Juan Rulfo era um obcecado pelo corte, pelo polimento final, pelo secar de um texto até reduzi-lo a mais rigorosa exatidão.
Esta é a primeira frase da Nota do Tradutor Eric Nepomuceno1, também prefaciador do livro de Juan Rulfo, escritor Mexicano, autor de Pedro Páramo & Chão em Chamas.
Não me dei bem ainda com o livro.
Li, reli, e ainda não saí das primeiras 70 páginas.
Suponho que minha expectativa sobre o autor, traduzido em vários idiomas, com apenas dois livros publicados, um em 1953 e, outro, em 1955, ano em que nasci, Rulfo é citado como "melhor escritor mexicano do século XX, melhor da América Latina e da literatura de todo o mundo em seu tempo", reforça Nepomuceno.
Parei na página 61, porque resolvi colocar em dia meus escritos e colaborações para portais e jornais, mais os afazeres, que mesmo gostando de Marketing Digital, diagramação eletrônica, web design, já estão enchendo o saco... não dá dinheiro.
Fiz uns três textos; e a frase "obcecado pelo corte, pelo polimento final, pelo secar de um texto até reduzi-lo a mais rigorosa exatidão" bateu nos meus ouvidos, como que o diabinho zunindo até a mente estancar ‒ chega!
Cada frase redigida trazia a preocupação da performance ideal da concordância verbal e nominal para a oração.
Isto porque, além de Juan Rulfo, descobri que tenho manias, toques, nos meus textos.
E um deles aparece como erros gramaticais, mesmo aceitos nas figuras de linguagem.
É o poder da palavra, não da fala.
A semântica como ciência, não exata, mas oficial da língua de uma nação, é preponderante e requer atualização diária, urge a cada instante nas afrontas do neologismo, estrangeirismo.
O célebre escritor Ariano Suassuna que o diga: “não dou show (“xô galinha”), dou espetáculo”. Lembro que sempre fui testado na minha profissão.
Uns poucos me ignoravam na função por não me achar apto, vide aparência, filho de porteiro, baixinho, nariz em pé, e por aí vai.
Outros, e outras, tenho que citar uma colega jornalista lá do Jornal Última Hora de Brasília.
Ela cismou comigo, e vez por outra, descia até minha sala na Secretaria Gráfica, ´"porque quero ver meu texto ‒ onde está?"
Pela edição, sabia qual a página e onde estaria o texto naquele momento, redigido por ela.
Fui à 'fotocomposição ', ela a tiracolo, e voilà: o texto estava com o digitador.
Ela não pedia licença.
Pegou a folha de telex e rabiscou uma palavra qualquer e devolveu, colocando o "texto dela" em cima da mesa do datilógrafo profissional, que não parou, quando teve o texto puxado de sua prancheta vertical.
A jornalista pegava um texto vindo da Reuters, da Associated Press (AP, da United Press International (UPI) e da Agence France-Presse (AFP), burilava, copidescava na folha do telex, e passava o pedaço de papel todo rabiscado para o diagramador, como redigido.
Ah, tinha as agências nacional, como Agência Nacional/Agência Brasil, Agência Estado (Estadão) e Agência Globo, esta, a preferida da moça.
"Não era inveja", me confidenciou o editor, quando me chamou no terceiro andar, exigindo que não podia sequer ter Cruz no obituário.
"Ordens superiores", disse ele, apontando para uma foto do General Newton Cruz.
Percebo que as agências noticiosas promoviam já a globalização com o engessamento das notícias.
Vi muitos repórteres darem murros nas máquinas de escrever em suas mesas, ou na que estivesse passando, porque a editora, ou a copidesque, caso da moça jornalista, barrava o texto para aquele dia, perdão noite para o dia posterior.
Se chama poder.
O repórter chega da rua, cobriu a pauta, e a copidesque dava seu jeito de falar que a matéria não caberia na edição.
A responsável pelo copidesque era alinhada com o editor de retranca (economia, internacional, cidade, política, cultura, comportamento), que iam embora cedo, antes das 22h.
Sobre os cortes e recortes dos textos, a exemplo de Juan Rulfo, me deparei com outra frase, agora, do meu saudoso primo Goya, cantor e compositor brasiliense.
"Primo, original não pode ficar na gaveta; tem público para todo mundo".
Certo, claro ele foi corretíssimo nesta frase.
Temos público, e o público merece o melhor.
Pongo noutra frase do excelente autor de novelas, Maneco3, que colaborava com artigos e crônicas para o caderno de cultura Biz, do jornal Tribuna de Imprensa, Rio de Janeiro, editado por Rita Kauffman, e diagramado por meu amigo e premiadíssimo Adilson Nunes.
Ele dizia sempre nos seus textos que estava "agradecido pelos seus 12 leitores" daquele caderno.
Nas minhas listas de divulgações no WhatsApp, mais de 700 pessoas, faço o mesmo, cito nove leitores.
E a lista de transmissão do aplicativo tem me dado dores de cabeça, porque mesmo explicando nas primeiras linhas que a divulgação não é pessoal, segue para mais de 700 amigos, colegas, e conhecidos, quem recebe entende que fiz um post direto para ela.
No último envio, fiz um coloquial com viés político, sem pedir voto, divulgando meus dois livros à venda na Amazon, um publicado em dez/25 e outro no início de jan/26.
A frase no meio do texto: O bom que estamos no caminho certo, à direita.
Foi o suficiente para um amigo de longa data, lá de Porto Nacional, ficar chateado comigo.
Não percebi o chamado pelo telefone, porque após o envio, fui para a cozinha preparar um sorvete napolitano natural, sem leite, com morango, chocolate amargo (70%) e banana, com mel de Jandaíra ‒ o meu vem do Nordeste, e o mais raro é produzido pelas abelhas na Amazônia.
Meu amigo sempre foi de esquerda, tem lá suas razões contra a Revolução de 1964, nos seus posts aconselha "o presidente Lula não deve ir ao encontro de Trump..."
Sempre estivemos em lados opostos, política, até mesmo quando me deu guarida em sua casa; a amizade sempre esteve, e está, acima dessas treitas esquerda/direita.
Foi erro meu; antes, quando preparava o card e o texto para divulgação, lembrei que a expressão à direita, seria um ponto que sugeria agressividade, então, a divulgação para ele iria sem a frase e o tiraria da lista de transmissão do aplicativo.
Esqueci de cortar, e o bom é que estamos no caminho certo, à direita, seguiu para todos, com retorno imediato dele.
Voltei a ligação, e como a maioria das vezes, não atendeu.
Em visita a Palmas, divulgando o livro Velhos do Cruzeiro Velho, de 2021, ele me pegou no hotel e me levou para a casa dele.
A amizade de mais de 40 anos, mesmo distante e sem nos falar por anos, foi explicada e enaltecida para toda a família, grande e linda.
Percebi as reclamações, tipo "papai, o senhor tem que atender nossas chamadas".
Vi; o celular dele é largado num canto, o que significa que dei sorte na divulgação e azar no conteúdo da mensagem.
A palavra é forte, e os escritos são como documentos que nos cobrarão um dia qualquer, ou não, melhor, nos anunciarão como provedor de cultura...
Haja petulância!
Lembro de uma noite, recém-chegado ao Correio Braziliense, chamei a atenção de uma menina, paginadora, que esqueceu o verso do cabeçalho da primeira página do jornal:
Na quarta parte nova os campos ara;
E se mais mundo houvera, lá chegara.
Verso de Os Lusíadas, de Luís de Camões, exaltando a expansão marítima portuguesa, o que figurativamente aludia à expansão dos Diários Associados, conglomerado fundado em 1924, por Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand.
Lúcia, que veio a ser quase minha esposa, apontou para o past up levantado por uma de suas mãos e lá estava texto novo, ela pediu para a digitação fazer nova fotocomposição2, porque a antiga estava esmaecida.
Num minuto depois, ela, sorrindo com uma amiga, me chamou para cortar uma matéria que o diagramador havia calculado errado, umas 10 linhas.
Olhei, pedi para me aproximar, e puxei o papel com o texto e colei no lugar correto pressionado com o polegar – ela teria que fazer a parte dela: paginar corretamente.
O número da retranca confundia a unidade 3 por 8, e ela não leu o início do título no diagrama, seguiu pela retranca, errando o espaço.
Agradeceu, e não satisfeita, ainda com raiva da chamada de atenção do verso, entendeu como puxão de orelhas, me perguntou sobre uma concordância verbal, que, na verdade era nominal e o questionamento era carregado de ironia, "quero ver se você sabe" abriu sobre sua cabeça a figura do diálogo...
Ao que respondi aleatoriamente colocando ela na mesma, ou seja, em “dúvida”, agora inserida de propósito por mim.
Disse que era por conta da palavra proparoxítona... nada a ver com concordância nominal ou verbal, mas deixei a belezura à vontade para duvidar de mim, principalmente cuidar do trabalho dela, e, se possível estudar, buscar uma faculdade.
Esta, talvez foi a senha, porque no primeiro encontro na cantina, começamos um namoro à moda “Nove semanas e meia de amor”4, não que eu parecesse com Mickey Rourke e ela com a Kim Basinger.
Linda, Lúcia lembra mais a atriz Alice Braga, falsa magra e morena, que faz sucesso nos EUA e é sobrinha da estonteante Sônia Braga.
...
A dúvida sobre seu conhecimento, por conta de aparência, vem a reboco a desconfiança somada ao descrédito.
Algumas pessoas, não vou citar maioria, seria leviano, crivam por essa fase forjando o egoísmo.
O questionamento ou a imposição "eu devia ser o chefe... eu sou melhor que ela", são defeitos humanos, e no século XXI, pensava que não existiria mais, potencializou.
Num happy hour no Belmonte, Leblon, meu quintal no Rio de Janeiro, fui apresentado para um sujeito bem trajado, bonito, aos padrões de beleza condicionados a muita malhação, coquetéis e 'bombas', por uma amiga em comum, uma linda mulher.
Nos apresentou indicando com a mão: Adênio, escritor e editor; Dough, empresário e influencer. Ouvi um "o quê"?
Repeti meu nome, com a certeza da dúvida dele quanto as minhas profissões, e não por entender meu nome, e também não quis forçar uma barra, em hipótese alguma, “sou jornalista, também” ... nunca dei carteirada, não seria naquele momento.
‒Meu nome é simples, mas estranho aos ouvidos.
Ade, de Adélia, nome de minha mãe; e, nio, de Antônio, nome de meu pai; é a junção dos nomes Adélia mais Antônio.
Ah, é também nome da planta rosa do deserto, Adenius obesum: dá flores de todas as cores, e o caule é grosso e venenoso.
Não posso escrever f_da-se, então: foi-se!
Amém...
Notas
1 Eric Nepomuceno é autor, jornalista e tradutor brasileiro. #leiturasnaquarentena.
2 Processo técnico que organiza textos e imagens (fotografias, ilustrações) para a montagem das páginas antes da impressão gráfica. Substituiu gradualmente métodos como o linotipo, digitação, composição a frio (sistema IBM), e configura estágio anterior à atual editoração eletrônica.
3 Manoel Carlos; Maneco Vovô do Leblon ‒ 14 de março de 1933 ‒ São Paulo, SP ‒ 10 de janeiro de 2026 (92 anos). Rio de Janeiro, RJ · brasileiro. Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, mais conhecido como Manoel Carlos ou Maneco, foi um autor de telenovelas, escritor, diretor e produtor brasileiro, tendo também atuado como ator no início da carreira. É pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista Maria Carolina, sua colaboradora em diversas obras.
4 9 1/2 Semanas de Amor, 1986, de Adrian Lyne, título original: Nine 1/2 weeks.















