Inspirado na ideologia da música “Brasil com P” de GOG, este poema denuncia a exclusão de corpos trans e convida à reflexão sobre o papel da linguagem na construção ou destruição de vidas.
Toda travesti, travestida,
Tenta trampo, tropeça em tranca.
Toma tapa, tem testa partida,
Treme, tranca, trata a esperança.
Tem tesão, tem tudo, tem vida vencida.Todo trans tenta território,
Tenta trato, tenta trajetória.
Toma tombo, tropeça em torpor,
Tem trinta de tempo, tem pouca vitória.
Tem tudo truncado, tem tanta dor.Tortura toma, tortura trinca,
Tem tornozeleira, tem tranca e trincheira.
Tem testemunho, tem tinta que vinca,
Tem tiro, tem trauma, tem toca rasteira.
Tem tudo que o tempo não limpa.Tem todos, tem todas, tem todes, travessia,
Tem tese, tem tom, tem tanta verdade.
Tem toque, tem trégua, tem teimosia,
Tem tudo que o tempo não tarde.
Tem tarefa: transformar a tirania.
Expo T é mais do que um poema — é uma denúncia ritmada, uma travessia linguística que transforma dor em verbo. Inspirado na estrutura da música “Brasil com P” de GOG, o poema constrói sua crítica social com palavras iniciadas pela letra T, revelando camadas de exclusão, resistência e potência vividas por pessoas trans no Brasil. Cada estrofe é uma lente: ora sobre o corpo, ora sobre o tempo, ora sobre a tortura, ora sobre a tarefa coletiva de transformação.
A primeira estrofe fala das travestis e travestidas, que tentam trabalho, mas tropeçam em trancas. A violência é física — “toma tapa, tem testa partida” — mas também simbólica, institucional. Ainda assim, há tesão, há tudo, há vida. Uma vida que, infelizmente, é muitas vezes vencida antes dos 35 anos. Essa é a expectativa de vida média de uma pessoa trans no Brasil. Um número que não deveria existir. Um número que denuncia o fracasso coletivo em garantir dignidade e permanência.
A segunda estrofe amplia o olhar para pessoas trans em geral. Elas tentam território, trato, trajetória. Mas o tempo é curto, e a vitória é rara. A cada tentativa, um tombo. A cada passo, um torpor. E mesmo assim, seguem. Seguem com tudo truncado, com tanta dor. É impossível ler essa estrofe sem lembrar que apenas 0,38% da população trans brasileira trabalha com carteira assinada. Os outros 98% estão na informalidade, no subemprego, na sobrevivência. São corpos que não representam marcas, que não ocupam vitrines, que não são considerados “adequados” para o mercado formal.
A terceira estrofe mergulha na tortura. Tortura física, psicológica, institucional. Pessoas trans enfrentam prisões injustas, violência policial, abandono familiar. São empurradas para trincheiras, para tocas rasteiras, para os cantos onde o tempo não limpa. Recentemente, uma mulher musculosa foi impedida de usar o banheiro de uma academia. O homem que a abordou acreditava que ela fosse trans e, por isso, não queria que ela entrasse no banheiro masculino — temendo que ela desejasse seu corpo. Ao mesmo tempo, recusava sua presença no banheiro feminino, alegando que sua esposa estava lá. A solução proposta? Que ela usasse o banheiro de pessoas com deficiência. A mulher, no entanto, era cisgênero. Mas o que importa aqui não é a identidade dela — é o absurdo da situação.
Esse episódio revela o quanto o preconceito é construído sobre suposições, medos e ignorância. E mais: mostra como o direito ao uso do banheiro — uma necessidade básica — é negado a quem não se encaixa na expectativa cisnormativa. Pessoas trans são humilhadas, agredidas e expulsas de espaços públicos por simplesmente quererem existir. E quando o direito de ir ao banheiro é negado, o que mais está sendo negado? O direito ao corpo, à dignidade, à permanência.
A quarta estrofe é síntese e chamado. Une todos, todas e todes em uma travessia coletiva. Fala da tese, da verdade, da teimosia que resiste à tirania. Fala da tarefa de transformar. E essa tarefa começa na linguagem. Começa quando deixamos de perguntar se o pronome neutro “existe” e começamos a perguntar se estamos dispostos a existir para quem mais precisa ser reconhecido. A linguagem não é apenas estética — é ética. É política. É vida.
A interseccionalidade nos ensina que vulnerabilidades se sobrepõem. Ser mulher já é estar em risco. Ser mulher preta, mais ainda. Ser mulher preta, lésbica, mãe solo, é carregar múltiplas camadas de exclusão. E mesmo assim, há realidades que permanecem invisíveis. A minha expectativa de vida, por exemplo, ainda é maior do que a de uma mulher trans. Ainda consigo discutir aposentadoria, carreira, maternidade. Mas e quem não chega aos 35 anos? Quem não tem tempo para planejar o futuro?
A música de GOG, o poeta do rap, já denunciava que a polícia prende preferencialmente o preto, o pobre, a prostituta. Hoje, podemos acrescentar: a pessoa trans. A estrutura que persegue corpos marginalizados é a mesma que promete igualdade nos palanques e entrega pólvora nas periferias. A linguagem de GOG é denúncia, é ritmo, é resistência. E Expo T segue essa trilha, usando a poesia como ferramenta de enfrentamento.
A pergunta que fica é: onde estão os artistas, os comunicadores, os influenciadores que poderiam usar suas vozes para transformar essa realidade? A música que dizia “onde estão as pessoas que queriam mudar o mundo?” continua ecoando. E a resposta parece cada vez mais distante. Mas eu ainda acredito que uma andorinha faz verão. E que cada pessoa que escolhe se posicionar, que escolhe acolher, que escolhe transformar, é uma semente de mudança.
Expo T é mais do que poesia. É testemunho. É tese. É tarefa. É a tinta que denuncia e transforma. E se você chegou até aqui, talvez seja hora de se perguntar: que papel sua linguagem tem desempenhado? Ela acolhe ou afasta? Ela salva ou silencia? Porque no fim, comunicar é escolher. E escolher comunicar com respeito, inclusão e afeto é, sim, salvar vidas.















