O senhor Ado era casado com a dona Ivete e tinha com ela dois filhos: Roberta e o pequeno Márcio. Certo dia, a família resolveu visitar o sítio de uma amiga do seu Ado: a dona Roma. O sítio ficava em um lugar afastado da cidade, numa espécie de condomínio. A propriedade contava com uma casa principal, uma casa para o caseiro (mais afastada) e, mais abaixo, um galpão na beira de um açude. Este, muito extenso e com boa profundidade, proporcionando mergulhos e passeios de caiaque.

Era um domingo quente de verão. Roma, a dona do sítio, também tinha um filho, o Moacir, que marcava presença por lá no dia. Ao chegar ao local, a família do seu Ado foi recepcionada pela proprietária, que já estava em trajes de banho, indicando que o dia começaria na água. Roberta, com 30 e poucos anos, já conhecia o que a vida pode proporcionar de bom e, ao olhar para Moacir, que também os recepcionava, ficou interessada. O pequeno Márcio só tinha olhos para o caiaque, ansioso para explorar aquela água toda. Os adultos também queriam desfrutar do dia ensolarado e curtir a paisagem bucólica que só o campo pode proporcionar.

Após o primeiro contato, foram todos trocar de roupa para que pudessem descer até o local. O caiaque já esperava por eles, na beira da água. Márcio correu, pois queria ser o primeiro a remar. Moacir o ajudou a entrar e entregou-lhe o remo. O menino tinha 12 anos, mas já mostrava certa agilidade para os esportes. Foi só entrar e já saiu remando para longe, pois o açude era praticamente um lago para alguém da sua idade, tamanha a extensão. Todos os outros estavam na beira, sentados e conversando. Os olhares de Moacir e Roberta se cruzavam o tempo todo. Moacir era um pouco mais jovem que Roberta, o que causava aquela curiosidade que um aprendiz tem pelo mestre. Mestra, no caso.

Roma pediu ajuda para Ado com umas caixas que estavam na casa de cima. Dona Ivete entrou na água para ficar perto de Márcio e cuidar para que ele não fizesse nenhuma besteira. Foi o que bastou para Roberta dar o bote em Moacir, o rapaz instigado. Ela perguntou para ele onde seria um bom lugar para dar uma caminhada. Ele fez sinal com os olhos em direção ao galpão. E lá foram, sem que sua mãe, dona Ivete, percebesse. Lá dentro, começaram a se beijar e, quando a coisa começou a esquentar, eis que entram, pela porta dos fundos, seu Ado e dona Roma. Neste momento, o tempo parou e ninguém entendeu nada. Os 4 se olharam, com ar de surpresa. Ninguém pronunciou uma só palavra. Ado e Roma saíram pela mesma porta que entraram.

Enquanto isso, dona Ivete se deu conta de que estava sozinha com o pequeno Márcio há algum tempo. Estranhou a ausência de todos os outros 4. Afinal, todo mundo parecia tão ansioso para aproveitar o sol nas margens do açude. Onde estariam agora? Foi então que ela se voltou para o filho e disse: “Márcio, vai dar uma olhada por aí e vê se encontra o seu pai, que está demorando a voltar”.

O menino saiu do caiaque muito contrariado e, com cara de emburrado, subiu em direção à casa para ver se encontrava seu pai. No caminho, passou pela casa do caseiro, que estava na porta. Perguntou a ele se tinha visto o seu pai. O caseiro, com os olhos arregalados, respondeu que talvez tivessem saído de carro e pediu que ele não ficasse preocupado. O menino achou estranho, mas mesmo assim foi até a casa conferir por si mesmo. Chegando lá, chamou pelo pai, mas ninguém respondeu. Conferiu cada cômodo e percebeu que todas as portas estavam abertas, exceto a de um quarto. Ele bateu na porta e tentou abri-la, mas estava trancada. Chamou, mais uma vez, pelo nome de seu pai, mas não obteve resposta. Olhou em direção ao campo que tinha no fundo da casa e não viu ninguém.

Depois disso, o menino desceu de volta ao açude e disse para dona Ivete que não tinha ninguém lá em cima. Ela, então, achou aquilo muito suspeito e subiu apressadamente, encontrando Ado e Roma descendo em direção ao açude. Perguntou onde estavam, e eles responderam que tinham ido dar uma caminhada para olhar as terras de um vizinho que estavam à venda e Ado talvez tivesse interesse em comprá-las. Nisso, surgem Roberta e Moacir, vindos do galpão, se fazendo de desentendidos: “Onde vocês estavam? achamos que estavam todos no açude”. Os quatro fantásticos - Roberta, Moacir, Roma e Ado - trocaram olhares mais uma vez. Ivete e Márcio ficaram com um ponto de interrogação na testa. Nada além de olhares cúmplices naquele dia. O almoço, todavia, estava ótimo e todos comeram até não aguentar mais.