Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo
Não é
A coisa mais fina do mundo é o sentimento

(Adélia Prado)

A literatura é a transcendência das palavras, uma parte da alma humana impressa e identificada por ex-líbris. A literatura guarda uma preciosidade — a poesia. E mesmo que “viver ultrapasse qualquer entendimento”, a poesia é uma espécie de leitura da vida com toda a intensidade que ambas demandam.

Por mais que a poesia aborde o cotidiano, brade as dores do mundo, mergulhe no sutil, seja panfletária, busque a verdade e a justiça, ecoe a liberdade, ande de braços dados com a filosofia, entregue-se ao erotismo e à sensualidade, grite críticas sociais ou voe no misticismo, a poesia é visceral, parte de um sentimento muito antes das mãos receberem o comando da mente. A voz poética, inquieta e desconcertante, desfila em seus versos o que primeiro impulsionou sua manifestação. A fonte de inspiração da poesia é o sentimento. Todos os sentimentos. Do corpo e da alma.

De memórias da infância e juventude a premissas subversivas, de vivências pessoais a reflexões existencialistas, da carnalidade ao mistério; a poesia sussurra paixões, intimismo, subjetividade, timidez e ousadia. A poesia abraça o mundo no espelho da humanidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen, uma das maiores poetas portuguesas, afirmava que a poesia não pedia a ela nenhuma especialização, trabalho, tempo, estética ou teoria, pois a sua arte é a arte do ser. Sua escrita transparente enaltecia seus valores e a inteireza de Sophia está em seus versos. Não gostava de expor a sua vida íntima, e declarava: “no fundo, a única biografia que eu tenho é a que está na minha poesia”.

A poeta amava o mar, a natureza é uma constante em suas obras. Seus sentimentos estão na areia ou à deriva:

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
pois é pela mesma inquietação e nostalgia
Que há no vasto clamor da maré cheia
Que nunca nenhum bem me satisfez.

A saudade portuguesa aparece em seus versos:

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua

E quando bradou “A poesia está na rua”, foi a explosão da alegria, dos sentidos, da liberdade, um coração a transbordar pela justiça e igualdade, pelo direito de todos respirarem poesia.

A escritora brasileira Hilda Hilst e sua arte plural, impossível de racionalizar, teceu o indefinível com palavras e subjetividade poética. Ela sentiu com o corpo, emaranhou em seus versos as teias da morte, do amor e da vida, seu ménage à trois de predileção. Hilda Hilst viveu a liberdade e, sem amarras sociais, provocava com sua poesia sensual, erótica, pornográfica, debochada. Ela dizia ser “livre para fracassar” e desta forma, intensa e profunda, explorou o sagrado e o profano, a sexualidade feminina e as turbulentas questões psicológicas. À flor da pele, exala sua trindade sagrada como ninguém:

Demora-te sobre a minha hora
Antes de me tomar, demora
Que tu me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena
Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.
Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.
E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.

Clarice Lispector, uma das escritoras brasileiras mais notáveis, tímida e ousada, com seu tom intimista e reflexivo, buscou um sentido mais profundo do cotidiano, ao explorar os sentimentos de suas personagens, a imensidão obscura e nebulosa do íntimo de cada um. É perceptível a sensibilidade social que apresenta em suas letras, mostra dos seus valores e da vivência do seu percurso de vida. Ela salta do psicológico para o metafísico, numa escrita multifacetada guiada pelo lirismo. É marcante a poesia na prosa dos seus textos.

Alguns podem ser considerados poemas, tamanha sua subjetividade e caráter sensorial. Para Lispector, o que importa na leitura é o não-dito, é o que está nas entrelinhas e ressalta: “não se esmaguem com palavras as entrelinhas”. Para ler Clarice tem mais que sentir que entender: “Agora é um instante. Você sente? Eu sinto.” A escritora admite em Água-viva, “Sou um coração batendo no mundo.” E mais: “Vivo de um segredo que se irradia em raios luminosos que me ofuscariam se eu não os cobrisse com manto pesado da falsa tristeza.” O fluxo de pensamentos que acompanhamos em sua escrita é a eterna dança das palavras que marcam a pele e o coração até feri-los, para então, transcendê-los e alcançar uma epifania. Para Lispector, a linguagem precede o silêncio, é o que acontece quando imergimos em Clarice.

A voz forte da escritora e poeta portuguesa, Natália Correia, é bandeira libertária e contestadora. Carismática e exuberante, afirmava que “a poesia liberta a linguagem escondida no silêncio.” A sua palavra afiada não silenciava seus sentimentos e indignações. Ousou ser quem era, humanista, contra a opressão e pela defesa da liberdade da mulher — erótica e passional.

Com todos os sentimentos de uma pessoa brilhante e inconformista, inquieta e apaixonada, indomável e sensual, teve coragem de viver os altos e baixos da vida, pois “viver poeticamente é viver as coisas em potência.” A intensidade com que escrevia a fazia sustentar: “Creio que tudo é eterno num segundo.” E ao declarar-se “Por vezes fêmea. Por vezes monja./Conforme a noite. Conforme o dia.”, permitia-se sentir tudo que o paradoxo humano tem para sentir. E até para se defender em tribunal por publicar Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, Natália Correia usou versos. Consumir poesia, recriar sentimentos, sem contraindicação:

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.

Florbela Espanca, poetisa e uma das primeiras feministas de Portugal, com sua voz intensa expressou profundamente seus sentimentos e vivências pessoais. A busca incessante pela felicidade em meio a conturbados afetos, solidão, sofrimento e angústia fez Florbela viajar pelas letras desencantadas e confessionais. O amor e a saudade, a morte e o desejo transitavam entre erotismo e sensualidade de forma franca e apaixonada em sua poesia. Seus versos exprimem sentimentalismo e passionalidade imbricados na intensidade de ser. A poeta que queria amar perdidamente compreendia a morte com a sua mão a nos guiar, pois “não há mal que não sare ou não conforte.” Para Florbela “Ser poeta é morder como quem beija”, “É seres alma e sangue e vida em mim/E dizê-lo cantando a toda a gente”. Sem moderação, Florbela Espanca partilhou com o mundo seus sentimentos em versos.

As mulheres — poetisas ou poetas — que sentem com corpo e alma a estilhaçar suas palavras pelo mundo arrebatam-nos e encantam-nos. Cada uma a seu jeito. Elas expressam a energia da conexão feminina com a natureza — que todas nós temos —, permitem a comunhão com o invisível e integram o mistério ao corpo físico. Graças às poetisas, lembramo-nos de que somos céu e terra, sonho e matéria a viver na terceira dimensão a abraçar os versos que nos rodeiam e a saborear o feminino em palavras.