O Carnaval de 2025 nos convidou a olhar para o passado com olhos bem abertos, sem medo de enxergar as cicatrizes que a história oficial tentou apagar. O enredo da Paraíso do Tuiuti, "Quem tem medo de Xica Manicongo?", foi um chamado para revisitar o Brasil colônia e encarar uma figura que desafia os limites impostos pela sociedade até hoje: Xica Manicongo, a primeira travesti1 negra registrada no Brasil. Mas quem foi Xica? E por que seu nome ainda causa inquietação?
Xica Manicongo viveu no século XVI, quando a cidade de Salvador ainda dava seus primeiros passos como colônia portuguesa. Escravizada, trazida do Congo, foi denunciada por se recusar a vestir "roupas de homem" e por viver de acordo com sua identidade de gênero, sendo perseguida pela Inquisição. Sua existência desafia a ideia de que a diversidade de gênero seria uma invenção contemporânea. Xica viveu e resistiu em um tempo em que qualquer desvio da norma era brutalmente punido (Oliveira, 2024).
A pergunta que ecoa no título do enredo da Tuiuti é uma provocação necessária. O título "Quem tem medo de Xica Manicongo?" provoca uma reflexão sobre os preconceitos atuais contra pessoas trans e negras no Brasil. Ao questionar quem teme Xica, o enredo desafia a sociedade a confrontar suas próprias intolerâncias e a reconhecer a contínua marginalização dessas comunidades. A resposta está nos medos contemporâneos, enraizados em estruturas que tentam controlar corpos dissidentes2. O medo de Xica ainda se manifesta na violência contra corpos trans, na tentativa de silenciamento de histórias como a dela, na marginalização de indivíduos que, como Xica, ousam existir à sua maneira (Rodrigues; Nascimento, 2024).
As referências históricas a Xica Manicongo são escassas, como tantas outras vidas negras e trans que foram apagadas pela historiografia oficial. No entanto, sua presença ressurge nos ativismos LGBTQIAPN+, nos estudos transfeministas e nos movimentos negros que reivindicam sua memória como um símbolo de luta e resistência.
As vozes das autoras transfeministas negras
Viviane Vergueiro Simakawa (2015), pesquisadora ativista transfeminista, analisa como a cisgeneridade3 opera como normatividade4 dentro das estruturas de poder, exercendo colonialidade5 sobre corpos historicamente oprimidos. A autora discute a necessidade de inflexões decoloniais6 para romper com os dispositivos institucionais e epistemológicos7 que invisibilizam e marginalizam pessoas trans. Seu trabalho parte da autoetnografia, ou seja, de sua própria experiência como travesti e acadêmica, o que lhe permite demonstrar como as opressões se estruturam dentro da academia, dos espaços políticos e da sociedade de modo geral. Seu estudo evidencia que a cisnormatividade8 não apenas exclui, mas também impõe narrativas que desumanizam sujeitos trans e travestis, reafirmando um sistema de poder que perpetua violências e apagamentos históricos.
Letícia Nascimento (2021), mulher trans negra e transfeminista, insere-se na tradição dos estudos interseccionais9 para discutir como raça, gênero e classe moldam as desigualdades estruturais no Brasil. Em seu livro Transfeminismo, a autora propõe que a luta feminista deve ser ampliada para incluir corpos que desafiam a norma, problematizando o feminismo branco e ciscentrado que historicamente marginalizou mulheres trans. Sua perspectiva é fundamental para entender como Xica Manicongo desafia não apenas a ordem colonial do século XVI, mas também as barreiras contemporâneas que limitam o reconhecimento e a inclusão de travestis e mulheres trans nas lutas feministas e antirracistas. Para Nascimento, reconhecer Xica Manicongo como um símbolo de resistência é um passo essencial para descolonizar as narrativas de gênero e raça no Brasil.
Megg Rayara Gomes de Oliveira (2018), travesti negra, acadêmica e militante, traz uma crítica contundente ao apagamento das travestis e mulheres trans negras dentro dos próprios movimentos sociais negros. Em seu artigo Por que você não me abraça?, a autora denuncia como o movimento negro brasileiro foi historicamente estruturado a partir da cis-heteronormatividade, excluindo outras expressões de identidade de gênero dentro da luta racial. Oliveira aponta que as travestis negras foram e ainda são marginalizadas, vistas como uma "desconformidade" dentro das lutas progressistas, o que reforça a dupla opressão de transfobia e racismo. Seu trabalho reivindica um espaço legítimo para as travestis negras dentro dos movimentos sociais e propõe uma nova abordagem política que valorize suas vivências e contribuições.
Achille Mbembe (2021), renomado historiador e teórico político camaronês, em Necropolítica, aprofunda a reflexão sobre como a soberania moderna se define pelo poder de decidir quem deve viver e quem deve morrer. O conceito de necropolítica permite compreender como a violência contra corpos que rompem padrões impostos – como o de Xica Manicongo – não se trata apenas de um fenômeno do passado, mas continua presente na estrutura do Estado e das políticas de extermínio contra populações racializadas e trans. A teoria da necropolítica de Achille Mbembe é evidente no Brasil através de práticas como a violência policial desproporcional em comunidades negras e periféricas e a gestão inadequada da pandemia de COVID-19, que afetou gravemente essas populações. Essas políticas refletem a desvalorização de certas vidas, alinhando-se ao conceito de necropolítica.
Mbembe argumenta que, na modernidade, certos corpos são constantemente expostos à morte por meio da marginalização, criminalização e precarização extrema, o que se aplica diretamente às travestis e mulheres trans negras no Brasil. O Estado não precisa matar diretamente, mas cria as condições para que esses corpos sejam descartáveis. Essa lógica está presente desde a época colonial, quando Xica Manicongo foi criminalizada, até hoje, quando a expectativa de vida de pessoas trans no Brasil é de apenas 35 anos (Benevides, 2025).
A teoria de Mbembe reforça que Xica Manicongo não é apenas uma figura histórica, mas um símbolo vivo da necropolítica brasileira. O desfile da Paraíso do Tuiuti se tornou, assim, um ato de resistência contra essa política da morte, reescrevendo a história e reivindicando um futuro onde corpos que são alvos de exclusão sistêmica possam existir sem medo.
O desfile da Paraíso do Tuiuti foi amplamente aclamado por sua coragem e relevância social. A homenagem a Xica Manicongo e a inclusão de ativistas trans no desfile geraram debates significativos sobre diversidade e inclusão, evidenciando o poder transformador do Carnaval como plataforma de conscientização social. Ao ver Xica Manicongo atravessar a Sapucaí, não estávamos apenas resgatando sua história – estávamos enfrentando os medos que ainda sustentam a transfobia e o racismo estrutural no Brasil. Porque o verdadeiro medo não deveria ser o da liberdade de existir, mas sim o de continuarmos a negar humanidade àqueles que, como Xica, ousaram ser quem são.
Notas
1 É importante entender a diferença entre travesti e mulher trans. Travestis são pessoas que transitam entre os gêneros masculino e feminino, muitas vezes buscando o feminino em sua forma de se expressar, mas sem necessariamente desejar cirurgia de redesignação sexual. Travestis lutam para que suas vivências e identidades de gênero sejam respeitadas dentro do universo feminino. A forma correta é "a travesti". O termo "travesti" é gramaticalmente feminino em português. Keila Simpson, presidenta e cofundadora da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), explica que a travestilidade é uma identidade de gênero legítima, ou seja, é uma forma válida de ser, e que não se resume a “querer virar mulher”, mas sim a viver e expressar o gênero de acordo com a própria identidade. Já as mulheres trans são pessoas que se identificam como mulheres e buscam mudar o corpo para que ele se pareça mais com o de uma mulher, o que pode incluir cirurgia e outros tratamentos (Brasil, 2015). Tanto travestis quanto mulheres trans têm identidades válidas e merecem respeito e reconhecimento.
2 Corpos dissidentes são corpos que se distinguem da norma social, seja por sua existência natural, estética ou política.
3 Cisgeneridade é a condição de uma pessoa que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído ao nascer.
4 Normatividade é a qualidade de algo que está de acordo com uma norma, regra ou modelo.
5 Colonialidade é o conceito que se refere à relação de poder que persiste entre os povos, mesmo após o fim do colonialismo. É uma forma de dominação e de desumanização que se baseia na ideia de raça, na hierarquia de povos, existências e saberes.
6 Conjunto de práticas, conceitos, pesquisas e estudos que tentam diminuir, e até reverter, os efeitos da colonização nas sociedades em que este processo histórico ocorreu.
7 A epistemologia é um ramo da filosofia que se dedica a estudar o conhecimento e as formas como ele é adquirido.
8 A cisnormatividade está ligada à heteronormatividade, que é a suposição de que a heterossexualidade é a norma. A combinação das duas é denominada heterocisnormatividade ou cisheteronormatividade.
9 Estudos interseccionais são análises que consideram a interação entre diferentes fatores sociais que definem uma pessoa.
Referências bibliográficas
Benevides, Bruna G. Dossiê: Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2024. Brasília, DF: ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), 2025. 144 f. ISBN: 978-65-986036-1-8.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa. Transexualidade e travestilidade na saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 201.
Gomes, Oliveira, Megg Rayara. Por que não me abraça? Revista Internacional dos Direitos Humanos – SUR, v. 28, n. 15, p. 167-179, 2018.
Mbembe, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2021.
Nascimento, Letícia Carolina do. Transfeminismo. São Paulo: Jandaíra, 2021.
Oliveira, João Felipe Amorim. Do Olimpo a Arapiraca: A evolução histórica do movimento LGBTQIAPN+. Revista Pesquisa & Educação a Distância, v. 2, n° 32, jul./dez. 2024.
Oliveira, Isabela Ruth Martins. A construção histórica do conceito de mulher brasileira e a violência de gênero. Revista O Manguezal – Revista de Filosofia, v. 2, n. 19, jul./dez. 2024.
Rodrigues, Jessyka da Silva; Nascimento, Elaine Ferreira do. Transfeminismo em Rede: Os nossos movimentos vêm da ancestralidade. Rebeh - Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, vol. 07, e15964, 2024.
Vergueiro, Viviane Simakawa. Por inflexões decoloniais de corpos e identidades de gênero inconformes: uma análise autoetnográfica da cisgeneridade como normatividade. 2015. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2015.















