No livro Canto de muro: Romance de costumes, de Câmara Cascudo1, a contemplação do artista não empresta, ao antropomorfismo que adota, intenções didascálicas, enquanto diretiva moral. Prefere esse recurso como a melhor forma de aproximação sensível que possui, pois sabe que seu ato de observar já vem impregnado de fantasia, de imagens e comparações que minam a priori qualquer registro científico rigoroso. Sabe da dificuldade de construir o ponto de vista do animal, de se colocar no lugar dele, de conscientizar projeções. Prefere recorrer à interpretação vinda de tudo o que conhece no gênero humano, homem diante de bichos.

Como artista, Cascudo não aceitou externar o árduo esforço de comunicação ou a impotência dolorosa que fazem a grandeza literária e humana de “La mort du loup” de Vigny, de Caninos brancos do norteamericano Jack London, do “petir chat” de Manuel Bandeira, do Pássaro espaço de Salvador Monteiro, ou da câmera de Arne Suckdorff, quando plasma os olhos da raposinha moribunda perante os quais a paisagem simplesmente se apaga.

Canto de muro trabalha bem a intertextualidade em sua estrutura; alia a ficção a dados absolutamente corretos da zoologia, da botânica, da história, da mitologia, da geografia permeados pelo folclore e recolhe citações de poetas amenizadoras do escopo didático que, aí sim, se instala. Como sempre se mesclam à narração, não tornam o texto enfadonho ao leitor comum. Até os nomes científicos podem lhe soar engraçados e hiperbólicos, enfeitados com os sobrenomes dos padrinhos naturalistas. Este trecho que focaliza o acauã, no episódio da morte de Raca, a jararaca, bem representa o amálgama operado:

[...] Raca estava dormindo debaixo da tábua da porta derrubada na entrada da velha cozinha. Acordou, sem saber porquê, os músculos repuxados, a cauda inquieta, uma vontade de esgueirar-se e fugir de um perigo invisível. Sentiu uma estocada que findara em beliscão estorcegador. Raca, indignada com a falta de respeito, lançou-se para fora, mentalmente construindo a posição do bote caçador. Diante, saltitante nos tijolos sujos da calçada, estava uma ave em quem nunca a jararaca pusera os olhos.

Teria uns 25 centímetros de altura, plumagem cinzento-escura, atravessada de faixas claras, quase brancas. Penas amareladas subiam-lhe do ventre até o pescoço. Longas asas, duras, escudos de combate. Olhos acesos, vibrantes, os olhos das aves de rapina. O bico longo, sólido, brilhando foscamente. Era uma ave de batalhas, ágil, maciça, airosa, com o corpo luzindo, o óleo isolador do gladiador profissional.

Ali estava um príncipe da dinastia dos falconídeos invencíveis, preador de todos os ofídios, seguindo-os como Raca acompanhava o fugitivo e apavorado Gô [o rato]. Uma Herpethotheres cachinnans guerribundus, Bangs e Penard. Era uma Acauã2.

A procura da base científica oferece uma curiosa na ambivalência: ao mesmo tempo que o naturalista nordestino acata especialistas renomados, desde Plínio, Buffon e Cuvier, tem o prazer de contestá-los, com ironia, ao exibir resultados de sua “pesquisa” no âmbito brasileiro. Isso nos faz lembrar escritores do porte de Maeterlinck, Alejo Carpentier e Mário de Andrade na necessidade que demonstraram de conhecer história natural e empreender suas pesquisas particulares. O canto dos pássaros e as outras vozes da natureza atraindo Carpentier e Mário, em suas reflexões de musicólogos; os insetos, abelhas e formigas, que onquistam Maurice Maeterlinck. Câmara Cascudo, aliás, não poupa elogios ao lirismo de La vie des abeilles.

Cascudo descobre um ótimo expediente para batizar os bichos que põe em cena, criaturas do espaço do romancista. Enxerga-os como indivíduos que merecem um nome inventado, porém, comum a cada gênero porque são muitos, como as baratas e os ratos, e porque se sucedem rapidamente no quintal, por força da curta duração de suas vidas, veja-se o escorpião.

Não o satisfaz o anonimato do rótulo da zoologia, que toma como abonação. Prefere promover uma relação de familiaridade do narrador com eles, colorida por um certo tom hipocorístico. Adota formas populares como Guaxinim; cria nomes a partir da figura da personagem – Vênia, a lagartixa, sempre balançando a cabecinha –, confirma em Sófia a sabedoria secularmente atribuída à coruja, recupera os apelativos dos únicos animais domésticos que cruzam o quintal – a galinha Dondon e o gato Brinco –, mas, na maior parte das vezes, separa palavras e segmentos na denominação científica ou escolhe parcelas do termo que classifica a família no reino animal. Títius é o escorpião ou lacrau, saindo de Tityus bahiensis, Perty; Licosa, a enorme aranha negra, de Lycosa raptoria, Walckenser; Niti, bacurau e curiango, de Nyctidromus albicollis, Quiró, dos quirópteros, Raca, de Bothrops jararaca e assim por diante.

Fica-se desejando que o centenário de Luís da Câmara Cascudo traga uma nova edição deste Canto de muro. Ela poderá sanar a ausência de tradução (em notas de rodapé) para as numerosas citações em latim, francês e inglês, semeadas ao longo do discurso do narrador, a dádiva ao leitor culto, mas esquecimento, em termos de Brasil, de um público mais amplo.

Notas

1 Telê Ancona Lopez, 2003. Verbete para Canto de muro. In: SILVA, Marcos (org.). Dicionário crítico Câmara Cascudo. São Paulo/ Natal, FFLCH-USP/Perspectiva/FAPESP/ Fundação José Augusto, 2003, p. 23-27.
2 Op. cit. p. 101-2.