Os supermercados são os palácios dos pobres. Não são só os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gerações foram reduzindo os gastos da imaginação, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superfícies. As grandes superfícies com a sua área iluminada e sempre em festa; a concentração dos prazeres correntes, como a alimentação e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambições do quotidiano. Não há euforia mas há um sentimento de parentesco face às limitações de cada um. A chuva e o calor são poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; há uma emoção própria que paira nas naves das grandes superfícies. São as catedrais da conveniência, dão a ilusão de que o sol quando nasce é para todos e que a cultura e a segurança estão ao alcance das pequenas bolsas. Não há polícia, há uma paz de transeunte que a cidade já não oferece.

(Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo')

E é assim desde que ficámos sem máquina de lavar loiça. Primeiro avariou, depois levou um arranjo provisório, desses que prometem mais tempo do que dão, e finalmente desistiu de vez. A máquina, como nós. Com o salário de amanuense de escritório (como costumo dizer) a não permitir grandes gestos, fiquei eu com a loiça, todos os dias, no fim das refeições. Pratos, copos, talheres, a espuma a escorrer para o ralo como uma paciência doméstica que se vai gastando. Depois despejo o lixo, olho de relance para o sítio onde costumo estacionar a mota, a confirmar se ainda está lá — este gesto automático, quase supersticioso — aceno com a cabeça a um ou dois vizinhos e subo as escadas. Fraco exercício físico, apenas o suficiente para calar a mulher, que insiste que é preciso mexer o corpo. Depois sento-me diante do computador para fazer o meu desporto diário e compulsivo sempre que tenho algum tempo livre: escrever crónicas.

Já recusei muita coisa. Geralmente mal paga. Um país tornado num enorme call center da Europa, com sotaque neutro e salário mínimo. Primeiro dizem que somos bons, que o serviço é simples, que é só atender chamadas. Depois vem o dress code, que aceitamos por bom senso — nem calções, nem transparências, nada de calças rasgadas, who cares? — como se alguém tivesse tempo ou energia para descolar os olhos do ecrã. E depois os horários apertados, as pausas cronometradas, a grande benesse anunciada pela supervisora: a pausa para a casa de banho é a única que não precisa de justificação ou autorização. A dignidade medida em minutos.

Ao fim do dia, todos querem ir para casa agarrar-se às redes sociais, mas eu já não tenho paciência para redes desde a última experiência profissional, que durou três meses. Analisávamos conteúdos para uma plataforma qualquer. Vídeos, imagens, relatos. O que o ser humano faz quando pensa que ninguém está a ver? Crueldade sobre animais, violência gratuita, humilhação. Não eram pré-históricos. Pelo contrário: tinham acesso à tecnologia, à educação, ao tempo livre. O homem de Neandertal lutava por comida; estes lutam por nada. Praticam violência porque podem, porque querem, porque dá cliques. Porque alguém do outro lado vai ver. Dejectos da sociedade, dizíamos entre nós, mas a verdade é que também nós fazíamos parte do mecanismo.

Estou no supermercado. Há imensa gente. Acordaram agora para o facto de se avizinhar nova tempestade. Uma tempestade anunciada, com mapas coloridos e setas vermelhas, mas que ainda assim apanha todos de surpresa. O medo organiza filas. Estou saturado de tropeçar em crianças que guincham, nos pais que já estão na fila de pagamento e se lembram de ir buscar o champô, cheiram os produtos, enervam-se nas caixas automáticas, pedem ajuda e depois invectivam toda a gente pela sua própria inépcia.

Um gorducho de barriga de cerveja abana-se de um lado para o outro porque, segreda à mulher, “quer ir fazer cocó”. A mulher mete mais duas caixas de cerveja no carrinho. O pagamento falha. “Mas tu não viste o saldo da conta?” Ouço. “Pode pagar cinquenta euros do Multibanco e o resto no cartão de crédito?” O patrão ainda não pagou o ordenado porque não quis mexer na poupança. Duas mulheres bem vestidas empurram um carrinho cheio de produtos de beleza. Um míope dá palmadas na melancia para ver se está madura. Uma mãe passa com um carrinho de gémeos a dormir, cada um com a sua chucha, indiferentes à urgência do mundo. Ainda faltam os produtos de limpeza. A outro falta a sapateira recheada, porque “o Rodrigues vem jantar e só gosta de sapateira”.

Na fila cheira a pão quente e a fatias de pizza. Um homem calmeirão de sandálias fala com outro de chinelo de enfiar no dedo sobre o Tesla, uma grande máquina, e como agora lhe sabia bem ter um robô que lhe descarregasse as compras. Melhor do que um empregado que ainda ganha ordenado. É um homem do povo a falar para um senhor de gravata, perfumado, com um cheiro enjoativo a sucesso recente. Ambos concordam. A eficiência acima de tudo.

E eu olho para aquilo tudo e pergunto-me em que momento aceitamos isto como normal. Em que ponto deixámos que a humanidade se deixasse seduzir por forças que não domina — o medo, o consumo, a pressa — e permitimos que a bestialidade viesse ao de cima, rompendo a fina capa de civilização. Como se nunca tivéssemos saído da caverna, apenas a decorámos melhor. A tempestade ainda nem chegou, mas já estamos a empurrar carrinhos como se fosse o fim. Talvez seja. Não do mundo, mas de alguma coisa dentro de nós que insistimos em chamar progresso.