Recentemente, enquanto eu me preparava para realizar mais uma mudança de cidade e fazia a triagem das coisas que embarcariam comigo nessa nova fase, das que seriam descartadas e das destinadas a um novo dono, fui arrebatada por um questionamento inquietante. “Onde nasce o sentimento de pertencimento a um lugar?”. Em meio às caixas empacotadas, havia um álbum de fotografias minhas da infância, na cidade em que nasci. Logo fiz o link. O mais óbvio seria responder: nasce do nosso local de origem. Inclusive, esse é um dos princípios determinantes para a nacionalidade de uma pessoa, pelo menos no nosso país (Brasil). A denominação para isso, no Direito, é jus soli (direito de solo).

Além da determinação da nacionalidade por nascimento, existem mais dois métodos: por descendência e por naturalização. Mas a questão não é essa. Na verdade, a resposta para a minha indagação não está nessa classificação formal. É algo mais amplo. Referem-se aos elementos essenciais para que nasça no seu coração o sentimento de: aqui é o meu lugar!

É bastante comum termos essa identificação com o nosso local de nascimento, mas há exceções e mudanças de rotas. Por exemplo, caso você tenha vivido uma boa parte da sua vida sempre na sua cidade natal, a probabilidade de ter criado enraizamento com essa localidade será bastante significativa. Mas ainda assim, você pode nunca ter se mudado de cidade e sentir algo dentro de você sussurrar: “aqui não é o meu lugar”. Mesmo sem ter colocado os pés em outra região.

Por outro lado, você pode ter uma súbita revelação para o seu próprio espanto de não se reconhecer mais nos símbolos da cidade: sotaques, costumes, tradições e festas. Não chega a ser uma repulsa às suas origens. Mas uma constatação, um tanto agridoce, de que esses elementos fizeram parte de uma identidade que você não compartilha mais. Às vezes, a contragosto, porque pode ser difícil admitir isso para nós mesmos, sem julgamento. Geralmente, isso pode acontecer quando você se muda por um tempo e depois retorna. Como se o distanciamento daquele lugar fizesse enxergá-lo a partir de uma nova perspectiva.

Outras vezes, ainda existem laços na cidade e afeto, mas a falta de oportunidades de trabalho faz com que a presença ali seja desconfortável. O desejo de permanecer coexiste e entra em choque com uma força invisível que parece empurrar você para além desses limites. O sentimento de pertencimento transforma-se em inquietação. Como se o futuro precisasse ser buscado em um novo lugar.

E esse novo lugar pode ser não só outra cidade, mas também outro país. É nele que a pessoa se encontra com uma sensação de dupla nacionalidade: ainda conectada às memórias, às ruas e aos laços da cidade natal, mas ao mesmo tempo inserida em um espaço que oferece oportunidades reais de crescimento e liberdade para se reinventar. É a chance de pertencer a dois lugares, de carregar afeto por onde nasceu e, ao mesmo tempo, abraçar um futuro que finalmente parece se abrir diante dela, sem precisar escolher entre passado e presente.

Em outras ocasiões, a atração por uma cidade pode surgir sem um motivo aparente. A vida empurra a pessoa por caminhos inesperados, fazendo-a passar por mudanças profundas — uma gravidez, o término de um relacionamento, a reconstrução de si mesma. E envolta a esse turbilhão de emoções, ela sente uma espécie de chamado e curiosidade. Dá um salto para o desconhecido e encontra um território que finalmente parece acolher quem ela se tornou.

Em contrapartida, o sentimento de pertencimento pode nascer não da cidade em si, mas das pessoas que a habitam. Às vezes, o lugar é simples, tem pouca infraestrutura e quase nenhuma opção de lazer. Mesmo assim, algo diferente acontece: as pessoas são gentis, abertas, dispostas a ajudar. Aos poucos, a pessoa se sente parte daquele ambiente, cria vínculos reais e percebe que encontrou um tipo de acolhimento que nunca havia experimentado antes. No fim, é a convivência e o afeto que dão sentido ao lugar.

A conexão com o lugar também nasce quando existe segurança. Poder andar pelas ruas sem medo, sair a qualquer hora, pegar o transporte tranquilo — tudo isso muda a forma como a pessoa se relaciona com o ambiente. Quando há liberdade para ir e vir, a cidade deixa de ser um território hostil e vira uma extensão do lar e até da identidade da pessoa.

E há também quem encontre pertencimento em mais de um lugar. Pessoas com um espírito mais cosmopolita. Transitam com facilidade entre diferentes ambientes, culturas e modos de vida. São como uma raiz pivotante: fincam-se fundo em si mesmas, mas se ramificam por onde passam, encontrando solo fértil em cada novo destino. O entrelaçar dessas vivências constroem uma identidade múltipla. Encontram a completude no somatório de todas essas experiências, sem jamais perder a própria essência.