Há palavras que já não se ouvem, mas que permanecem — adormecidas entre montanhas, em aldeias perdidas no mapa, ou guardadas no corpo daqueles que ainda sabem o som que uma língua quase extinta faz quando o vento passa por ela.

De tempos em tempos, alguém desperta essas palavras. Às vezes por curiosidade, outras por amor — quase sempre por saudade.

Segundo a Unesco, mais de 40% das línguas do mundo correm risco de desaparecer. Não estamos falando apenas de palavras, mas de cosmologias inteiras — modos de ver, de sentir, de contar a vida. Quando uma língua desaparece, não se apaga apenas um vocábulo: apaga-se uma maneira de existir.

Entre essas línguas que resistem no fio tênue entre o silêncio e o esquecimento está o euskera, idioma ancestral do País Basco. Uma língua que sobreviveu ao tempo, à censura e às tentativas de apagamento. Hoje, ela atravessa oceanos, alcança pessoas que talvez jamais tenham pisado em Euskal Herria, mas que reconhecem algo nela como profundamente familiar.

Eu sou uma dessas pessoas.

Este ensaio nasce assim: de uma busca íntima e de uma investigação coletiva.

Das conversas, entrevistas, encontros e memórias que fui recolhendo, percebi que aprender uma língua minoritária não é apenas um gesto intelectual — é um ato de reconexão. Um retorno ao que ficou para trás, ao que foi negado, silenciado ou esquecido. Um retorno às vozes que nos antecederam e às histórias que o tempo tentou calar.

Ao longo dessas páginas, entrelaço a minha trajetória às vozes de professores, estudantes, músicos, criadores digitais e sonhadores — cada um guardião de uma chama particular. São eles que mantêm viva a centelha de uma língua que insiste em não morrer.

Porque, no fim, falar é resistir. E resistir é lembrar.

A língua como lar

Aprender uma língua minoritária é como atravessar a porta de uma casa antiga. O tempo ali corre de outro modo; os cômodos guardam memórias que não são apenas nossas.

Foi essa a sensação que tive quando, este ano, finalmente comecei a estudar o euskera.

Filha de basco, carreguei meu sobrenome como um código — uma herança que eu reconhecia, mas não sabia decifrar. O convite para mergulhar nesse idioma chegou pela Euskal Etxea de São Paulo, que reuniu um pequeno grupo de iniciantes espalhados pela América do Sul e trouxe a professora Sabrina Otegui para nos conduzir por essa travessia.

Com Sabrina, percebi que aprender euskera não significa apenas dominar um sistema linguístico. Significa entrar em contato com algo que pulsa: uma tradição, um humor, uma teimosia, uma ternura ancestral. Significa ouvir nas entrelinhas aquilo que a História tentou ocultar.

A professora que semeia memória

Há línguas que se aprendem por necessidade — e há aquelas que nos escolhem.

O euskera pertence à segunda categoria.

Sabrina Otegui nasceu na Argentina, mas seu sobrenome basco — vindo de Tolosa — foi a primeira chave que a aproximou de uma história que ela ainda não sabia que lhe pertencia. “Cresci ouvindo que tínhamos parentes distantes, bascos, mas sem uma ligação real com essa identidade”, diz. Durante anos, a língua foi para ela uma curiosidade acadêmica, um eco distante na fronteira do seu próprio passado.

Até que, um dia, na Universidade de Buenos Aires, uma professora brincou:

“Você, com esse sobrenome, não sabe o que é o euskera?”

E essa pergunta abriu uma porta.

Ela ligou para um centro basco em Buenos Aires para perguntar se poderia estudar o idioma. A resposta foi simples — “venha” — e ali começou sua jornada. No início, tudo parecia um jogo linguístico, quase um entretenimento intelectual. Mas logo o estudo se transformou em algo mais profundo: um gesto de pertencimento. Uma forma de voltar para casa sem sair do lugar.

Cada palavra aprendida tornava-se uma palavra resgatada do silêncio dos avós. Um vínculo restaurado com casas que já não existem, mas que permanecem vivas dentro de quem as recorda.

“O euskera desperta muitas coisas nas pessoas que o aprendem”, ela me contou.

A princípio, há medo — o idioma parece estranho, impossível, mas avançando, surgem outras sensações: reconhecimento, memória, lembranças, uma ternura inesperada.

Não é só gramática. É uma ponte com os que já partiram, um caminho que permite reconstruir um mapa emocional que sobrevive ao tempo.

O nascimento de uma professora

Entre 2004 e 2008, Sabrina formou-se no programa Euskara Munduan, do Governo Basco, dentro do Instituto Etxepare. Dali emergiu não apenas uma docente, mas uma ativista da preservação cultural.

Anos depois, Kinku Zinkunegi, coordenador do programa, a convidou para ensinar no Brasil. Ela aceitou — mesmo sem falar português.

“Só para que ninguém ficasse sem a oportunidade de aprender”, diz.

Essa frase revela toda uma ética: a língua como generosidade.

Em São Paulo, ao começar a lecionar na Euskal Etxea, ficou claro para ela que a diáspora mantém um vínculo profundo com a língua. Ensinar euskera fora do País Basco é conservar essa presença simbólica, mesmo em lugares onde quase não se ouve o idioma.

“Pode parecer pouco em números”, explica, “mas simbolicamente é imenso: trata-se de manter a língua visível, mesmo onde quase não se escuta”.

E, assim, o euskera se transforma num território sem fronteiras — capaz de viver em qualquer lugar onde exista um ouvido disposto a ouvi-lo.

Euskaldun: a palavra que redefine pertencimento

Em uma conversa, perguntei a Sabrina qual palavra melhor resumiria o que significa o euskera.

Ela não hesitou: “euskaldun”.

Em basco, ser basco não depende do lugar onde se nasce, mas de falar a língua.

“Eu sou euskaldun”, disse ela, “mas nasci na Argentina.”

Essa frase simples desmonta séculos de fronteiras.

Não é geografia — é voz. É reconhecer-se parte de uma linhagem invisível que atravessa gerações e se perpetua palavra por palavra.

“Na cosmovisão do euskera”, explica Sabrina, “não se imaginava a existência de um basco que não falasse a língua.”. Falar, portanto, é existir.

Hoje, num mundo fragmentado, esse conceito não é apenas simbólico — é urgente. Euskaldun expande o País Basco, incluindo todos aqueles que, mesmo longe, sentem a língua como pátria íntima. Um espaço do qual ninguém pode ser exilado.

Memória, diáspora e o milagre da sobrevivência

A frase do escritor Joseba Sarrionandia, tantas vezes repetida:

Há línguas que se falam com a boca, mas há línguas que se falam com a alma. Enquanto houver alguém para pronunciá-las, mesmo do outro lado do oceano, continuarão sendo nosso único território livre.

Sabrina a cita com devoção — porque sabe que, depois de séculos de proibição, o euskera continua vivo. Pode-se aprisionar um corpo, diz ela, mas jamais uma língua que já se instalou na memória.

Dar aula, para ela, é manter aberta uma fresta de luz. É construir continuidade. É fazer com que cada estudante se torne guardião de uma centelha.