.
A respiração era pesada, os suores encharcavam a cama, os sonhos curtos entrecortados pela insónia eram sobre Albino a fugir dos instrutores, do agente, dos próprios pais sem cara, sem corpo.
Olhou a pequena janela do seu quarto e observou o céu que começava a clarear. As nuvens industriais cinzentas eram sopradas por um vento forte, mas sempre mudo. O som da água fervente mantinha-se naquela frequência constante.
No dia seguinte, Albino procurou nos arquivos da agência o seu percurso. Era apenas uma pasta castanha fina, pouco mais que dez folhas sobre toda uma vida. Tinha os seus diplomas de formação, do departamento, do Instituto, os dados do seu tutor e, por fim, na última folha ordenada cronologicamente do mais recente para o mais antigo, a sua identificação.
Albino da Silva, natural de 3578-456-1 (assim eram os bairros - os nomes, as cores, as flores), designados após implementação da lei nova, abolindo os nomes de antigos escritores e artistas, revolucionários e de qualquer outra lembrança ligada a uma possível emoção feliz), filho de José 357 e Manuela 845, neto de Júlio 7777 e de 4342 Martins, data de nascimento: 17 de Outubro, Morada: rua das 7878 nº3.
“Júlio 7777?” questionava-se. Não tinha memória de qualquer avô. “Júlio? ...” o nome pairou por alguns momentos, era um nome que lhe dizia algo, mas não concluía coisa alguma.
Decidiu procurar nos arquivos este Júlio 7777, no momento em que lhe batem à porta. “O teu relatório é inconclusivo, precisamos de mais informação para podermos avançar com uma decisão”.
“Dar-vos-ei o que precisam hoje ao final do dia.” O juiz, responsável pelos processos, afasta-se do escritório de Albino após uma continência.
O arquivo deste Júlio 7777 estava noutra divisão, não conseguia ter acesso através do seu escritório. Deslocou-se ao departamento de pesquisa histórica onde, através de uma rápida procura, indicaram o Centro Reparatório de Mentes e Descrentes.
Albino nunca ouvira falar deste centro, mas seguiu as indicações que lhe deram. Lá encontrou a funcionária responsável, que o cumprimentou com um simpático “Bom dia Sr. Inspetor Albino, aqui está o que pediu.”
Albino recebeu a pasta, esta muito mais volumosa que a dele. “Terá de o ler aqui, estes documentos são confidenciais e exclusivos do centro. Tem uma mesa ao fundo, disponha.”
Albino abre o ficheiro numa mesa de madeira, a única, de uma sala repleta de estantes e dossiers, escura, com um cheiro de abandono, antigo. A sala era iluminada apenas por uma fraca luz em cima da mesa onde Albino estava sentado.
O ficheiro era o certo, tinha o nome de Júlio 7777. Abre-o, depois da senhora deixá-lo a sós.
Nome: Júlio 7777; Filiação: desconhecidos; Escolaridade: 12º ano; Profissão: N/A; Cônjuge: 4342 Martins; Filho: 357 7777; Fotografia: N/A - O nome tinha o mesmo número que o nome do pai dele, por isso seria o mesmo nome codificado por ordem do regime, mas podia ser apenas uma coincidência.
Não tinha memória dos pais falarem sobre os avós. Na sua infância eram os três apenas, sem outra família direta. Albino fora treinado para limpar qualquer divergência da sua memória – continuava a ler o relatório; Prisão: 12 de Dezembro; Motivo: revolucionário; contra o regime.
Júlio era artista e usava a sua música para passar uma mensagem de luta; organização criminal e fundador e porta-voz do partido revolucionário: AFSP – As Flores Serão Plantadas. Preso em flagrante delito numa reunião partidária; Conclusão: Em interrogatório simples e cruzado desmentiu tudo, tendo assim sido condenado a 20 (vinte) anos de prisão.
Nota: Todos os nomes codificados em números são nomes proibidos, relacionados com filiação ou camaradagem à revolução (despacho 11/2.b34). No presente relatório, Júlio 7777 pertence a uma família cujo nome provém de uma flor, sendo este um ato de resistência que resultou no início do processo e investigação.
Havia uma longa lista de reclusos revolucionários dos quais este Júlio estava afiliado, alguns mortos, outros desaparecidos em segredo de Justiça, outros ainda exilados. Tudo constava naquele grande arquivo. Nas últimas páginas, após soltura, constava a última morada fiscalizada: Rua das 7878 nº3.
“O quê?” Albino desculpou-se imediatamente pela curiosidade da secretária. Confirmou por duas vezes a morada com a morada do seu ficheiro. Era a mesma! Mas quem é esta 357? A filha dele? Se é meu avô, onde está o documento da minha mãe? Todas estas perguntas sobrevoavam a consciência de Albino.
Mais tarde, ao se encontrar com o agente motorista, pediu-lhe os ficheiros do dia anterior, a casa que visitaram da rua das 7878 nº24. “O juiz pediu que fizéssemos uma reavaliação da mesma casa”.
“Vamos lá, mas antes passamos num outro sítio!” respondeu Albino.
Seguem pela estrada que vai até à escola de formação inicial de Albino. Saem os dois do carro e fumam um cigarro partilhando um momento de silêncio. “Eu estudei aqui!” diz o agente motorista a Albino.
Albino mantém o seu silêncio, relembra a voz do seu vizinho Júlio, seu avô: “É das flores do passado que renascerá a floresta, meu filho.”, agora percebia o porquê que aquele velho louco dizia que aquelas paredes eram feitas dos ossos da sua família, dos seus camaradas.
“Eu também.”, respondeu finalmente ao seu motorista, “vamos! Melhor, deixa-me ir sozinho!”.
Albino chegou de novo à rua 7878. Deixou o carro no início da rua e caminhou o restante. Ao passar pelo número 3, parou e ficou a olhar a casa por algum tempo antes de entrar.
Observou o céu coberto, as trovoadas silenciosas provenientes das indústrias, o chão estalado e seco. A casa era a mesma do dia anterior, lembrava-se de olhar pela janela do quarto de cima que dava vista para a rua, onde ele se encontrava. Quis entrar, mas hesitou.
As imagens de um passado emergiam perante os seus olhos, conseguia ouvir a voz do pai, o calor da mãe, tudo como se fosse outra vez criança e um pequeno sorriso marcou-lhe a cara.
Acendeu um cigarro, Albino não fumava, mas naquele dia pediu mais um cigarro ao motorista antes de o deixar perto da esquadra. Fumou com ansiedade, rápido, expelia o fumo enquanto dava outra passa. O cigarro mirrava e queimava-lhe as pontas dos dedos. Atirou-o ao chão e pisou-o com as suas botas reluzentes. Ajeitou a sua farda e caminhou para o número 24.
Como estava a pé, não deu sinais da visita dele, decidiu entrar pela lateral que dava acesso ao jardim. Ouviu o ladrar do cão e uma gargalhada sentida e infantil.
Ao dobrar a esquina já no interior da propriedade, deparou-se com a mulher sentada nas escadas de olhos apaixonados a ver o seu filho brincar. O homem molhava o cão que corria freneticamente, a árvore repleta de pequenas folhas verdes e molhadas. Aquela criança ria com toda a sua ingenuidade.
Por um breve momento, Albino, ao observar tudo aquilo, sentiu os seus olhos molhados, uma lágrima caiu-lhe pelo rosto estagnando no canto da boca, uma água salgada, temperada de saudade. Permitiu-se sentir aquele momento e reviver o seu momento.
“Valéria, vem cá!” chamou a mãe da criança.
Foi com a palavra proferida da mãe que Albino avançou, todos ficaram congelados pelo medo de ver aquela autoridade a trespassar o seu momento. Albino, ainda de olhos enxaguados, tudo se tornou vermelho.
Sentiu o sangue ferver a correr-lhe o corpo, os músculos contraíram: agarrou na criança, disparou contra o cão, “Esta criança vem comigo.” Conseguiu ouvir o silêncio, a morte nos olhos de todos.
“Eu disse-vos que era vosso amigo, vocês mentiram-me.” Reforços chegaram e algemaram o pai que em silêncio se encostou à arvore enquanto a mãe esbracejava contra os agentes em lágrimas e sangue lutando contra tudo e contra todos em gritos de agonia pela filha.
“Valéria!” ouvia-se intercalada de gritos de fogo e raiva “Valéria!” A criança soluçava. Albino ainda a segurava pelo braço; ambos assistiam a tudo aquilo.
Valéria puxou-o levemente e olhou-o nos olhos, agarrando-o com a outra mão. As sobrancelhas curvadas, a ruga funda de tristeza, as lágrimas a deslizarem-lhe pelo rosto. Tudo à volta se dissolveu num silêncio: o choro da mãe, os gritos da brigada, até os sussurros dos vizinhos: nada.
Apenas o vermelho se dissipando da visão dele. Como se o mundo inteiro parasse diante daqueles olhos grandes e marejados. Um mundo azul, profundo, repleto de vida que o engolia para outra realidade. Albino sentiu o corpo vacilar.
Uma vertigem por dentro, os joelhos prestes a ceder. Uma memória quase o travou. Nesse instante, o agente-motorista que viera com os outros avançou, pegou na criança e arrastou-a para o carro. “Os seus instintos não falham, Sr. Inspetor! Não é o melhor agente do Departamento por acaso.”
Albino estava em silêncio, ainda sentia o olhar daquela criança sobre ele, assistindo a um trauma a ser costurado na pele daquela criança. “Essa criança ficará sobre a minha alçada, eu serei o seu tutor!”.
“Sim senhor, deixarei isso no relatório.”
“Arranja-me mais um cigarro, por favor.”
Albino, visita a sua casa de infância, agora certo de que era. Encontra a sua mãe, na mesma cadeira de baloiço. Ela ria, ria de loucura e sem vergonha. Era um riso puro de uma maldade quase de castigo.
Ao aproximar-se, Albino, percebera que a mãe, aquela senhora enrugada, não se ria mas chorava. Segurava a caixa, que Albino escondia debaixo da sua cama, aberta.
Algumas fotografias de ambos a rirem-se - ela muito nova, ele um bebé, a cédula de nascimento dele: Albino das Silvas Floridas, Filho de: Manuela Lavanda e José Alecrim. Outra fotografia com o Júlio Amor Perfeito, o Júlio 7777, por trás uma mensagem: do teu avô Amor Perfeito.
“Nunca te esqueças de quem és, meu filho!” falava chorando e rindo, “não é essa farda que te faz, é a tua origem, a tua pele ...” Lembraste quando abrias a caixa quando voltavas da escola?”
(silêncio)
“Nunca te devia ter entregado àquela escola!”
(silêncio - apenas o olhar fulminante de Albino)
“Hoje, sei que pequei.” Rematou ainda a mãe.
Albino, atirou a caixa ao chão, queimou as fotografias, rasgou os documentos, “Estás cega por estas mentiras. Eu sei quem sou e não é isto que me mostras!” Deixou a mãe na sua loucura, cega e surda ao mundo de hoje.
“Só não te prendo porque já estás presa!”. A mãe continua chorando como quem ri, “Eu já morri, meu filho, morri há muito tempo!”
Uns dias depois, recebeu uma carta que enunciava a morte da sua mãe. Manuela 845. Falecida a 17 de Outubro. “Morreu no meu aniversário, quantos anos terei eu?” Perguntou-se, sentado na sua escrivaninha do seu pequeno escritório.
Ao chegar ao número 3 da rua 7878, encontrou o corpo da sua mãe deitada sobre o jardim, ao seu redor renascia um pequeno rebento de árvore.















