Todas as vezes que me percebo ansioso com a gestão do tempo, com o planejamento de horários e compromissos, imediatamente me pego pensando na teoria da relatividade do Albert Einstein. A Teoria da Relatividade de Albert Einstein estabelece que o tempo não é absoluto, mas sim relativo ao observador, dependendo da velocidade (Relatividade Restrita) e da gravidade (Relatividade Geral).

Me sinto como se os demais estivessem na velocidade da luz, portanto, com mais tempo disponível, e eu estivesse no modo básico, logo, comparativamente com menos tempo disponível. Daí parece que sempre estou me antecipando ao tempo por simples receio de perder o horário do compromisso.

A pontualidade no Brasil não é uma virtude muito bem-quista. Se antecipar à pontualidade, muito pior, praticamente um desaforo, uma quebra do acordo cultural implícito sobre o atraso, um crime!

Certa vez, ainda quando morava no Rio de Janeiro, uma amiga me convidou para a sua festa de aniversário, informando que começaria às 20:00. Com muito esforço para não chegar dez ou quinze minutos antes do horário combinado (meu padrão), cheguei pontualmente às 20:00. Ela me olhou e disse enfadada “Heider, não precisa acreditar e seguir à risca o horário informado por alguém para o início de uma festa. Pode acrescentar, no mínimo, entre uma e duas horas. Nem terminei de organizar as coisas da festa e ainda nem me arrumei!”

Sábias palavras! A partir deste dia passei a cronometrar o meu “atraso” mínimo de uma hora! Duas horas já eram um absurdo demasiadamente grande para o meu padrão!

Anos mais tarde, após o nascimento do meu primeiro filho e a mudança para São Paulo, tive que reaprender a utilizar a pontualidade quando a festa em questão fosse infantil e, principalmente, marcada em um buffet. Estava viciado em não acreditar nos convites com hora marcada para início! O pior é que ainda vinham com horário de término (fazia cara de ‘dúvida com não entendi!’).

Os dois primeiros aniversários infantis a que fomos convidados, chegamos no final da festa. Um deles foi num Buffet Infantil, então chegamos no final e fomos embora alguns minutos depois. O outro foi no Salão de Festas do Condomínio do aniversariante e todos os convidados já tinham ido embora, restando reunida apenas a família da criança. Nos receberam calorosamente, nos incorporaram ao churrasquinho familiar do final da festa e, tempos depois, rimos em conjunto fazendo a resenha deste primeiro contato festivo (‘contatos imediatos de terceiro grau entre paulistanos e baianos (baianos cariocas)’).

Sou completamente neura com o planejamento profissional de compromissos para que as datas e os horários sejam atendidos. Tenho a tendência a me antecipar sobre os prováveis eventos futuros, considerando que, no geral, as pessoas atrasam as suas entregas. Mas, neste ponto, acredito que quase todos no Brasil adotam este comportamento. Lógica que normalmente não é aplicada ao agendamento dos horários das reuniões. As pessoas tendem a se atrasar!

No mundo prévio a pandemia do COVID-19, quando as reuniões se davam exclusivamente de forma presencial, a principal desculpa do atraso era o trânsito. Agora que boa parte das reuniões se dão de forma remota, através de alguma plataforma on line, a desculpa é que o dia está full de reuniões e então elas passam a se encavalar.

Tenho a sensação de que no Brasil as pessoas que se atrasam para as reuniões se dão muita importância, ou seja, quanto maior o cargo ou a autoavaliação de muito status ou prestígio, a pessoa irá se atrasar. Herança colonial? Da época do Império? Numa sociedade onde durante séculos o trabalho era algo reservado aos escravos, a cultura de igualdade e respeito nas relações ainda pode ser algo duro para algumas pessoas. Vai saber!

Na boa, se a cidade de São Paulo (ou qualquer outra) tem muito trânsito, então o considere na conta do seu deslocamento. Se seu dia será full de reuniões, então considere manter um intervalo de meia hora entre o término e o início delas. Existem soluções quando queremos respeitar o tempo das outras pessoas! Ops! Ou será que realmente vivo na dispersão do tempo da teoria da relatividade de Einstein?

Quando o tema é horário de voos e viagem de férias, aí enlouqueço todos em casa, pois costumo considerar no cálculo para sair de casa a seguinte equação: antecedência de chegada ao aeroporto solicitada pela companhia aérea, mais o tempo de traslado até o aeroporto levando em conta o pior cenário de trânsito, mais a probabilidade do check-in, Raio X ou Imigração no aeroporto estarem um caos. Nestes momentos até reflito se não estaria forçando a minha visão do tempo, mas, na maioria das vezes, sou vencido pela iminência do horário do voo.

Já virei piada! Meus filhos começam a dizer “... o voo é às 17:00, então com as duas horas de antecedência mais as X horas de traslado da casa até o aeroporto, mais... então precisamos sair de casa às 5:00!”. Confesso que muitas vezes tomamos um chá de espera no salão de embarque, mas prefiro este ao estresse de imaginar que algo pode dar errado ou o pior pode acontecer, que é perder o voo e precisar remarcá-lo.

No fundo, também gostaria de não me preocupar tanto com os horários. Até gostaria de tomar esta pílula da “relatividade do tempo” (ou seria relatividade do tempo alheio?) que a maioria das pessoas tomam no Brasil, mas, como diria a parábola, uma vez escorpião sempre escorpião... para o mal ou para o bem. Difícil trair sua natureza!