A filosofia, para Gilles Deleuze e Félix Guattari, é criadora de conceitos. Criar conceitos é tarefa daqueles que se propõem a filosofar. Os filósofos em referência traçam, na imanência conceitual, um novo entendimento acerca da ideia de que todo ser humano é único e, como tal, deve ser respeitado por sua diferença e por sua singularidade de pensamento. A presença da diversidade nas sociedades contemporâneas é fator preponderante que mostra a importância do respeito à diferença.

A liberdade de pensar e a liberdade de expressão são palavras-chaves em uma sociedade democrática, pluralista, laica, em que um cidadão deve ter suas ideias respeitadas, desde que suas palavras não atentem contra o respeito à dignidade humana de outrem nem contra valores constitucionais do país em que se insere. Respeitar a dignidade da pessoa humana é fundamental.

Pensar na ética da diferença é um passo muito importante para consolidarmos as lutas das minorias em busca constante por uma sociedade mais justa, solidária e diversa. A diversidade de pensamentos, posições políticas, posicionamentos ideológicos resultam da própria história de cada ser humano, que também é único e inédito. Assim, é preciso rechaçar qualquer ditadura que ainda no século XXI queira propor totalitarismos e impor que as pessoas pensem de maneira uniforme, de acordo com o que determinam. A diversidade de pensamento é a maior riqueza de uma sociedade. Do mesmo modo, a alternância de grupos no poder é altamente louvável porque é por meio dessa alternância que podemos sentir a diversidade de entendimentos ideológicos que permeiam a sociedade humana.

As pessoas só não podem ser livres para expressar seu pensamento quando suas ideias ferem a dignidade de outra pessoa. Grupos minoritários têm cada vez mais assumido posições diferentes na sociedade e grupos que foram excluídos de forma sistemática assumem posições importantes na sociedade nas mais diversas perspectivas. A liberdade de consciência é um direito fundamental, assim considerado por tradições jurídicas e religiosas que entendem que as pessoas precisam ser livres para expressar seu pensamento, conforme sua reta consciência, sem constrangimento.

A filosofia muito auxilia no pensamento plural, na medida em que sua atividade seja questionadora em relação à realidade e, ao invés de propor respostas prontas e acabadas, sugere sempre perquirições que se aprofundam e revelam que há diversas formas de entender uma mesma situação. O dogmatismo absoluto, rígido, pressupõe domínio de verdades que não devemos aceitar como definitivas. Nietzsche, no ensaio inacabado Sobre verdade e Mentira em Sentido Extramoral, propõe uma reflexão sobre o conhecimento humano e a noção de verdade. Para o filósofo, a verdade é uma metáfora cristalizada que perdeu tal dinâmica e passou a ser considerada uma verdade absoluta. O próprio ser humano imaginou-se superior aos demais seres por sua intelectualidade, qualidade que os demais seres não possuem. A invenção do conhecimento intelectual encheu o ser humano de arrogância.

A verdade como afirma Nietzsche destaca uma nova perspectiva que nos auxilia a pensar a ética respeitando a diversidade, tendo em vista que a verdade não é absoluta, o que implica um entendimento da ética como forma de pensar para além do dogmatismo. Também o ceticismo absoluto é um exagero epistemológico porque nega toda possibilidade de verdade. O que entendemos oportuno é pensar em uma verdade em que cada ser, único, percebe o mundo de acordo com a própria história. Construir uma história de vida possibilita diversidade de conceitos, importantes para o entendimento de determinada forma de existência, mas que não é o fim último e inquestionável de uma dada verdade.

Outra obra de Nietzsche que nos ajuda a compreender bem a questão da verdade é Para além de Bem e de Mal. Partindo dessa obra de Nietzsche, podemos entender a relevância de um olhar para a verdade que existe além da noção moral de bem e de mal. Nietzsche questiona por que à verdade foi sempre atribuída uma visão de bem e à mentira, a de mal. O que resta saber é que verdade e mentira são perspectivas de conceito que dependem, em última instância, das relações de força que constituem verdades.

Foucault, por sua vez, na sua Arqueologia dos Saberes, muito bem pontua que, ao invés de considerar quem tem o saber tem um poder, na verdade, quem tem poder determina saberes e verdades. Nesse sentido, no caso dos países colonizados, um grande número de verdades foi imposto contra grupos minoritários, cujas formas de expressão cultural, como a religião foram, inclusive, demonizados, inferiorizados.

Sendo assim, como bem diz Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido que oxalá o sonho do oprimido não seja o sonho do opressor. Em caminho oposto, que possamos lutar por uma sociedade internacional que valorize a democracia, o respeito pela diferença, a importância da soberania dos países e que, entre os países, perpetuem-se ações diplomáticas de respeito e busca de colaboração recíproca em prol de sociedades éticas, diferentes, diversas e pluralistas, sem jamais deixar de respeitar valores que primem pelo respeito à dignidade da pessoa humana.