Desde que voltei ao Rio de Janeiro com o propósito de ser escritor de novelas para a tevê, anos 1980, tinha certeza que meu lugar ao sol estava fincado próximo das areias finas e brancas, tipo açúcar refinado.

Algumas ideias, story lines manuscritas ou datilografadas em laudas de 32 linhas por 72 toques, avivam peças, roteiros, novelas, argumentos engavetados, que devem ser publicados ou negociados.

Um deles, "INRi, a redenção", trata da capitalização e formação de jovens bancados pelo crime organizado, lembrando que tínhamos a máfia no exterior, e no Brasil “apenas” bicheiros e traficantes; PCC, CV, Ada, TCP chegaram muito tempo depois.

O personagem Iesus é o mocinho levando conscientização às favelas e prisões, que se depara com o demo, chamado Deocleciano, travestido de pastor evangélico, provendo drogas e formação de quadrilhas nas prisões, elegendo aquele mais inteligente para ter graduação universitária.

Deo, fazia a ponte aérea Rio-São Paulo.

No encontro com Iesus, em Bangu 8, gabou-se que o crime estaria organizado, e já havia graduado advogados, e um deles seria estrela internacional, atuante na cidade de São Paulo.

A ficção trouxe à realidade o ministro do STF, Alexandre de Moraes, mais oito dos 11 magistrados diante de o Brasil de hoje.

Deixei INRi de mão naquela época, porque a entrada no círculo de apresentações do material, dos meus originais, se tornou um horror de aproximações, que beiram ao abuso, entendimento errôneo de que alguém para ter acesso, precisa refestelar-se com alguém.

Até para chegar perto de um ou outro ‘profissional de tv e de teatro’ já renomado, as propostas eram de indecentes a indecorosas, nada que hétero suporte, e a ignorância da discriminação ao pobre, independe da cor, ao "aventureiro", não abastecesse o egocentrismo aleive de quem poderia abrir uma porta.

Passei a trabalhar em outra peça, muito de minhas lembranças vividas em Brasília calma e silenciosa em contrapartida a ouvir de madrugada o canto dos galos nos Morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira, acima da Rua Gustavo Sampaio, no Leme, onde morei mais de seis anos, e das buzinas de carros 24h, mesmo que naquela região da Zona Sul do Rio, seja perto de tranquila.

"Enquanto engomo a calça", música linda interpretada por Ednardo (José Ednardo Soares Costa Sousa), que compôs com Climério de Sousa Ferreira, traz a pressa na grande metrópole:

Arrepare não,
mas enquanto engoma a calça eu vou lhe contar
Uma história bem curtinha, fácil de cantar...

Mexia muito comigo nas madrugadas quando voltava da Tribuna de Imprensa da rua do Lavradio, Centro, para a Princesa Isabel, Leme.

Antes de chegar no barzinho ao lado da antiga Taberna do Leme, onde sorvia feijoada todos os sábados, gostava muito das entradas com mexilhões em conserva, essa música volvia meu corpo do coração saltitante, flechado por um grande amor que tive em Brasília, uma aeromoça da Transbrasil.

...Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou Não foi passarinho, foi olhar do meu amor Me arrepiou todinho e me eletrizou assim...

Na parada nesse barzinho, eu consumia seis a oito chopinhos, e um ou dois sanduíches de filezinho com vinagrete; se tinha fome arretada, parava antes no Cervantes, Prado Jr., esquina com Barata Ribeiro para saborear o melhor sanduíche do Rio, lombo de porco com abacaxi.

E a música trinava meus ouvidos, nervos, de forma empolgante, apaixonado...

A peça rodou nas mãos de muitas pessoas, desde promotores de artistas, atores, atrizes, diretores de teatro, e duas empresárias. Uma delas, foi quem me alertou que faltava melhorar as escaletas e as "deixas", mesmo que os atores envolvidos fossem experientes e cravassem 'cacos'.

Nessa época, não havia a chance de ter uma biblioteca na palma da mão.

Celular era visto em filmes de ficção modernizados dos modelos de rádios de combate ou "walkie-talkies". Fui ao Largo da Carioca comprar livros.

Encontrei muitos na sala ao lado do Teatro Glauce Rocha1, e de posse desse material voltei para meu apartamento pronto para resolver o tal problema.

Ajustados os pontos, as deixas, idealizados atores e atrizes, acorri em busca de produtor. Conhecia, tinha amizade, mas algumas situações aparentes e distantes para mim, fugiam de pelo menos pedir dicas para ela. Não vou citar o nome, mas uma besteirinha posso contar.

Fomos almoçar no Marisqueira, restaurante centenário de Copacabana, sua especialidade bacalhau, hoje o melhor prato é o "Bacalhau a Mário Soares".

Conversávamos, já com a entrada de pães, queijo, torradas e manteiga da casa.

Passei manteiga numa torrada, e ela me propunha fazer aplicações financeiras; atento a sua fala, levei uma torrada para minha boca; quebrou e um dos pedaços caiu na mesa, com tolha branca, bem alvinha.

Com a ponta da faca ainda com manteiga, colei o pedaço de torrada e trouxe de volta à boca.

Ela, ao ver tal cena gritou:

—Que absurdo!

E se abaixou para dentro da mesa, tentando esquivar-se dos olhos dos outros frequentadores, e da minha má educação, falta de postura, etiqueta.

...

Já um diretor, que me contratava para fazer parte dos serviços de assessoria de imprensa e de fotografia para seus projetos teatrais, sugeriu que além do produtor, eu deveria levantar verba o suficiente para bancar sala de teatro e os profissionais por três meses de ensaio, “pelo menos”, insistiu.

"Fudeu, banda Mel!"

Onde eu levantaria tanto dinheiro, lembrando que já havíamos passado da era Sarney, em que você pegava um frango assado no supermercado e saía correndo para o funcionário não mudar o preço com aquela maquininha infernal de remarcação.

Trabalhava à noite no jornal Tribuna, ganhava relativamente bem, fazia freelas, e prestava serviços para uma agência de publicidade.

Mesmo que largasse minhas manias e restaurantes que costumo frequentar, ainda faltaria muita grana. Isso ocorreu no século passado, anos 1980 a 1990, pulou para os anos 2000, e cá nos anos 2025, ainda junto dinheiro para ver minhas peças e novelas ensaiadas, apresentadas.

Há 17 anos, na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), uma inspiração me levou a um projeto apaixonante: a republicação das 'Poesias Completas de Machado de Assis'.

Tive uma "visão" do próprio Machado, criança, correndo pelas ruas do Cosme Velho e daí surgiu a ideia. Não contente, meu livro de poesias de Machado de Assis, foi uma lenda de procrastinação.

Ora para fazer reencadernação, com letras cravadas em alto relevo do nome do melhor escritor do Brasil e do mundo, ou porque pretendia também levar as poesias nem tão conhecidas do grande público para uma reedição da obra de Machado de Assis.

Taurino2 é um bicho inquieto, ansioso, segue em frente.

Touro é um signo que enfrenta, atua por desafios, e luta com todas as forças para conseguir o que deseja, e gosta de produtividade, limites, praticidade, conforto, dinheiro.

Aí é o ponto.

Gostar de dinheiro não significa tê-lo, apesar de que... já foi.

E aquele livro com as poesias machadianas se desfazendo por conta do tempo, editado em 1934, escritas entre 1864 a 1904, nominadas em quatro livros: Chrysalidas, Phalenas, Americanas e Occidentaes.

Recebi notificações no celular em 7 agosto de 2025, e a mais importante da editora do portal Meer, avisando que eu estava atrasado com meus artigos, e outra, não menos importante, foi a de ajudar num crowfunding, portal Vakinha.com.br.

Larguei o celular e fui para o notebook escrever novos artigos, burilar outros, e esbarrei no livro de Machado de Assis.

Caraca, meu irmão!

Doeu.

O livro esfacelou-se.

500 páginas de papéis velhos em torno de minha escrivaninha, outros voaram do escritório para a sala.

As capas de papelão rígido com sobreposição de papel holler caíram próxima à parede.

Juntei todo material com maior carinho do mundo. A página 11, que contém o poema Musa consolatrix, faltava um pedaço, que achei preso entre páginas fora da numeração.

Completei o poema à base de durex na folha frágil.

Que Machado me perdoe.

Musa consolatrix

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormecem,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias;
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, Alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, — e terá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!

Daí, no mesmo instante que fiz a colaboração para um artista que pretendia um vernissage, criei minha arrecadação coletiva no portal Vakinha para reeditar o livro, agora chamado Occidentaes - Poesias completas de Machado de Assis, com 400 páginas das 500, contemplando todas as poesias do livro original.

Pretendo, no início de dezembro, publicá-lo na Amazon, e ter 1.000 exemplares impressos, até 20 de dezembro de 2025.

O texto naturalmente foi vertido para a Norma da Língua Portuguesa adotada pelo Brasil em 2002, protocolada pelos países signatários da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), já que os poemas de Machado de Assis são da Língua Portuguesa pós Brasil independente do império à República Nova, de 1864 a 1934.

É um projeto e tanto.

Creio que poderei apresentar Machado de Assis para escolas distantes da boa leitura, que consumam ensinamento de qualidade, sem o modus doutrinal das ideologias intrinsecamente ligadas ao fracasso, ignorância, desconhecimento, que provêm achatamento cultural.

Enquanto engomo a calça3

Arrepare não, mas enquanto engoma a calça eu vou lhe contar
Uma história bem curtinha, fácil de cantar

Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão

Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou
Não foi passarinho, foi olhar do meu amor
Me arrepiou todinho e me eletrizou assim
Quando olhou meu coração
Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou
Foi passarinho, foi olhar do meu amor
Me arrepiou todinho e me eletrizou assim
Quando olhou meu coração

Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão

Arrepare não, mas enquanto engoma a calça eu vou lhe cantar
Uma história bem curtinha, fácil de contar

Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão

Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou
Não foi passarinho, foi olhar do meu amor
Me arrepiou todinho e me eletrizou assim
Quando olhou meu coração

Esse voar maneiro foi ninguém que me ensinou
Foi passarinho, foi olhar do meu amor
Me arrepiou todinho e me eletrizou assim
Quando olhou meu coração

Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão

Ai, mais como é triste
Essa nossa vida de artista
Depois de perder Vilma pra São Paulo
Perder Maria Helena pro dentista

Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão
Porque cantar parece com não morrer
É igual a não se esquecer
Que a vida é que tem razão

The end, no!

Notas

1 Teatro Glauce Rocha fica no Largo da Carioca, no Edifício Século Frontin na Av. Rio Branco, 179 - Centro, Rio de Janeiro. O largo é cercado de prédios históricos, a exemplo do Teatro Municipal, do Museu Histórico Nacional e do Museu de Arte Moderna, que oferecem programações culturais e artísticas de alta qualidade, e conta com jardins bem cuidados e belas praças. Glauce Rocha foi uma atriz brasileira que marcou os anos 1960 e 1970. Musa, ela foi uma das criadoras da profissão de atriz no Brasil. Morreu cedo, aos 38 anos em 1971, por infarto. O teatro em seu nome, abriga a memória da atriz: memorial com fotografias e materiais da sua trajetória.
2 Os homens de Touro são fiéis, serenos e muito apegados a questões materiais.
3 Fonte. Compositores: Climério de Sousa Ferreira / José Ednardo Soares Costa Sousa. Letra de Enquanto engoma a calça.