Eu não sei quanto tempo estou aqui. Acho que já faz muito, porque minhas pernas estão dormindo e minha boca está tão seca que parece cheia de algodão. O lugar onde me escondi cheira a terra molhada, mofo e fumaça. É pequeno, bem pequeno, e escuro, tão escuro que às vezes penso que fiquei cego, mas aí fecho os olhos e continua tudo igual. Então sei que ainda enxergo, só que aqui não tem nada para ser visto. Só o escuro, os barulhos e meu coração batendo tão forte que parece que alguém vai ouvir.
Eu abracei meus joelhos bem apertado, como fazia quando tinha medo de trovão. Só que isso aqui não é trovão. O chão treme de um jeito diferente, como se estivesse com raiva. Primeiro vem um barulho lá no alto, um zumbido grosso, depois um estouro que faz meus dentes baterem sozinhos. Às vezes pedras caem do teto do meu esconderijo, e eu ponho as mãos na cabeça, igual mamãe fazia comigo quando eu tropeçava.
Mamãe.
Tento não pensar muito nela, porque quando penso parece que o ar fica mais pesado e difícil de entrar. Mas é difícil não pensar. Tudo que eu vejo no escuro vira o rosto dela para mim, com os olhos arregalados e as mãos me empurrando para dentro desse buraco depressa, dizendo para eu não fazer barulho, para eu ficar quietinho, para eu prometer que não sairia por nada, nem se chamassem meu nome.
Eu prometi.
E promessa é coisa séria.
O barulho lá fora não para. Às vezes fica longe, às vezes parece que está bem em cima da minha cabeça. Quando fica perto demais, sinto um vento quente entrando pela fresta da madeira que cobre a entrada. Tem gosto de ferro, de fumaça, de coisa queimada. Eu fecho a boca e seguro a respiração, do jeito que faço quando me escondo em brincadeira, só que dessa vez não tem ninguém contando até dez.
Meu estômago ronca. Tento fazer ele calar apertando mais meu corpo. Não sei se já é de dia ou de noite. Aqui dentro não muda nada. Só sei que já chorei várias vezes, porque meu rosto está todo duro de lágrima que secou. E às vezes eu choro sem barulho nenhum, só deixando a água cair, porque promessa é promessa.
Lembro do nosso quintal. Tinha uma árvore torta, que parecia um braço dobrado, e eu gostava de subir nela porque de lá dava para ver o telhado do vizinho. Era proibido, mas eu ia mesmo assim. Lembro do cheiro do pão que mamãe fazia quando o forno funcionava direito. Lembro de papai me levantando no alto, tão alto que eu achava que dava para tocar as nuvens. Não lembro do rosto dele certinho, só lembro da força dos braços e da risada grossa que vibrava no peito.
Agora só tem o barulho do céu quebrando.
Um estrondo mais forte me faz bater a cabeça na parede sem querer. Seguro o grito com as duas mãos, mordendo os dedos até doer. Meu esconderijo sacode inteiro, e por um instante acho que ele vai desabar e me engolir junto com tudo. Fico esperando. Nada acontece. Continuo aqui. Vivo.
Quando fico com muito medo, eu conto. Não sei contar direito além dos números pequenos, então começo do um, paro no dez, volto de novo. Às vezes confundo tudo e tenho que recomeçar. Mas isso ocupa minha cabeça e faz o mundo ficar um pouquinho menos grande.
O silêncio chega de repente.
Ele assusta mais do que o barulho. É como quando alguém apaga a luz sem avisar. O ar fica estranho, pesado, como se estivesse prendendo a respiração também. Fico ouvindo com toda a força dos meus ouvidos. Nada. Nem zumbido, nem estouro. Só um eco distante, bem longe, como um trovão cansado.
Tenho vontade de sair. Minhas pernas pedem para abrir a porta, para correr, para procurar alguém. Mas lembro da promessa. Lembro das mãos de mamãe tremendo quando me empurrou para cá. Lembro do jeito que ela tentou sorrir mesmo chorando. Então fico.
O tempo passa do jeito que ele quer, não do jeito que eu quero.
De repente, escuto vozes.
No começo acho que estou imaginando. Minha cabeça já fez isso antes, criou barulhos que não existiam. Mas agora não parecem fantasmas. São vozes verdadeiras, grossas e apressadas. Algumas falam um pouco diferente do que estou acostumado a ouvir. Não entendo tudo, mas entendo quando alguém grita para ter cuidado, quando chama outro nome, quando fala alguma coisa com pressa.
Meu coração começa a bater tão rápido que tenho medo que ele estoure também.
Escuto passos. Muitos passos. Passos pesados, rasgando a terra, quebrando coisas no chão. Alguém mexe na madeira que tapa a entrada do meu esconderijo. A madeira geme. Um feixe de luz corta o escuro e me machuca os olhos. Eu encolho o corpo todo, como um bichinho assustado. Não consigo nem gritar.
Uma sombra aparece na luz. Grande. Muito grande. Acho que é um monstro por um segundo. Mas o monstro fala com uma voz que tenta ser calma. Eu não entendo tudo, mas entendo quando a voz muda para suave, quando repete devagar, quando diz algo que parece “não precisa ter medo”.
Precisa sim.
Minhas mãos tremem tanto que mal consigo soltar meus joelhos. A luz fica mais forte. Vejo botas, uma roupa estranha, um símbolo que nunca vi antes. Vejo mãos grandes se estendendo na minha direção. Elas estão sujas de poeira, mas não parecem querer machucar. Parece que querem ajudar.
Fico parado, congelado, até alguém dizer algo que eu reconheço, numa língua parecida com a minha. A palavra “criança” chega aos meus ouvidos como se fosse um sino.
Então eu choro.
Choro alto, com som, com soluço, com tudo. Meu corpo todo treme de uma vez, como se o medo estivesse saindo pelos olhos e pela boca. As mãos me pegam com cuidado. Sou levantado no ar, como papai fazia. Me sinto leve e pesado ao mesmo tempo. Leve porque não estou mais no buraco. Pesado porque agora tudo dói de uma vez.
Vejo o mundo de novo.
Não é como antes.
O céu está cinza, sujo, cheio de fumaça. Casas estão quebradas, ruas rasgadas, coisas espalhadas que não deveriam estar assim. O lugar que eu conhecia virou outra coisa. Vejo homens correndo, ajudando outros feridos, carregando pessoas, chamando nomes que ninguém responde.
Um dos homens me segura apertado contra o peito. O coração dele bate forte também, igual ao meu. Ele fala coisas que não entendo direito, mas sei que não são ruins. Seu casaco está quente. Sinto um cheiro diferente, que não é de fumaça, nem de terra. É um cheiro que me lembra segurança, mesmo eu não sabendo por quê.
Procuro mamãe com os olhos.
Procuro papai.
Não vejo.
O homem percebe. Ele ajeita meu corpo nos braços e aponta para alguns caminhões mais adiante. Outras crianças estão lá. Algumas choram, outras estão quietas demais. Ele diz algo que não entendo, mas seus olhos dizem que agora estou a salvo.
A palavra “a salvo” não existe na minha cabeça do jeito que existe nos livros. Mas eu sinto.
Sinto quando nos afastamos do lugar onde fiquei escondido. Sinto quando o barulho fica mais longe. Sinto quando a fumaça fica menos sufocante. Sinto quando alguém me cobre com um pano quente. Sinto quando uma moça segura minha mão e sorri para mim, mesmo com os olhos cheios de água.
O mundo ainda está quebrado. Eu sei.
Talvez eu precise consertar ele.















