No artigo, discuto que, embora persigam um ideal de objetividade e de imparcialidade, notícias de jornal, mesmo as da imprensa dita séria, trazem em si marcas de subjetividade.

O leitor deve estar atento às marcas linguísticas de subjetividade presentes em textos jornalísticos, particularmente naqueles em que a objetividade e a imparcialidade deveriam ser uma de suas características principais; no caso, as notícias, identificando opiniões em textos que, teoricamente, deveriam passar aos leitores uma exposição que tendesse o mais possível à objetividade. A percepção da subjetividade nos textos é algo que pode e deve ser aprendido. Nesse sentido, a escola assume uma função muito importante para a formação de leitores críticos.

É assumido como pressuposto que as atividades de leitura no âmbito da escola devem contemplar a diversidade dos gêneros. No entanto, não há como negar que determinados gêneros acabam tendo prevalência sobre outros em situações de ensino e aprendizagem.

A escola pode até deixar de lado o trabalho com alguns gêneros como receita médica, ata de condomínio, escritura pública, uma vez que, dada a diversidade dos gêneros, jamais conseguirá contemplar todos. Raramente poderá deixar de contemplar gêneros textuais ligados à esfera literária, já que tais textos podem ser considerados modelares.

A mesma coisa ocorre com gêneros ligados à esfera do jornalismo, uma vez que, por meio de tais textos, os estudantes não só são informados do que acontece no mundo, mas também tomam contato com opiniões a respeito de fatos e de temas relevantes, sendo, portanto, importantes para sua formação não só como leitores e produtores de textos, mas também como cidadãos. Dessa forma, gêneros como poema, conto, romance, artigo de opinião, editorial, resenha, reportagem e notícia, necessariamente deverão fazer parte do repertório de leitura dos estudantes.

Neste artigo, restrinjo-me a um gênero textual ligado à esfera jornalística, a notícia, uma vez que é por meio dela que somos informados de fatos que ocorrem não só a nosso redor, mas também daqueles acontecidos em lugares distantes e que têm alguma relevância. Acrescente-se, ainda, que textos jornalísticos nos fornecem conhecimentos de mundo que nos servirão de subsídios para a produção de nossos próprios textos.

Vivemos numa época em que muita gente consome informação por meio de redes sociais. Não é raro que nelas circulem informações falsas, as famigeradas fake news, que, em vez de informarem, desinformam. Daí a importância da busca de informação em fontes que detenham credibilidade.

Boa parte dos jornais de maior circulação, em seus manuais de redação, recomendam aos jornalistas que, ao noticiarem um fato, sejam objetivos e imparciais, na medida em que a imparcialidade é fator de credibilidade dos veículos de comunicação.

Nas notícias, ao contrário do que ocorre nos editoriais e artigos de opinião, espera-se do jornalista um alto grau de objetividade ao noticiar fatos. A objetividade em textos jornalísticos, no entanto, pode ser considerada uma ficção; pois, em maior ou menor grau, todo texto traz em si as marcas de seu enunciador.

O enfoque pelo qual o jornalista vê o fato revela o ângulo cognitivo, uma vez que demonstra os procedimentos que acionou para a reconstrução do acontecimento enunciado na notícia. Essas marcas de subjetividade estão presentes na superfície do texto, fornecendo pistas aos leitores para identificar a opinião do autor num texto que, em princípio, a objetividade deveria ser uma de suas características principais.

Por mais objetiva que uma notícia de um jornal pretenda ser, o simples fato de ela estar lá publicada revela marcas de subjetividade, uma vez que, entre diversos acontecimentos que deveriam ser noticiados, escolheu-se um e não outro.

Muita gente acredita que notícias são relatos de fatos que efetivamente ocorreram, o que levaria à conclusão de que se caracterizam pela objetividade. Como ressaltei, isso não é totalmente verdade, porque, ao reproduzir o acontecimento, o jornalista, sujeito constituído no discurso, não faz uma mera reprodução, mas uma interpretação e na interpretação, há sempre certa dose de subjetividade.

As notícias que lemos, mesmo em órgãos de imprensa ditos sérios, têm uma relação indireta com o fato noticiado, na medida em que o relato é mediado pela voz do jornalista, que não apenas noticia, mas também constrói a notícia, transformando um acontecimento empírico (o fato ocorrido) em acontecimento discursivo (a notícia). Acrescente-se que, em diversos casos, o jornalista não relata um acontecimento que presenciou diretamente; não é testemunha ocular do fato. Seu relato é, muitas vezes, reconstrução de um fato por meio de depoimento de outros que presenciaram diretamente o ocorrido. Oswald de Andrade, numa frase bastante irônica, já assinalava que “o jornalista não relata o que houve, mas o que ouve”.

O jornalista, por ser um sujeito ideologicamente constituído, está tomado de crenças, interesses, opiniões, preconceitos que, de alguma maneira, manifestam-se em seu texto.

A objetividade em jornalismo não deve ser vista como uma forma de oposição à subjetividade, mas como um reconhecimento desta. O jornal Folha de S. Paulo reconhece isso em seu Manual de Redação, ao afirma que

“Não existe objetividade em jornalismo. Ao escolher um assunto, redigir um texto e editá-lo, o jornalista toma decisões em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posições pessoais, hábitos e emoções. Isso não o exime, porém, da obrigação de ser o mais objetivo possível. Para relatar um fato com fidelidade, reproduzir a forma, as circunstâncias e as repercussões, o jornalista precisa encarar o fato com distanciamento e frieza, o que não significa apatia nem desinteresse. Consultar outros jornalistas e pesquisar fatos análogos ocorridos no passado são procedimentos que ampliam a objetividade possível.”

Ressalto que objetividade e subjetividade não devem ser encaradas de forma absoluta, pode-se afirmar que há escalonamento nesses conceitos, já que há graus de mais objetividade e de mais subjetividade. Há sempre elementos de subjetividade na objetividade e de objetividade na subjetividade, portanto nunca se é inteiramente subjetivo nem totalmente objetivo, já que esses conceitos não são excludentes, ao contrário, formam um continuum.

Conclusão

Neste artigo, destaquei que, mesmo notícias, que deveriam pautar-se pela objetividade, trazem em si marcas de subjetividade.

O objetivo foi mostrar, a partir de elementos linguísticos presentes na superfície dos textos, particularmente de categorias gramaticais que como operadores argumentativos, que os textos informativos de jornais não são relatos isentos. Tais textos são, a partir de modelos cognitivos acionados pelo jornalista, reconstruções de fatos empíricos. O jornalista categoriza, representa e constrói um fato discursivo por meio da linguagem e, nela, deixa inscrita as marcas de subjetividade.