Apoiado na balaustrada da grande varanda da casa dos avós, com vista para as montanhas e o mar, Jean-Philippe observava a Natureza ao seu redor. Era noite de Lua cheia, no final da primavera, e o calor já havia chegado àquela parte de Terre de Sainte-Sophia. Apesar disso, as noites continuavam frescas e agradáveis, ainda mais com a brisa marítima, constante e tranquilizadora.

O céu estava nublado, mas a Lua parecia fazer uma dança com as nuvens: ora aparecia com todo o seu esplendor, ora se escondia por vários segundos até mostrar-se novamente. Embaixo, as montanhas e o mar espelhavam as luzes selênicas como um palco iluminado por holofotes intermitentes.

O rapaz estava fascinado por tudo aquilo. A brisa era o toque especial que completava o cenário e convidava à contemplação. Bebericando de uma taça de vinho tinto próxima a si, sentia-se fundir cada vez mais à Natureza ímpar diante de seus olhos.

As folhas, sobretudo as do alto das árvores, participavam ativamente da suave dança, que parecia coreografada, tão perfeita era a simetria. Jean-Philippe não sabia se era efeito da bebida (já estava na segunda taça...): parecia ouvir como que um leve sussurro que acompanhava o bailar das plantas.

Com a cabeça apoiada em uma das mãos e segurando a taça com a outra, sorveu mais um gole. Vinho de ótima qualidade, safra 2017. O avô havia fechado um grande negócio e lá dentro, na sala de jantar, comemorava-se em família. O rapaz gostava do clima que predominava no interior da casa, mas queria, naquele momento, apenas aproveitar a beleza da cena noturna.

Estava contente com mais um trunfo familiar. Porém, tinha outras preocupações em mente, que não se resolveriam com dinheiro. Estava entre permanecer na carreira, na empresa da família, e dedicar-se mais à Arte – era um ótimo pintor, tendo inclusive participado de exposições; havia também questões do coração envolvidas: um amor do passado voltara e o rapaz, que se orgulhava de sua solteirice, sentia um forte chamado para reatar a relação, porque ainda sobrara sentimento não resolvido. Ao pensar nisso, tomou mais um gole de vinho.

A Natureza continuava sua dança infinita, agora com a Lua escondida por longos instantes. Jean-Philippe pousou a taça na balaustrada e apoiou a cabeça com as duas mãos, já um pouco alegre por causa da bebida. Fitou o mar sereno ao fundo e as montanhas formando um paredão natural à sua volta.

“Acho que eu passaria a noite toda aqui.”, pensou, com um sorriso singelo no rosto.

Não havia previsão de chuva para breve, então decidiu sair de perto da balaustrada e recostar-se numa espreguiçadeira ali perto. Meio sentado e meio deitado, poderia observar as nuvens, levadas pela brisa, alternadamente cobrindo e descobrindo a Lua cheia.

Desde pequeno adorava-a. Demorou a acreditar quando, na escola, aprendeu que ela não tinha luz própria: meramente refletia a luz do Sol. Mas como seria possível? Só no fim daquele ano, sem alternativa, entregou-se ao conhecimento adquirido, embora jamais tivesse perdido o encantamento quase mágico – ou mágico de fato – que o astro lhe causava.

Lembrou-se de todas as noites, em várias fases da vida, que tinha passado observando a Lua, ainda que por breves instantes. Nos Réveillons costumava levantar sua taça de champagne em direção a ela, como que brindando e, ao mesmo tempo, pedindo-lhe proteção.

A ideia de outras vidas – em que ele não acreditava totalmente, mas também não deixava de acreditar – ocorreu-lhe em dado momento, quando as nuvens cobriram boa parte do céu. Será que já havia feito aquilo antes? A sensação de integral comunhão com a Natureza e o cenário noturno era tão grande que sentia um aperto no peito toda vez que pensava nisso – um aperto positivo, daqueles que confirmam uma hipótese alvissareira. Sorriu novamente.

O rumor de celebração continuava na sala de jantar – a família, em sua maior parte, era mais noturna, então as reuniões de fins de semana seguiam madrugada adentro.

“Só mais um pouquinho e eu entro.”, pensou novamente, como se a noite tivesse perguntado se continuaria tendo sua companhia.

A Lua apareceu outra vez, dando a impressão de estar ainda mais brilhante. Quando isso acontecia, as nuvens no entorno se afastavam e era possível ver algumas estrelas, cuja luz se mostrava um pouco mais forte, como que para conseguirem participar do cortejo da rainha do céu.

Toda a grande varanda se iluminava nesses momentos, projetando sombras distantes: parecia varrer para longe todo tipo de pensamento ruim ou situação desagradável. A brisa intensificava a sensação de proteção proporcionada pela Natureza naqueles momentos singelos.

Ao tomar o último gole de vinho, Jean-Philippe achou que deveria entrar. Sem dúvida cochilaria – e até dormiria – na espreguiçadeira, de tão convidativa que estava, mas pensou que uma hora ou outra dariam falta dele na reunião.

Aguardou que sua amiga celestial se mostrasse mais uma vez e, quando isso aconteceu, olhou em sua direção e disse, empunhando a taça como se ainda estivesse cheia:

—Amanhã, no mesmo horário, nós nos veremos novamente.

Fez uma breve reverência à nobre dama da noite e entrou, carregando consigo um sorriso pacificador.