Née Béatrice de Monvarmy, casou-se em 1706 com Eugène Dumonpatty, o sétimo Marquês de Krantournac. Amavam-se intensamente, mas tiveram dificuldades para ter um filho, e a marquesa fez uma promessa a Sainte-Sophia (cuja trajetória também mereceria ser contada, mas fica para outra ocasião): se ela engravidasse, deixaria o marquesado no décimo aniversário da criança e por dez anos se dedicaria a peregrinar pela Europa a fim de ajudar os pobres e miseráveis daquele continente.

À primeira vista essa promessa pode parecer estranha. Assim, é necessário um parêntesis dentro do parêntesis: o Reino de Lanes jamais teve pessoas em condições de miséria, dada a impecável administração desde seu início, no século XIV. Logo, apenas estando em outro lugar é que a nobre poderia ajudar os necessitados. Voltemos à história.

Não demorou muito até o casal receber a confirmação de que a marquesa estava grávida. Meses depois nasceu um belo e saudável menino. Como não existe uma versão masculina para o nome Sophia, decidiram batizá-lo com o nome do pai da santa: Jean-Pierre.

O tempo passou, mas Béatrice jamais se esquecera da promessa. Quando Jean-Pierre completou dez anos, tudo estava pronto para ela partir. O marquês desesperou-se, mas não havia o que fazer, pois era uma promessa à santa que os ajudara. Muitas lágrimas foram derramadas naquela tarde nublada de 1719 quando um deux-mâts dos Dumonpatty zarpava do porto da cidade.

Béatrice não ia sozinha: duas de suas damas de companhia se dispuseram a ir. Eugène só não foi por causa de suas responsabilidades como marquês, mas a vontade de acompanhar a esposa era muita. “Eu disse que iria, tu não tens de me acompanhar.”, disse a nobre ao marido antes de partir, “Lembra que eu te amo e que Deus vai me dar forças para voltar daqui a dez anos. Cuida do nosso filho e espera por mim.”.

Foram várias semanas até que a embarcação alcançasse Lisboa, por onde a peregrinação começaria. Nos dez anos seguintes, a marquesa e suas duas damas de companhia andariam por diversas cidades cuidando dos doentes e dando conforto àqueles que não tinham mais cura. Em sua bagagem, poucas roupas, uma Bíblia e um livro de Medicina. Suas damas carregavam, além das próprias vestimentas, alguns utensílios médicos.

Com a força de seu título, a marquesa conseguia fazer com que alguns nobres mais caridosos ajudassem financeiramente, e foi responsável pela fundação de várias “casas de cura” — pequenos hospitais que ajudavam as pessoas mais pobres.

Apesar dos inúmeros convites, afastara-se totalmente da pompa aristocrática. Envelhecia rapidamente, mas seus olhos continuavam brilhantes e expressivos, como sempre.

Ao final do sétimo ano de peregrinação, uma das damas de companhia veio a falecer. A marquesa disse à outra que, se quisesse, poderia partir, mas ela recusou. Teve o mesmo fim da primeira cerca de dois anos depois, a muitos quilômetros de onde a outra morrera.

Faltavam poucos meses para os dez anos se completarem. Bastante debilitada, Béatrice estava em São Petersburgo quando escreveu uma carta ao marido dizendo que talvez não sobrevivesse. Pela primeira vez, ela teve medo da morte.

Não pensem os leitores que essa fôra a única missiva trocada entre o casal. Apesar de poucas vezes, um escreveu ao outro nesses dez anos. O marquês contava do filho, que crescia forte e inteligente, bonito como a mãe; a marquesa evitava contar as desgraças que vira e falava de seu amor imenso pelo marido e pelo filho, de sua Fé em Deus e de sua expectativa para o retorno.

Seguindo os passos da esposa sem que ela soubesse, Eugène mandou que seu deux-mâts acompanhasse a marquesa pela costa, para estar perto dela quando fosse a hora de enfim voltar. Além disso, para encurtar a distância, todas as cartas passavam por um primo do marquês que morava em Lanesville. Ele certamente não lia as correspondências, mas se inteirava de sua origem e mandava o navio para algum porto próximo. Foi dessa forma que, pouco tempo depois de a aflita carta da marquesa ter sido escrita, o deux-mâts dos Dumonpatty chegava a São Petersburgo para buscar a nobre.

O primo do marquês estava na embarcação e recepcionou a nobre. Ele sabia que ainda não se tinham completado os dez anos, mas o casamento de Jean-Pierre fôra marcado para o dia de seu vigésimo aniversário, e o marquês insistira que a esposa estivesse presente. Ela se consultou com membros da Igreja e, depois da confirmação de que a promessa estava mais do que cumprida (“Vossa Alteza já tem seu lugar totalmente assegurado no Céu!”, diziam), aceitou embarcar.

Aquela manhã ensolarada de 1729 seria palco de duas grandes alegrias na vida do marquês: o retorno de sua amada esposa e o casamento de seu único filho. Acompanhado por Jean-Pierre, ele chegara primeiro ao porto; pouco depois, o barco chegou.

Béatrice não era mais a bela jovem que partira para cumprir uma promessa. Voltara envelhecida e adoentada, com aparência de muitos anos a mais que seus quase quarenta. Num frágil resquício de vaidade, maquilou-se um pouco – coisa que nunca mais fizera – para ver o amado marido.

Ao vê-la, sua reação foi fortíssima. Internamente ele não se queixava pelo fato de a mulher estar fisicamente diferente, mas sim por estar tão debilitada. Abraçou-a com todo o amor e todo o carinho que guardara para ela nos dez anos em que não a vira. Ambos choraram, e o povo que ali estava também chorou. Jean-Pierre pediu a bênção à mãe e a abraçou também.

A família do marquês se dirigiu ao château a fim de que Béatrice descansasse um pouco antes de o casamento ser realizado. Foi vestida com toda a pompa que rejeitara quando estivera na Europa e seguiu contentíssima ao lado do marido até a igreja — na época, dedicada a Nosso Senhor.

O Cardeal Brymonnard celebrou o casamento. O marquês e a marquesa não paravam de chorar, de tão emocionados que estavam. Quando o religioso abençoou a união, declarando os dois jovens marido e mulher, a marquesa levantou-se de seu lugar e abraçou-os. Olhou para o imenso crucifixo no altar-mor e disse, num alto suspiro: “Eu vos deixo com a proteção de Deus, meus filhos!”. Desmaiou. Acharam que fôra a emoção, mas não: estava morta. Em seu rosto, o sorriso mais puro que alguém poderia carregar para a Eternidade.

Os presentes entraram em choque. O marquês sofria mais que todos, agarrado ao corpo da esposa. Jean-Pierre tentava acalmá-lo, mas em vão – o próprio jovem também estava desconcertado. Quem lá estava foi para o château dos Dumonpatty, onde Béatrice seria velada.

Jamais Eugène se recuperaria da morte da esposa. Não demorou cinco anos para que o marquês, quase louco, também partisse: enfim se reuniria à sua amada Béatrice. Foi enterrado a seu lado, no Mausolée Dumonpatty – e é onde seus corpos descansam até hoje.

Assim que Jean-Pierre assumiu como Marquês de Krantournac, uma capela foi erguida e nela foi colocado um retrato de sua mãe. Algumas pessoas da cidade sempre iam lá, pois acreditavam que Béatrice ouviria suas preces, uma vez que havia sido uma pessoa tão bondosa em vida.

E ouviria realmente: aconteceu um milagre atribuído a ela. Depois outro e um terceiro. A Igreja resolveu investigar e, comprovada a autenticidade dos fatos, o Papa Clemente XII aprovou a canonização de Béatrice Dumonpatty. O dia escolhido para ela foi 18 de Março, quando morrera.

Não são poucos os devotos de Sainte-Béatrice, que enxergam nela um exemplo de bondade e abnegação. Enquanto Sainte-Sophia, a mais famosa do reino, é a Mãe da Pátria, corajosa e determinada, Sainte-Béatrice é a Mãe do Povo, aquela que se preocupa com todos e os ajuda como possível.