Se os animais falassem,
criariam a palavra solidariedade;
pasmariam, pois, de saber que já havia
animais falantes, tanto que a palavra já existe.

(Fernando Pessoa)

Desde sempre conviveu com animais. O lar nunca fora só as pessoas que nasceram da mãe humana. Criada em uma fazenda, era permitido ter os bichos que quisesse ou que aparecessem. A regra valia para todos da casa, que encantados, cuidavam com amor dos seus companheiros. Cães, gatos, cavalos, coelhos, aves, répteis, não havia distinção.

A confortável morada tinha espaço para a liberdade. Uma biblioteca quentinha para o deleite da família. O pai era um saudosista e admirava Teixeira Pascoaes — herança de seu pai — e repetia para os filhos as palavras do poeta que "os animais são pessoas, como nós somos animais".

George Eliot era uma das romancistas preferidas, pois defendia que os animais são amigos tão agradáveis, não fazem perguntas, não criticam. Eliot era citada sempre que a família se via chicoteada com comentários de pessoas que não consideravam aquele estilo de vida e amor.

A mãe de Teresa, mais contemporânea, lia Fernando Pessoa emocionada: "o homem não sabe mais do que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não."

Infância feliz rodeada de vida por todos os lados — livros, animais, afeto — Teresa cresce em harmonia e amorosidade. Mas o tempo é alado e chega o dia em que precisa se mudar. Os estudos são adequados na capital. O sofrimento maior foi deixar os animais do seu paraíso.

Como a tudo se acostuma, Teresa cumpriu a escolaridade, assim como seus irmãos. Mais asas do tempo e ela forma-se em Letras, começa a trabalhar e a vida segue fora da antiga fazenda de seus pais. Em todo percurso, algum animalzinho ela tentava cativar, lutando com os espaços e as pessoas que dividiam moradia com ela.

Ironicamente, Teresa casa-se com uma pessoa muito racional, nascida numa grande cidade, criada em um apartamento e que não tem a menor noção do que seja uma vida com bichos para cuidar. Não bastasse a cultura da sua criação, tinha dolorosas lembranças de contatos com animais. Adoeceu gravemente ao acarinhar gatinhos na praça onde costumava brincar na infância. Foi bicado por aves quando, inocentemente, tinha em mãos um saco de pipocas. Assustava-se facilmente com os sons dos bichos, seja na casa de colegas ou passeios que fazia com a família. Era quase um trauma que não parava de piar dentro dele.

Como o amor tudo vence, os dois relativizaram algumas coisas. Concordaram que poderiam abrigar apenas um animal, para que não houvesse sofrimento de nenhuma das partes. Optaram por cães. Mais adaptáveis e amáveis, segundo o marido que não compreendia e não gostava muito do assunto. Mas ela confirmava, com as palavras de Victor Hugo, que "o cão é a virtude que, não podendo fazer-se homem, fez-se animal".

A literatura continuou na vida de Teresa, assim como o amor incondicional aos seus amigos patudos, bigodudos, bicudos, rabudos... Ela não compreendia a isenção das pessoas, para ela era muito natural amar os seres do reino ao lado. Mesmo com os traumas e acidentes do marido em relação aos bichinhos, ela também não entendia como não conseguia superar.

E voa tempo e nova família forma-se. Nascem os filhos sem a herança de Teresa. A vida deles, ao contrário do que fora a sua, era uma desordem rotineira. Mas pelo menos, a casa nunca ficaria sem um cão. As dificuldades provenientes desta falta de contato mais intenso com o mundo animal e por não ser um comportamento unânime no lar acabaram por aparecer, principalmente, na adolescência dos filhos.

E todo dia a mesma cantilena, depois de várias tentativas:

— Ana, vem almoçar! Olha o Licus, obediente, fiel escudeiro... Aprende com ele! Os cães são exemplos para os humanos. Às vezes não entendo como podem ser considerados irracionais... São organizados de acordo com as regras da casa, amáveis e gratos por natureza. Reconhecem a Mãe Terra em quem os alimenta... Isto é tão poético, não achas, filha?

— Mãe, que mania de nos compararmos aos cães. Esta obediência instintiva de sobrevivência. Eu não quero comer agora; já falei!

— Ana, Nietzsche dizia que "os animais veem no homem um ser igual a eles que perdeu de forma extraordinariamente perigosa o são intelecto animal. Veem nele um ser irracional que ri, chora. Um animal infeliz". O Licus deve julgar o mesmo de ti.

— Não acredito que foi recorrer à filosofia para eu ter de comer sem ter vontade.

— Filha, mas já está tarde. Disse a mãe desanimada.

E sem querer perder mais tempo com a conversa, saiu com Licus nos braços. Pensou ainda em Kant, “podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais”. Ao acarinhar o pelo macio de seu companheiro, suspirou: pelo menos os animais eu compreendo.

Um dia, em uma viagem com amigos, Ana acidenta-se em uma trilha rumo à cachoeira. Com fraturas e escoriações, foi atendida no hospital e, ao voltar para casa, os cuidados continuariam. Recomendado repouso, Ana ficaria sem as aulas e as agitadas atividades que preenchiam seu cotidiano, obviamente. De volta ao lar, boa parte do tempo ficava em cima da cama. No período com mais dores estava sem paciência para o que quer que fosse e os medicamentos a deixavam sonolenta.

Teresa licenciou-se do trabalho para cuidar da filha. Licus acompanhava com atenção todos os movimentos. Teresa apreensiva. Ana paralisada. Os irmãos seguindo a vida normalmente. O pai, preocupado com o estado da Ana. A dinâmica mudara naquela família. Ele teve menos atenção de Teresa, mas nada lhe faltara, nem mesmo o colinho à noite.

O tempo foi remédio para Ana. Após a fase condescendente, passaria por fisioterapia. O período acamado a prepararia para as lentas atividades até sentir-se bem e segura para andar com autonomia. Convalescente, sua vida resumia-se a distrações eletrônicas, além de pedidos de toda natureza para a mãe que se deslocava pela casa o tempo inteiro. Os irmãos tinham alguma disponibilidade e paciência em pequena parte do dia, apenas. E contava com a companhia do pai quando chegava do trabalho.

Quando os amigos podiam visitá-la era muito animador, mas não acontecia com frequência. Passada a fase mais crítica de dores e limitações, pôde realizar atividades escolares pela internet. O que era alguma coisa. Licus sentia-se amado e tinha comportamento dócil e amigável. Continuava a observar tudo. Ele acompanhava Teresa, muito presente no quarto da filha, chegava até a porta e lançava um olhar carinhoso para Ana, entediada no seu aposento, como se dissesse: sinto muito, estou aqui se precisar.

A licença de Teresa expiraria em breve e ela preparava Ana para a sua ausência, pelo menos em parte do dia. A melhora dos sintomas físicos acontecia naturalmente. Apenas um desânimo e uma tristeza não desacompanhavam a menina. Esta melancolia era explicada pelo estado acamado e limitações motoras, mas seria atenciosamente observada, caso o quadro avançasse.

Teresa deixou à mão alguns livros, se a filha quisesse variar suas distrações e atividades obrigatórias da escola, uma vez que tudo era exposto à iluminação de LED e faria bem à jovem dar um tempo da luz azul de tantas telas.

Entre os títulos, clássicos como A revolução dos bichos, Moby Dick e A viagem do elefante misturados aos contemporâneos Cão como nós, A arte de correr na chuva e Relatos de um gato viajante. E outros. Ela poderia escolher à vontade.

Ana sorriu ironicamente com a mensagem que a mãe pretendia, não fosse o que ela ouvira a vida inteira, agora também estava por escrito. Ficou a imaginar o que tudo aquilo significava para Teresa... o seu assunto preferido, o amor incondicional, hábitos que abraçam gerações.

Para variar a interação virtual, optou por folhear. Sentia-se mesmo desencorajada. Licus continuava à porta, como se dissesse: estou aqui para te fazer companhia. Ana não se incomodava com o Licus à espera de seja-lá-o-que-fosse. Ele a espreitava de longe e ela já se acostumara com a presença dele na casa. Afinal, era o sexto integrante da família.

Um título chamou a atenção da menina: Só os animais salvam. Ela começou por este. Sem perceber, já tinha chamado Licus para junto dela. Ele esperava pacientemente por este dia. O cãozinho pulou para a cama da Ana e lá ficou enquanto durou sua leitura. Bem perto, quentinho, a companhia mais doce. As almas dos animais do livro falaram ao coração da menina.

Quando Teresa chegou em casa foi surpreendida com o cenário mais terno que já vira. Lembrou-se de quando tinha a idade da Ana e sua vida era pura cumplicidade com os melhores parceiros de aventura — livros e animais. Emocionada, não conteve a recordação de Anatole France: “Antes de ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada”. Guardou na memória aquela cena. Ficou muito feliz por ver a sua filha despertar para o amor.