Os Caretos representam uma das mais espetaculares e profundas tradições etnográficas de Portugal, concentrada maioritariamente na região de Trás-os-Montes e Alto Douro. Longe de serem meros disfarces, estas figuras mascaradas são a manifestação viva de ritos ancestrais de fertilidade e iniciação, que têm resistido ao tempo graças ao isolamento geográfico e à forte coesão das comunidades rurais do nordeste português.
A origem dos Caretos e de outros mascarados está profundamente ligada aos cultos agrários pré-cristãos, particularmente aqueles que celebravam o Ciclo de Inverno (que decorre desde o solstício de inverno até ao Entrudo/Carnaval). Numa sociedade rural, a sobrevivência dependia da saúde do gado e da fertilidade da terra, e estes rituais pretendiam exatamente garantir a abundância e afastar os maus presságios do inverno.
As tradições milenares, que remontam a práticas celtiberas e às saturnais romanas, foram sincretizadas pela Igreja ao serem colocadas no período que antecede a Quaresma (o Entrudo, ou "adeus à carne"). Desta forma, o período de caos ritualístico e inversão social é tolerado, desde que termine antes da ordem e penitência da Quaresma.
Os Caretos assumem três funções principais:
Garantir a fertilidade: o ruído dos chocalhos (o elemento comum a quase todos) é um ato simbólico para "acordar" a natureza e a terra e estimular a fertilidade, tanto da terra como das mulheres (o ato de chocalhar as raparigas).
Rito de iniciação: nas antigas Festas dos Rapazes, a máscara era vestida pelos jovens que transitavam para a idade adulta, marcando a sua aceitação e responsabilidade na comunidade.
Inversão social: o mascarado goza de liberdade para o excesso, a brincadeira grosseira e a quebra temporária das regras, antes de a ordem social ser restabelecida.
A notável persistência destas práticas deve-se, em grande parte, à interioridade e ao isolamento geográfico de Trás-os-Montes. As serras funcionaram como uma barreira natural contra a aculturação urbana, permitindo que as estruturas sociais comunitárias e a forte dependência da agricultura de subsistência mantivessem os rituais vivos e funcionais para a vida da aldeia.
Embora a palavra "Caretos" seja frequentemente usada para designar o conjunto destas figuras, cada aldeia tem o seu nome, máscara e ritual distintivo, sublinhando a riqueza da tradição local:
Caretos de Podence (Macedo de Cavaleiros, Bragança): são os mais célebres, com o seu Entrudo Chocalheiro classificado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2019. O seu traje é caracterizado por longas franjas de lã vermelha, amarela e verde e uma máscara de latão ou couro com um nariz pontiagudo e saliente, complementada por uma profusão de chocalhos.
Caretos de Lazarim (Lamego, Viseu - Alto Douro): distinguem-se pelas suas impressionantes máscaras de madeira de amieiro, meticulosamente esculpidas, muitas vezes com cornos (zoomórficas ou demoníacas), e o uso de fatos de palha ou farrapos. A festa culmina na tradicional Queima do Entrudo (um boneco), que simboliza a purificação e o fim do ciclo.
Chocalheiros e Farândulos: em algumas aldeias do concelho de Mogadouro, como Bemposta e Tó, a figura principal do Entrudo é denominada Farândulo ou Chocalheiro. Em Bemposta (Mogadouro) e Vila Boa de Ousilhão (Vinhais), a figura do mascarado (Chocalheiro) está mais associada às Festas dos Rapazes (Ciclo de Natal/Reis), partilhando a função de "zelar" pela comunidade e participar nos peditórios.
Ousilhão (Vinhais) e Salsas (Bragança): também mantêm ritos fortes e anuais de mascarados ligados à Festa de Santo Estêvão e ao Carnaval, com trajes e rituais próprios.
O valor acrescido ao território, o caso de Podence
Atualmente, os Caretos não são apenas um fenómeno etnográfico; são um motor de desenvolvimento para a região. O seu reconhecimento cultural transformou-os num ativo estratégico fundamental para combater a desertificação e potenciar a economia do interior.
O principal exemplo deste impacto é o Entrudo Chocalheiro de Podence. A classificação UNESCO elevou a sua notoriedade a nível mundial, garantindo que o evento atraia anualmente um volume impressionante de visitantes, injetando capital em todo o concelho de Macedo de Cavaleiros e na região de Trás-os-Montes.
Afluência e visitantes (números)
Nas edições mais recentes, como o Carnaval de 2024, a organização (Associação Grupo de Caretos de Podence e a Câmara Municipal) estima que a aldeia de Podence tenha recebido cerca de 50.000 pessoas ao longo dos quatro dias do Entrudo Chocalheiro.
(A Voz de Trás-os-Montes, 2024)
Impacto no alojamento e negócio local
Este influxo de dezenas de milhares de turistas gera um aumento significativo nas taxas de ocupação. Embora os dados específicos de ocupação hoteleira para a aldeia e o concelho no período exato sejam dinâmicos, é amplamente noticiado que a procura dispara:
O evento é sinónimo de negócio, com o Presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros a assegurar que "Há aqui pessoas que com o que faturam nestes quatro dias de Carnaval, se calhar durante o ano governam-se" (Fonte: Visão / Lusa, 2022).
O negócio corre bem essencialmente nas tasquinhas, adegas e no artesanato, com tudo o que está relacionado com os Caretos a ser alvo de muita procura (Fonte: Visão / Lusa, 2022). O turismo gerado pelo evento garante a lotação das unidades de alojamento de turismo rural e local na envolvente de Podence e Macedo de Cavaleiros.
Os Caretos são, portanto, muito mais do que folclore; eles são o Património Vivo que assegura a resiliência da cultura popular portuguesa e, simultaneamente, um poderoso motor económico que reescreve a narrativa de Trás-os-Montes, transformando a tradição milenar numa oportunidade de futuro.
Esta notoriedade e sucesso económico levantam a questão crucial: se Podence, com a sua tradição de Caretos, alcançou este patamar de visibilidade e retorno financeiro, qual será a potencialidade dos outros lugares que mantêm tradições semelhantes, mas que ainda não estão devidamente valorizados e capitalizados?
Aldeias como Lazarim (com as suas máscaras de madeira únicas e a Queima do Entrudo), Bemposta e Tó (com os Chocalheiros e Farândulos) e as restantes localidades da Rota dos Mascarados possuem o mesmo substrato histórico e a mesma autenticidade cultural. Estas comunidades guardam variações rituais e artesanais distintas que, juntas e em rede, podem criar uma "Rota do Património de Inverno" coesa, sem desvirtualizar a tradição de cada um.
Ao replicar o modelo de Podence – investindo na salvaguarda, na promoção e na criação de valor a partir do artesanato e da gastronomia local – Trás-os-Montes tem a oportunidade única de transformar um conjunto de ritos ancestrais num poderoso fator de coesão regional, combate à desertificação e desenvolvimento económico sustentável. Os Caretos, em todas as suas formas, são uma das chaves para o futuro do "Reino Maravilhoso".















