A literatura tem sido um elemento fundacional da nação cabo-verdiana, delineando e evidenciando a identidade e idiossincrasia do povo das ilhas.

Tendo-se iniciado este processo desde os primórdios do povoamento, é no século XIX que ele ganha sistematicidade e definição. Desde a geração nativista passando pelo manifesto do fincar os pés no chão da geração claridosa, pelos contestatários e independentistas da geração da Certeza, até chegar ao ecletismo da geração pós-moderna e pós-independência, a literatura tem sido um grito de liberdade e inclusão no nosso país.

Senhoras e senhores,

É com muita alegria que cumprimento a todos que acompanham esta conferência internacional celebrativa dos 50 anos da nossa Independência, que evoca a história recente de Cabo Verde.

Antes de mais permitam-me cumprimentar o ilustre presidente do Conselho Diretivo do Instituto do Arquivo Nacional de Cabo Verde (IANCV), Dr. José Maria Borges Tavares, dando-lhe os parabéns por esta iniciativa louvável e agradecendo o convite para aqui estar hoje, para refletir sobre algo que muito me interpela que é a literatura cabo-verdiana.

Debruçar-me-ei especificamente sobre o papel da literatura na libertação dos povos africanos, com a tónica nos 50 anos do nosso país independente.

Celebrar os 50 anos da independência significa, antes de mais, olhar reflexivamente para o passado, analisar o presente e projetar o futuro.

Olhar para o passado quer dizer falar daqueles que permitiram que nós chegássemos ao patamar de desenvolvimento em que vivemos atualmente.

Primeiro devemos referir-nos ao povo cabo-verdiano, um povo trabalhador, resiliente e extremamente persistente que, depois de viver um período Colonial de 500 anos, participou de forma ativa e decisiva na luta pela independência nacional e conseguiu fazer triunfar os seus ideais.

Contudo nos coletivos há sempre protagonistas que sobressaem pela especial qualidade da sua contribuição, para o triunfo dos processos.

No caso presente penso que todos concordarão comigo que uma referência especial deve ser feita a alguém que soube como ninguém empunhar a bandeira da luta pela liberdade e conduzi-la à vitória final. Como todos devem imaginar estou a referir-me ao icónico Amílcar Cabral, o líder que conduziu a luta armada de libertação nacional, mas também deu sempre atenção ao pendor cultural, humanista e desenvolvimentista desta, pois a luta pela independência como dizia, não quer significar apenas ter ganho uma bandeira e um hino, mas é fundamental que se criem as condições para uma vida cada vez mais digna do povo que se torna independente.

Esta referência estende-se a todos os Combatentes da Liberdade da Pátria que sem olhar a prebendas se entregaram à causa da libertação do país, alguns com sacrifício da própria vida, como aliás aconteceu com Amílcar Cabral.

Eles foram também os primeiros cabouqueiros da Reconstrução Nacional de Cabo Verde criando as condições para que no dia 5 de julho de 1975, se hasteasse a bandeira nacional e se entoasse o hino da nossa pátria amada. E assim, solenemente, se declarasse a independência de Cabo Verde e o nosso país se constituísse em Estado independente e soberano, passando a integrar o concerto das Nações livres do mundo!

Senhoras e senhores,

Cabo Verde era um país pequeno, pobre e periférico, considerado inviável, sem riquezas naturais que pudessem auspiciar um futuro materialmente confortável e integrava o grupo de países menos avançados do mundo, os PMA.

Como é que passados 50 anos conseguimos não só sobreviver como somos agora um país de desenvolvimento médio alto, conforme anunciado recentemente pelo Banco Mundial, o que nos orgulha, apesar dos enormes desafios que ainda persistem, nomeadamente no combate a pobreza.

Já somos um país viável e inclusivamente temos o maior per capita dos países africanos de língua oficial portuguesa que, mais ou menos, na mesma altura ascenderam à independência.

É obra!

E esta obra foi conseguida com a participação de todo o povo cabo-verdiano!

Mas é fundamental que continuemos na senda do desenvolvimento, procurando criar as condições necessárias para que todos os cabo-verdianos possam viver com o mínimo de bem-estar que requer a dignidade humana.

Senhoras e senhores,

Cingindo-me ao tema proposto falarei apenas de uma pequena, mas importante parcela dos construtores da nação cabo-verdiana: os escritores.

Em Cabo Verde sempre se verificaram movimentos de resistência e rebelião contra as autoridades coloniais. Mas sempre foram movimentos inorgânicos, que surgiam despoletados pela fome, pelo abandono ou por algum ato mais desumano do poder colonial.

Posso citar como exemplo a rebelião instigada pela fome comandada pelo capitão Ambrósio ou a rebelião das gentes de Santiago em Rubon Manel com o mote de “omi faka, mudjer matxadu” entre várias outras.

Cada um desses atos sempre encontrou eco na pena dos escritores, o que lhes conferia maior visibilidade aumentando o seu impacto na necessidade do nosso pequeno país deixar de viver sob a dominação colonial.

Veja-se como o poema Capitão Ambrósio do escritor Gabriel Mariano fez ecoar o grito da existência de fome nestas ilhas.

Grito aliás que foi ampliado pela obra monumental Famintos do escritor Luís Romano que descreve com extraordinário realismo as tragédias provocadas pela seca e pelo abandono.

Na verdade, as ilhas começaram a escrever praticamente desde que se fez o seu povoamento.

Já no século XVI André Dornellas e André Alves de Almada começaram a perenizar-se no universo da escrita, hoje são considerados imortais da Academia Cabo-verdiana de Letras.

No século XVII o Padre António Vieira fazia referência aos clérigos de Santigo, negros como azeviche, mas portadores de uma palavra escrita que fazia inveja aos da dita metrópole.

No século XIX autores como Eugénio Tavares e Pedro Cardoso registaram suas reivindicações de autonomia em páginas carregadas de simbolismo. Pertence a Eugénio Tavares o célebre brado “A África para os africanos”, publicado no jornal A Alvorado no início de 1900.

No século XX a revista Claridade foi fundacional para a nação cabo-verdiana, pois com o seu mote de fincar os pés no chão catalisou o sentir nacional, ajudando a criar a idiossincrasia do povo das ilhas e fixando alguns aspetos fundamentais da identidade crioulo.

É Baltasar Lopes, que sob o pseudónimo de Osvaldo Alcântara alerta no seu poema Ressaca, de forma emblemática:

e venham as odes dos poetas… casem-se os poetas com a respiração do mundo; mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores na linha de todas as batalhas.

A seguir à revista Claridade veio a geração os contestatários da revista Certeza onde se inscrevem nomes sonantes como António Nunes, Aguinaldo Fonseca, Amílcar Cabral, Ouvídio Martins ou Onésimo Silveira. Cabe anotar que, na perspetiva de Manuel Veiga,

um segundo laboratório de formação de Cabral foi a ilha de São Vicente, na altura um centro cultural importante, com movimentações literárias a volta da revista Claridade […] da revista Certeza e da Academia Cultivar

Também não podemos esquecer o fabuloso cancioneiro cabo-verdiano com ritmos que vão da morna, coladeira, batuque, tabanca, funaná, kolá sanjon, tem um extraordinário capítulo constituído por música revolucionária, de intervenção, denuncia e mobilização, que versam a seca, a fome, a emigração, a resistência, a luta de libertação nacional e o novo amanhecer que simboliza a independência e a democracia após o regime monopartidário.

Este cancioneiro faz jus ao bilinguismo cabo-verdiano, pois é quase todo ele escrito na nossa língua materna, a língua cabo-verdiana.

Reparem na beleza destes versos de Waldemar Lopes da Silva, autor e compositor, interpretados na voz portentosa de Nho Balta.

Pa kada gota d sange derramad
Pa kada fidje k bo perdê
Pa kada bala disparad, oh mãi
Ka bo txorá
Sakrifisiu d nos vida
No ta faze-l na serteza k no ta ser feliz.

Assim, de forma muito singular, a literatura contribuiu num primeiro momento como elemento fundante da nação cabo-verdiana e num segundo para a sua libertação do regime colonial.

Como assevera Napoleão Vieira de Andrade:

A elite cultural cabo-verdiana encontrou expressão máxima no movimento literário e ideológico da Claridade, nascido em 1936 com a publicação da revista homónima. Num tempo marcado pela miséria, pela seca e pelo jugo colonial, um punhado de intelectuais ousou romper o silêncio cúmplice e a estética artificial imposta pela metrópole, dando voz às agruras, esperanças e contradições da alma crioula. Através da palavra escrita, forjaram não apenas literatura — forjaram consciência nacional.
[…]
Esta elite cultural foi precursora da lucidez e da inquietação que mais tarde ganharia corpo político. Com efeito, se a Claridade literária denunciou com elegância e coragem as iniquidades do sistema colonial, foi na esfera da luta de libertação que se consolidou uma segunda elite — a elite política — que tomou sobre si o fardo histórico da emancipação.

Importa não esquecer que muita dessa elite política também usou a escrita para fazer a denúncia da situação de dominação colonial em que o país vivia e a partir desta denúncia fazer a mobilização para a libertação nacional.

A geração literária que se reuniu à volta da revista Certeza tem nomes que para além de integrarem o panorama literário das ilhas trouxeram consigo o grito de liberdade e independência para a nação cabo-verdiana.

É com Ovídio Martins que podemos apreciar a beleza de versos como:

Morremos e ressuscitamos todos os anos para o desespero dos que nos impedem a caminhada ou gritarei, berrarei, matarei, não vou para Pasárgada.

Senhoras e Senhores,

Além de todo o movimento literário antifascista e anticolonialista que caracterizou a literatura cabo-verdiana durante o período colonial, que sumariamente apresentamos, a fase pós-colonial e pós-moderna desta literatura inicia-se com a publicação, em 1974, já em período de transição para a independência, do livro de poemas “Pão & fonema” de Corsino Fortes que costuma ser identificado como o marco inicial deste período.

Corsino Fortes começou a sua produção literária antes da independência, mas é a partir de 1975 que a sua escrita adquire maior pujança com obras como a trilogia A Cabeça Calva de Deus que reúne Pão & Fomena, Árvore & Tambor e Pedras de Sol & Substância. De ressaltar o extraordinário diálogo entre a língua portuguesa e cabo-verdiana que ele realiza em suas obras, além de usar tanto a língua portuguesa como a língua cabo-verdiana.

Também João Vário, muitos anos exilado político, começou a sua produção poética no período colonial, mas é no pós-independência que a sua vastíssima obra literária adquire maior fulgor e consistência, com Contos da Macaronésia ou O Estado Impenitente da Fragilidade, que apresentam uma perspetiva filosófica metafísica nova na literatura cabo-verdiana.

Já Arménio Vieira poeta galardoado com o prémio Camões que igualmente começou lá atrás, é durante estes 50 anos de independência que nos oferece as suas obras mais consagratórias como O Eleito do Sol que questiona a ordem instituída pelo regime monopartidário ou os Brumários, série de três livros de poesia.

Germano Almeida que se revela no pós-independência vem oferecendo com a sua escrita os mais ricos e diversificados quadros sociais do povo cabo-verdiano, criticando com humor o status quo tendo sido também distinguido com o prémio Camões pelo valor da sua obra escrita.

Este período pós-colonial integra estes e vários outros autores e está marcado por vários estilos e tendências, pelo carácter universalista, pela inovação formal e temática e sobretudo pela afirmação da escrita feminina.

Abrindo-se mais ainda ao mundo, impregnando-se de novos valores e novas perceções da vida e das coisas, apreendendo as novas tecnologias e impulsos hodiernos, por um lado, e por outro, acompanhando o dia-a-dia mundial, que tornam o planeta uma aldeia global, e sofrendo também as consequências dos inúmeros acontecimentos globais, tais como os conflitos e guerras, as escaladas das drogas, o alcoolismo, as epidemias, os fenómenos de aculturação, as ameaças ecológicas e nuclear, e a assunção de novas orientações sexuais, os escritores cabo-verdianos contemporâneos também se impregnam desse novo clima de vida e vivência, traduzindo-o nas suas escritas numa linguagem e roupagem, tanto estética como temática, diferente da escrita que lhes antecedeu.

Verifica-se uma revolução e uma inovação na forma e na maneira de escrever, na perceção da nova realidade cabo-verdiana e no modo de retratá-la. E essa revolução se verifica tanto no aspeto literário em si, nas novas imagens e metáforas, como no que concerne ao conteúdo e abordagem das novas temáticas, que se evidenciam pela originalidade e criatividade.

Também, uma vigorosa escrita de mulheres constitui uma das características mais marcantes deste período da literatura cabo-verdiana, contribuindo de forma decisiva para o ideário de libertação da mulher, mas não me debruçarei especificamente sobre ela por limitações de tempo.

Várias atividades coletivas promovem a nossa literatura tais como o Festival de Literatura Mundo do Sal, ou os Encontros de Escritores de Língua Portuguesa da Praia.

Em Cabo Verde temos autores que seguem uma filosofia da “arte pela arte”, e autores que claramente perfilham a “arte pela vida”, temos escrita de grande beleza estética, e escrita de grande beleza temática. E é assim que os escritores cabo-verdianos, certos de que a palavra é dos mais poderosos instrumentos para a construção da liberdade, vêm dando a sua contribuição na definição da pátria cabo-verdiana, ajudando no processo de libertação do povo e ampliando as fronteiras do nosso pequeno país.

Em termos de políticas públicas futuras, além do apoio permanente ao livro e a leitura e da necessidade de criarmos estruturas para a formação nas mais diversas áreas artísticas, não posso concluir esta intervenção sem fazer um vibrante apelo a nossa augusta Assembleia Nacional no sentido de atender aos inúmeros pedidos de oficialização da Língua Cabo-verdiana durante as celebrações destes 50 anos que se prolongam até ao dia 5 de julho de 2026!