Canto de muro: Romance de costumes de Luís da Câmara Cascudo (Natal, 1898-1986), esgotado na primeira tiragem da Livraria José Olympio, em 1959, e na segunda, quando entrou, em 1977, para a Coleção Sagarana da mesma editora carioca, está entre os “livros que ‘ficam’”1. Tornou-se um “daqueles ‘clássicos de segunda fileira’ que fazem as delícias dos amadores sutis e exigentes", conforme previa o crítico Wilson Martins2.
Romance na vertente do regionalismo nordestino? que mais andou fazendo nosso grande folclorista? poderá se perguntar o leitor desavisado ao primeiro contato com a capa do volume. Não lhe tardarão as respostas.
Canto de muro é, de fato, um “romance de costumes”, como o classifica, com humor, o subtítulo. Mas, um romance de costumes que se debruça no mundo dos animais, tendo como personagens insetos, aves, répteis, pequenos mamíferos moradores e visitantes de um quintal abandonado, o canto do muro velho, em Natal, onde árvores, trepadeiras, chão, ruínas e refugos guardam existências miúdas em constante sobressalto. Afirma-se como romance que fixa elementos da fauna e da flora, uma geografia regional e explora ditos, sabenças e práticas do Nordeste brasileiro. Mesmo enriquecendo a singularidade do espaço, ao colocá-la na esteira da história dos homens e da chamada história natural e ao buscar vínculos com outras regiões do Brasil, privilegia sempre a tonalidade do folclore.
Romance, descarta a fábula na construção da trama que leva em conta a condição dos bichos na natureza, além das fronteiras do bem e do mal, e se limita a onomatopéias ou menções às vozes dos animais. Morcego, urubu, aranha, bacurau, lagartixa, lacrau e tantos outros não estão ali para transmitir recados morais. Existem simplesmente. Conservam a autonomia de personagens decalcados em indivíduos da realidade, alheios à comprovação de teses e traços.
Em nota de abertura à primeira edição, o autor assim os encara, ironizando as experiências científicas: “Se alguns dos meus personagens, fixados na liberdade de todas as horas do dia e da noite, portaram-se aqui diferentemente do que fizeram nos laboratórios científicos, nas horas de experimentação grave, a culpa pertence a eles pela duplicidade cínica de atitudes e sonegação a um depoimento legítimo da verdade, diante de pessoas sérias e de boa reputação social.”3.
Personagens, vivem suas aventuras e desventuras interrelacionando-se espontaneamente no velho quintal, cobertos pela interpretação que lhes empresta traços humanos e inverte o teor das relações presenciadas no quintal de João Romão, em Aluísio Azevedo. Têm seu comportamento narrado com admiração e benevolência irônica, ao passo que, n' O cortiço, o determinismo naturalista inventa homens e mulheres carregados de marcas pejorativas atribuídas aos animais pela sociedade do homem. Cascudo antropomorfiza sem ganhar, entretanto, a abrangência literária e simbólica maior que se constata na viagem de Gulliver ao país dos Houyhnhnms, de Swift, n'A revolução dos bichos de George Orwell ou na Fazenda modelo do nosso Chico Buarque de Holanda.
A valorização da vida no canto do muro começa nos títulos dos capítulos que parodiam obras científicas em latim, crônicas antigas, romances de cavalaria, de cordel e autores consagrados como Lima Barreto, Pirandello e Francisco de Assis. “De re aliena”, “Gesta de grilo”, “De como Licosa perdeu uma pata e o mais que sucedeu”, “Triste fim de Raca”, “Três personagens à procura de um autor” ou “Irmã água” são bons exemplos.
O romance harmoniza observação e contemplação amorosas e por isso mesmo cheias de humor. Ao longo dos episódios o narrador multiplica papéis: mostra-se o cronista encarregado do registro mais ou menos objetivo dos acontecimentos, o memorialista em rápidas intromissões e, o mais das vezes, é personagem que se desenha ao longo da matéria narrada. A ficcionalização de certos aspectos da realidade transforma o que poderia ser um depoimento à Bates e não esquece a análise do mundo dos entes racionais. O narrador enquanto personagem, ou seja, o naturalista das horas vagas dotado de altíssima erudição e sofisticada simplicidade, profundo conhecedor do folclore de todos os países, não se desperdiça em informações pernósticas. O estilo, pleno de graça, puxa naturalmente o fio dos episódios, entrelaça personagens.
Combina desenvoltura de romancista na montagem da ação, vivência, objetividade, filosofia e visão poética do espaço escolhido. Não se exime de condenar o abuso de poder por parte do homem no trato cotidiano e na experimentação científica com animais, embora paralelamente relate, sem sombra de culpa, o cativeiro de um guaxinim e de uma coruja, por ele próprio perpetrado... Coexistências… Contradições... Na verdade, o texto de Montaigne a que o escritor recorre na nota de abertura, não é a “Apologia de Raimond Sebond”, luminosa compreensão dos animais que atravessa séculos e pode ser aproximada à revolucionária ética ecumênica hoje proposta pelo geógrafo Augustin Berque.
Predomina, no narrador/personagem, o lirismo do olhar que transfigura, através de imagens, comparações, cinestesias, adjetivos precisos, um local desprezado e corroído, ao captar nele a pulsação da vida, a dimensão plástica nas cores da vegetação e dos seres, nas luzes e sombras, nas diversas danças de amor e de morte; a dimensão dos sons da terra, dos chilreios, cantos e guinchos ou dos silêncios ominosos; o alcance dos perfumes e cheiros.
Notas
1 Telê Ancona Lopez, 2003. Verbete para Canto de muro. In: Silva, Marcos (org.). Dicionário crítico Câmara Cascudo. São Paulo/ Natal, FFLCH-USP/Perspectiva/FAPESP/ Fundação José Augusto, 2003, p. 23-27.
2 Martins, Wilson. “Canto de muro”. In: Cascudo, Luís da Câmara. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio, 1977, fragmento da apresentação na aba, posto na capa do livro.
3 A nota é repetida na 2ª edição.















