Se nasceste nos anos 1990, foste alimentado com a papa Cerelac, Nestum e vias certamente os desenhos animados na RTP2. Viveste a promessa de que um canudo académico era o bilhete dourado para a Fábrica de Chocolate da estabilidade e que uma caneta seria certamente mais leve que um cabo de uma esfregona. Pois bem, bem-vindo à realidade, onde o Willy Wonka é um senhorio com mau feitio e o chocolate sofre de inflação.

Provavelmente já despachaste a faculdade, ou estás naquela fase de “quase lá” que dura há três anos porque a tese não se escreve sozinha. Infelizmente. O desejo de sair de casa dos pais bateu forte. Querias o cheiro da liberdade, mas o único cheiro que encontraste foi o da humidade em apartamentos que custam dois salários mínimos. Descobriste, com o choque de quem leva com uma porta de vidro na cara, que o mundo não é só caro, o mundo é um esquema em pirâmide onde tu és a base que sustenta o cimento.

Mas talvez, com muita sorte, já mores sozinho. Parabéns, és um sobrevivente! Mas estás farto de pagar uma renda por um espaço que nunca será teu. Estás na flor da idade adulta, o que significa que tens olheiras, dores lombares e poderás começar uma coleção de ansiolíticos na mesinha de cabeceira.

Para preencher o vazio existencial, adotaste animais de estimação. Eles comem melhor que tu e têm um seguro de saúde mais abrangente, mas ao menos recebem-te com alegria quando chegas a casa depois de horas de deslocação e trabalho.

Ah, e o enxoval? Ninguém compra enxoval. A tua casa é um museu de “furtos autorizados” à casa dos pais. Corres para o IKEA, mas a tua carteira ri-se na tua cara quando pegas num candeeiro de design nórdico. Acabas a comer almôndegas e a comprar velas com cheiro a baunilha para disfarçar o cheiro a desespero.

Tornaste-te “mãe/pai” de plantas. A Monstera é a tua filha favorita, até ao dia em que decide suicidar-se.

Tu tentas. Juro que tentas.

Mas a botânica tem uma regra cruel: ou matas à sede, ou afogas a coitada. Ainda não aprendeste que a planta, tal como tu, prefere ser ignorada a ser sufocada com atenção excessiva.

A rotina doméstica é um espetáculo de tragicomédia. O jantar, outrora uma refeição sagrada às 19h00, agora acontece depois das 21h30. Lavar a roupa? Isso é um evento quase rotineiro que exige planeamento estratégico. E passar a ferro? Por amor de Deus, quem é que ainda passa a ferro? Se a roupa tiver vincos, chama-se “textura rústica” e está na moda.

A tua melhor amiga não é uma pessoa, é a bimby. Ou um robot de cozinha de marca branca se a vida estiver difícil. Pagas a prestações, como se fosse um carro, mas ela faz o arroz, bolos e sopa enquanto tu olhas para o teto a questionar as tuas escolhas de vida.

Ir ao supermercado acabou por se tornar o desporto radical da nossa geração. Começa por ser bastante divertido, até chegares à secção dos frescos e perceberes que o salmão está cotado na bolsa de valores. Adoras correr o corredor dos doces e trazer aquele chocolate proibido, que, sejamos honestos, não dura 24 horas no armário.

Mas, a pior parte é quando a aventura termina e colocas tudo no tapete rolante. Questionas-te se afinal precisas de comer assim tanto!

Jantar fora? Esquece. O novo normal são os jantares de amigos em casa. “Cada um traz uma coisa” é o lema. Acabam todos a comer empadão de arroz e a beber vinho de pacote disfarçado em jarro de vidro, enquanto reclamam do trabalho. É terapia de grupo com hidratos de carbono. Uma maravilha!

Os fins de semana sofrem de distorção temporal. São lentos porque estás demasiado cansado para sair do sofá, mas correm à velocidade da luz. Acordas ao meio-dia, tomas o pequeno-almoço à hora de lanche e, quando dás por ti, é domingo à noite e tens aquela angústia de pré-segunda-feira.

Arrumar a casa é a prioridade número um que fica sempre para número dez. Há que adquirir motivação e pôr mãos à obra. E quando finalmente desistes de uma renda absurda começa a guerra civil. A busca incansável pela compra de casa.

As mil aplicações que instalas e os 300 contactos por dia, para saberes que está tudo reservado, ocupado, em fase de CPCV ou ilegal e à procura do investidor cheio de papel. É um desespero.

A busca pelos metros quadrados, que atualmente valem mais que galeões de ouro em Gringotts.

Começas a ver anúncios e a rir para não chorar. Mais vale, para não desesperar. T1 “acolhedor”? Significa que consegues tocar nas quatro paredes ao mesmo tempo se abrires os braços. T2 com “potencial”? Significa uma ruína onde provavelmente morreu alguém nos anos 1920 e o fantasma ainda lá habita.

Procuras nos subúrbios, nos calhaus perdidos em terrenos baldios, e mesmo aí os preços superam as centenas de milhares. Casas modulares? Contentores com janelas? Parecia uma ideia futurista e barata, até perceberes que o terreno e o licenciamento custam um rim e meio fígado. A construção nova é um mito, algo que só existia no tempo dos nossos egrégios avós.

O problema não és tu, gostaria de dizer que sei o que é, mas não tenho resposta a este problema matemático que engloba não só números, mas letras!

Ora aparecem investidores que compram prédios inteiros como se estivessem a jogar Monopólio. Ou a malta do “pronto pagamento”, gente com tanto pastel que nem sabe o que é uma taxa Euribor.

E tu, jovem dinâmico, vais ao banco de chapéu na mão, pedir uma simulação, e sais de lá a saber que vais pagar a casa até aos 75 anos, se não morreres de stress antes.

Uma casa para a próxima geração, dizes tu e pensas bem. Nesta fase de vida, tenho de considerar que os apoios que surgiram, certamente vieram ajudar alguns.

No fundo, ser jovem hoje é viver num estado de “quase”. Quase tens casa, quase tens dinheiro, quase tens sanidade mental. Quase estás pronto para fazer um aforro. Quase te aconselham a ter um PPR.

Quase consegues sair de casa e quase consegues terminar o mês com 5 euros no bolso.

Mas ao menos tens uma Bimby, uma planta meio morta-viva e um cão que te julga silenciosamente no sofá. E isso, meus amigos, já é qualquer coisa na nossa geração!