A língua articula o som e caminha pela ancestralidade entre etnias várias do mundo sem fronteira. Linguística, linguagem, dialeto, idioma, falantes, língua materna, estrangeira, culta, oficial ou nativa... metáfora, metalinguagem, meta tudo que lambe a língua, que vira “latim em pó”, que vinga; que muda, mas não cala; que normatiza e que descreve, que internaliza. E que vive. E que muda enquanto respira, o tempo todo, tudo muda. Nada é estático.
A língua dança, se diverte, brinca, ri e muda mais uma vez. Identifica, consola, idealiza, sonha, a língua deixa escapar, ela poetiza, diz o indizível. É incabível. Da Babel ao Esperanto, o infinito e além, a invenção do Marcelo Marmelo Martelo. O impossível reluz. A linguagem que une os humanos tem melodia, rima e métrica, não são as letras que definem, a língua só faz da canção o amor. O que é próprio do povo, que antes de tudo é humano, é criação, criatura, criador e criatividade. A língua é viva.
O glosador não é um fingidor, o fingidor é o poeta, tem muita dor para fingir em meio as palavras, tem muito pranto para estancar se a língua permitir. É melhor sentir estrelas e seus sinais. É melhor não entender, viver já ultrapassa tudo isso mesmo. O anjo torto de Carlos tem a sua língua, e fala com ele para ser gauche na vida, ele prefere a língua que lavra e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos.
Em cada língua uma oração ou maldição. Ela passeia em todas as crenças, ela também é veículo da fé. Ela inventa filosofia. Pode ser arcaica, intemporal, vintage, denuncia a sua geração. Língua é espelho. Negar uma linguagem é negar a vida que habita nela. Não se atira num espelho, ele quebra e dá azar, a língua também nomeia suas crendices.
A língua articula o som e o som mais sublime está em versos. Ou nas palavras novas, inventadas por Rosa...
A língua tem dessas, lambe a semântica, sente o doce e o amargo, lambuza a gramática de sotaques, passeia pelo corpo, saboreia a prosódia, beija na boca dos falantes. Molha as palavras (e não só) e acompanha a voz ao sussurrar no ouvido.
A última flor do Lácio, tão inculta e bela, como disse o poeta, brota para colonizar nosso tupi-guarani misturado às nativas africanas. E de língua vem linguística e tem léxico; e o nosso gigante fala articulando todos os fonemas de um jeito gostoso, enlouquecendo a fonética e a fonologia. É um malandro que ri com o dicionário na mão.
Na língua há percepção dos estímulos gustativos, o salgado e o ácido, na função fática da linguagem, comunicam animosidade e sarcasmo; já o picante... faz a língua provocante e sensual. A língua está em “ser poeta, morder como quem beija”, afinal, a poesia é a melhor língua materna.
Para não se engasgar num trava-língua, é só falar devagarinho, sentindo cada movimento do som. E viva o ritmo da sabedoria popular com talento e habilidade do povo.
A língua é um código e uma faísca, tem caráter social na linguagem e faz um rastilho que se transforma em labaredas quando acende o desejo. Língua no céu da boca, de boca em boca. Tudo que é vivo não está no cânone estanque, acabado, classificado. A manifestação espontânea da vida cresce na língua, pela língua, com a língua. Ela devora os conceitos, idealizações e sistemas abstratos. A vida está nas variações, nas salivas misturadas, no entendimento.
“O que quer, o que pode esta língua?” — cantou alto a imortal — ela pode nos identificar e ser complexa. Pode beijar e pode cuspir o que não nos afirma enquanto cultura. “Minha pátria é minha língua” — continuando a canção do Caetano que cita o Pessoa mais de uma vez —, toda língua é um grito e um sussurro.
Vivas e expressivas são as línguas feitas pelo povo segundo Anatole France. A brasilidade da nossa está nesta premissa, uma vez que não é monolíngue o Brasil. Com forte influência indígena, nossa identidade é de miscigenação — “compartilham a mesma herança/ Línguarani” — cantou Arnaldo Antunes lindamente a nos mostrar que a língua “brinca de vida”. E como parte da vida, é inacabada, e como é linguagem per se, é “uma pele e, com ela contatamos com os outros”.
Contato de pele e de língua é contato de alma, de delícias e gostosuras que se transformam ativamente em manifestação, cultural ou erótica, como preferir. Puxar pela língua, aquela bem afiada, que dá nos dentes e em mais quais lugares quiser, fazê-la arder em labaredas de fogo e hipnotizar o idioma: “manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória”. A criatividade está na ponta da língua.
O músculo rosado habitante da cavidade oral, úmido e delicioso, percorre a morfologia do corpo, criando neologismos, numa sagarana artística que a língua é capaz de ousar em íntimas minúcias.
A língua tem dessas, é pra usar e abusar.















