O divórcio consumava-se em suaves prestações, sem entusiasmo nem esperança de quitação. Não houve uma grande discussão, nem portas batidas com violência. Foi antes um desgaste lento, quase administrativo, que se instalou entre eles: a preguiça, a falta de vontade de compreender o outro, a suspeita silenciosa de que nunca tinham aprendido verdadeiramente o que era amar. Assim iam morrendo um para o outro, sem cerimónia.
A vida reduziu-se ao convívio diário com a mágoa, com a amargura, com as dívidas por pagar e com aquele medo persistente de perder a casa. Ele dormia cada vez mais. Acordava tarde, arrastava os pés pela cozinha, deixava o café arrefecer na chávena. Já desistira de cumprir com rigor as formalidades do centro de emprego, que o obrigava a enviar um currículo por semana para provar a busca efetiva de trabalho.
Chamava-lhe ocupação.
De quinze em quinze dias aparecia numa sala com outros homens e mulheres na mesma situação. Sentavam-se em cadeiras de plástico, diante de uma técnica demasiado jovem que lhes perguntava o que estariam a fazer mal para ainda não terem encontrado emprego. Ele respondia pouco. O salário vergonhoso que lhe tinham oferecido da última vez parecia mais uma ofensa do que uma oportunidade. Ela, por seu lado, mantinha o horário reduzido de aulas na faculdade, uma carga leve que lhe fora atribuída como uma espécie de dádiva institucional. Dava aulas duas ou três vezes por semana e passava o resto do tempo entre investigações, congressos e relatórios que escrevia com uma disciplina quase distraída.
Foi num desses congressos que o conheceu.
Acenderam-se todas as luzes naquele dia, pensaria mais tarde. Se alguém pudesse vê-la nesse momento — e se fosse dezembro — talvez a confundisse com uma árvore de Natal. Sentia-se iluminada por dentro, febril, como se todas as cores tivessem regressado ao corpo depois de um longo inverno. Esqueceu as imperfeições. Esqueceu a casa, o marido, a fadiga dos anos. Tinha a sensação de que aquele homem a adivinhava por dentro.
Começou então a olhar-se com mais frequência. A tentar perceber quem era agora, o que restava da mulher que tinha sido. Viviam uma pequena mentira — ela sabia-o — mas mesmo nas mentiras há graus de verdade. Zonas onde a verdade circulava com mais ou menos liberdade. Comparava frequentemente a sua situação com a de outros casais que conhecia, aqueles que classificava como o menor denominador comum. Pessoas que faziam apenas o mínimo: o mínimo esforço, o mínimo cuidado, o mínimo amor.
Talvez fosse isso que restava também entre ela e o marido.
A separação decorria em câmara lenta. Por causa das contas. Por causa do filho. Para que o rapaz não baixasse as notas na escola, para que não perdesse o ano no meio de uma guerra doméstica. No início tinha sido diferente. Entre eles existira mais do que um grande amor. Existira um projeto de vida.
Mas há pessoas que, com o tempo, se tornam sombrias. A certa altura começamos a não gostar daquilo em que se transformaram. E então o amor fica devoluto, como uma casa abandonada.
Ele, por seu lado, perdera o nexo das coisas. Não exatamente o rumo — continuava a levantar-se, a cumprir rotinas — mas o sentido. Porque fazia o que fazia? Para quê?
Pensava nisso com os seus botões — expressão absurda numa época de fechos éclair e fitas de velcro — enquanto atravessava os dias numa espécie de solidão assistida. Mostrava-se aos vizinhos no elevador, mas pouco mais existia para além dos cumprimentos de cortesia. Vivia em piloto automático.
De manhã fazia a barba, tomava banho, comia meia torrada e bebia café com leite. Lavava os dentes, descia até ao café da rua e sentava-se na esplanada, fazia listas de empresas para enviar currículos no seu bloco de notas, sorria aos conhecidos fingindo gostar das pessoas mais do que realmente gostava. Demitia-se frequentemente das suas obrigações de amizade e de vizinhança, talvez porque lhes chamavam precisamente obrigações.
Na sua memória, as amizades verdadeiras tinham terminado no final dos anos setenta, quando os vizinhos se cumprimentavam nas escadas, perguntavam se estava tudo bem, pediam um raminho de salsa ou um ovo quando a despensa falhava.
Agora tudo parecia mais frágil.
Bastava um assunto menor para romper uma amizade ou um casamento. Desistia-se à primeira dificuldade. As pessoas diziam que manter uma relação dava trabalho, ocupava tempo, e ninguém queria abdicar do prazer imediato: um jantar, um filme, uma fotografia para mostrar no Facebook. Comparava-se muitas vezes com os colegas de trabalho. E com os antigos amigos de escola. Imaginava onde estariam, o que fariam, que vidas teriam construído.
Perguntava-se também quem seria ele próprio se não tivesse casado, se não tivesse tido aquele filho. Era um pensamento perigoso, mas insistente. Sentia que não fora educado para esta atmosfera errática dos tempos modernos, para a velocidade com que todos se desprendiam de tudo. Achava que a mulher não percebia. Ou, se percebia, disfarçava. Aquela insuficiência. Aquela imobilidade. Até que um dia decidiu partir. Não houve anúncio nem drama. Apenas uma decisão tomada com uma calma inesperada. Percebeu que, às vezes, o primeiro passo não serve para fugir. Serve apenas para chegar a outro lado.















