Fugindo das frases feitas que ouvimos diariamente dentro de casa, rua, trabalho, e agora compulsivamente por comentaristas maus profissionais, narradores de tv que transformam o telespectador em ouvinte, muitas palavras abrem a gaveta do tempo, nalgum tempo.

Algumas vêm com dissabores, e para quem fibrila o dia inteiro tendo as palavras e pensamentos pululando, fervilham, se não usar o Rivotril, viciado doméstico há 15 anos, sou fritado na cama e há brigas, pesadelos de sono pesado que não durmo: é piração, pior que aquele cochilo em pé, num ônibus das 18h, ou no metrô, ou em palestra de socialista.

Duas xícaras de água para uma de arroz - Nesta medida culinária, entranhou a pouco tempo. Assistia ao programa Pânico na Tv, único jornalístico com humor aceitável para quem tem bom senso no Brasil.

O "É Milho" veio com essa frase lembrando da avó, viva ainda. Só de Rádio o Emílio Surita deve ter 60 anos; eu era moleque e dava audiência para programa dele; se bem que o grande repórter, ex-deputado, e agora um dos empresários mais bem sucedidos (não gosto da construção deste particípio passado), Roberto Medina, é mais do que "É Milho", e está num canto promovendo o Rock in Rio, empreendimento da família.

Toda vez que vou fazer meu arroz: especial, brócolis, à grega, branco, cada um para seu tipo de proteína, vem em mente a frase duas xícaras de água para uma de arroz, e minha medida é outra...

Faz tempo que divido a culinária com os textos, edição de livros, jornais etc. As redes sociais me consumiam; dei um basta em grupos e, para mexer um pouco com a turma woke, politicamente correta, perdia a noção do tempo e queimava meu arroz: crosta preta, queimada no fundo da panela.

Aí, me dispunha a cozinhar outro.

Corte de pimentão verde - É bate pronto! Toda vez que me meto a cortar pimentão verde, vem a lembrança numa noite com fome, devia ter uns 11 anos.

Fui à cozinha de tia Elvira, e voltei para a sala, todos assistiam a novela e me viram com um pires esverdeado de pimentão bem cortado em rodelas.

A hora da novela era tempo e templo sagrados para Tia Elvira. Dormia no sofá. Uma de minhas primas contava o resumo do capítulo para ela ainda na noite ou no outro dia.

Cochilando, ela me chamou e disse:

  • "Vá no armário perto da mesa da copa. Tem limão, pimenta-do-reino, açafrão, pimenta-preta. Tem também umas folhas de alface na geladeira, enroladas num papel manteiga na gaveta de legumes e verduras. Misture com o pimentão, polvilhe os temperos, com um pouquinho de sal. Ah, tem pão seco na sacola de pão. Quebre em pedaços e esquente na frigideira sem óleo nem manteiga. Quando ficar parecido com torrada, misture com o pimentão e o alface".

Óbvio que depois de tudo pronto, só fiquei com um pouquinho no prato.

Coalhada - Ah, "minino", caminhava muito na década de 1970!

Andei muito para trazer galão de 5 litros de coalhada da indústria de beneficiamento de leite no Setor de Indústrias, em Brasília, perto do meu bairro, Cruzeiro Velho, em frente aos novos prédios do chamado Cruzeiro Novo.

Hoje, funciona um misto de bares, restaurantes e lojas de tudo, apelidadas de feira do Paraguai. Às vezes, recebíamos pacotes de leite em pó doados pelos americanos (de 1960 a 1970). Pesavam 20 kg. Já os galões com tampas apropriadas, em torno de 10 litros – galão de alumínio forrado e o produto – carregado ia pra lá de 20 kg.

Era um quitute para nossas famílias do Cruzeiro, pelo menos da antiga Quadra 21. Eu sempre fui escalado para buscar, pelo menos uma vez por semana, o galão de coalhada ou de leite dos sacos de 1 litro, que sobravam antes da data de garantia, ou havia algum defeito na embalagem. Apesar do peso, conseguia ir até esse laticínio (...), e abastecia a nossa casa.

Sermão - Essa palavra envolve outras: freira, padre, noviça...

Meu catecismo não foi lá essas coisas.

Primeiro, atrapalhava minhas idas às peladas, e muitas vezes na construção de novos campos de peladas em quadras que o futebol saía do 'quadradão', media uns 8 a 10 m².

No final das quadras do Cruzeiro, desenhava uma ferradura, havia um quadrado para estacionamento ou o carro que entrava ter onde fazer a curva e voltar.

Nós usávamos o espaço do quadradão para jogar bola em horários apertados, pôr do sol, antes de ir para a escola, ginásio, início da tarde, entre almoçar ou não...

Tenho os dois dedos mindinhos dos pés aleijados, de tanto tentar folhas secas em bolas feitas de meias enxertadas com papel-jornal.

Muitas peladas foram trocadas para ir à igrejinha, com salvas de bons moços das mães e para a tia do meu pai.

Um dos amigos, peralta é pouco, descobriu onde o padre guardava as hóstias e os vinhos, também uma forma de puxar os cruzeiros carimbados de cruzeiro novo.

Retorcíamos as flores de plástico fazendo um gancho, enfiávamos a ponta nas caixas fixadas nas laterais de madeira dentro da igreja, enfiadas na abertura, ia no meio das cédulas doadas na missa anterior, e vinha um monte de dinheiro.

Não tenho ideia do porquê, mas gostava quando eu puxava a nota de 10.000 cruzeiros com a estampa de Santos Dumont.

Da descoberta à surra, escapei dessa, mas não de ir à igreja todos os domingos às 18h. Consegui mudar meu horário, porque uma freira, noviça, bonita, não ia muito com minha cara, ou talvez despertasse algo que a afligia.

(Quem assistiu à novela Carinha de Anjo, SBT, que tem a estonteante Bia Arantes no papel de noviça – a minha era desse porte.)

Estava na frente dela na missa dominical, usava uma camiseta da moda, gola cavada em canoa e era do guarda-roupa do meu primo mais velho; a camisa continha estampas bem agressivas, letras serifadas: "iê-iê-iê"...

Do nada, recebi um puxão de orelhas, daqueles que torcem o 'juízo' e a bufa não sai para aumentar a pressão. Não gritei porque seria 'pecado'. Quando percebi quem era, saí de perto e voltei por trás. A dor ainda era intensa.

Não contei até três.

Me agachei, entrei no hábito da freira, levantei com ele nas pontas do dedo, e enrolei na cabeça dela para a frente, sem deixar de apertar um dos seios.

Toda a igreja viu a calçola da freirinha gostosa...

Ainda fui crismado nessa mesma igreja.

Salmão - Já adulto, passado por vários relacionamentos, defini que minha vida era a de solteiro, afinal, nunca gostei e nem aprendi a dar satisfação.

De uma amizade por parte de uma das ex-esposas, o casal havia construído uma casa na ilha de Itaparica, em que acompanhei em parte: vez em quando, meu amigo me chamava para ir ver a obra e levar mais material da construção ou comprar na ilha.

Algum tempo depois, dei um jogo de traves de ferro pintado antiferrugem e redes para o campo society numa área ao lado do lindo casarão, local de grandes festas de que participei.

Numa passagem de ano, ele me pediu que fosse num dos carros da família e levasse a adolescente mais velha deles, que deveria ir inicialmente para uma outra casa dos pais de uma amiga do colégio dela.

Chegamos na Feira de São Joaquim, e pegamos a fila de embarque do ferry boat em Salvador por volta de 11h da manhã, e iniciamos a viagem por volta das 19h no Gal Costa, demos sorte, era o mais asseado na época.

Fila da zorra...

Após os festejos da passagem de ano novo, ficou a fogueira a uns 10 m da casa, que serviu para assar o salmão na noite anterior: meu amigo levou temperado exclusivamente para sorvê-lo nos primeiros minutos do ano novo.

No dia seguinte, acordado, eu ainda estava bêbado, disposto fui de caiaque até um condomínio a três milhas, voltei por volta de 10h sem ver ninguém; todos dormiam.

Ao chegar na praia da casa, avistei a criança mais nova, mexendo na fogueira.

Gritei: — Amigão, se afasta! Ainda tem brasa...

Ao que o pai, rebateu lá do alto da suíte: - Amigão o quê, Baixote! Ele não tem idade para ter amigos, muito menos colegas. Chame-o pelo nome...

Mal terminou a frase, o garoto gritou alto, o urro saiu da alma... E pulando num pé, chorava demais aos gritos.

Larguei o caiaque na água, corri, peguei-o colo e o entreguei para a mãe que veio em correria desabada. O menino pisou numa brasa de ponta. Furou e queimou o pé.

Fomos para Mar Grande, início da ilha, perto do atracamento de Bom Despacho, e a farmacêutica deu conta do recado.

O garoto parou de sofrer, e já à tarde, de volta a casa, ele brincava perto do resto da fogueira, que havia jogado muita areia em cima dos restos do fogo...

Raras vezes como salmão, e são em restaurante japonês confiável. Aqui no Rio é moda até em happy hour...

SRN - Desde moleque a paixão pelo futebol nasceu da prática.

Claro que meu pai teve colaboração importante; comprava álbuns da Copa do Mundo de 1962, figurinhas, bola. Quando tinha um tempinho de folga, íamos no fim da tarde para o quintal da casa em que passávamos um tempo - digo isso, porque dos 4 anos até aos 8, não tive morada fixa, que veio a acontecer quando meu pai voltou de Brasília para São Paulo, e me levou para ser criado na casa dos tios dele na nova capital, e Tia Elvira me adotou como filho, até os 13 anos.

Teve uma época, das poucas que morei sob o teto do meu pai, que ouvia rádio, e, naturalmente, sintonizado nos jogos do campeonato carioca. Tinha uma predileção ouvir aos jogos do América; Edu, era o cara.

Mas nas peladas ouvia sobre Dida, Carlinhos, Leônidas da Silva, o famoso "Diamante Negro", Liminha, Doval, Fio Maravilha... passei então a ouvir os jogos do Flamengo, e já nos primeiros cravou no coração Raça, Amor e Paixão.

Entre vindas e voltas por conta do futebol, evitei treinar no Flamengo porque me fizeram desistir diante dos craques subindo para o time profissional: Adílio, Andrade, Júnior, Zico, Dudu, Geraldo, Zico, Júlio César, dentre outros craques. Dava pé, mas ia brigar muito...

Na "Geraldina" a primeira vez, vi o técnico paraguaio Fleitas Solich lançar Zico no time profissional do Flamengo, em julho de 1971, num clássico contra o Vasco.

Zico entrou como ponta-direita usando a camisa 9.

O Galinho de Quintino já havia participado, a pedido da torcida, no 2º tempo de outras partidas. Juntando as vozes no Maracanã e do Canal 100 nos cinemas, que antecedia os filmes com notícias, principalmente com filmagens do Flamengo no Maraca, os espectadores da telona gritavam os nomes dos jogadores e a paixão pelo Flamengo se consolidou de vez.

Lá no dia 10/12, o Troféu Inter Américas ficou com o Flamengo, que venceu o Cruz Azul do México, por 2 a 1, com dois gols do De Arrascaeta.

Dia 13/12, ganhamos por 2 a 0 do time Pyramids, do Egito, troféu Copa Challenger da FIFA 2025... No dia 17 de dezembro, o Mengão foi vice do Intercontinental ao empatar em 1 a 1, e perder nos pênaltys para o PSG, da França, jogos no Catar.

SRN, Saudações Rubro Negras!

PS.: Numa outra oportunidade resumo outras 15 palavras mestras.