‘Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora’, diz verso popular…
Também a génese narrativa me surge e vai embora… num ápice, deixando algum espanto embargado ou tão somente um vazio meio caótico no meio do caos instalado…
Mas, e a propósito de narrativas, vivemos circundados, inundados delas… para mais num contexto hiper tecnológico e ultra mediático que tudo varre na onda, tsunami imposto a ritmo ultra-sónico, mesmo surreal…
Não, não é justo, lógico e mesmo simplesmente praticável percorrer uma ínfima, infinitamente corrente de escrita… mas isso só se entende no silêncio da pausa, no recato de noite insone, no frio invernoso ou no tropicalismo estonteante de fulgor solar em estio rampante e iluminado até quase à insolação da sede que cria e avança rabiscos por páginas nunca dantes navegadas…
Se isto se torna inteligível, aceitável ou tão somente sofrível fica sempre do lado de quem lê… Se isto se torna impropério frustado, impaciente ou revolta calada, emudecida, auto-censurada, só a perda fica e a pena estancada e sem tinta poderia alguma vez comprovar…
Na tentativa extenuante de exprimir o que vai no verso ou na crónica tantas vezes, por vezes demais horrível do que se vai observando algo se vai ganhando ou perdendo, de qualquer modo se vai transformando e revelando o escrevente escriba do possível e do impossível destinatário que lá estará no outro lado da mensagem…
No limite, talvez todo o verso ou narrativa não passem de meras tentativas de fuga ao esquecimento e à obliteração… Quanto foi escrito e metido na gaveta de qualquer escrivaninha poderá lá bem ficar e não ver olhos leitores esquadrinharem, curiosos, hieróglifos escusos e escassos deixados ao acaso algures…
Também é deste caótico acaso que se alimenta o escrevente escriba mais ou menos intermitente no acaso balbuciante do querer dizer…
Nos dias cáusticos e nos dias de tédio, nos criativos ou nos imponentemente improdutivos, algo vai fervilhando no intenso labor narrativo ou poético, na sua ausência ou no torpor da indigência criativa… Para mais se os contextos são mais imagéticos ou preferentes de sound bytes bem brilhantemente embrulhados naquilo que se ousa dizer de corrente dominante factual ou fática, mediática e a nunca perder… Helas, confrontando-se com isto, a resistência do simples rabisco estiola e quantas vezes imola-se no momento e tranforma-se em mera memória que não verá nunca a luz da página branca impressa e que revela e expõe quem ousa expor-se…
Do caos circundante muitos já contaram com o fim da história esquecendo e augurando outros fins mais tenebrosos ou utopicamente paradisíacos do aqui e agora, para sempre…
Tautologia ou mera vingança sobre a pequenez e infalibilidade da passagem, dos ritos de passagem por efémero tempo, tenaz temporal a evitar, esquecer e enviar para algures longe da vista do coração e da memória dos tempos…
Na viagem por estes dias cáusticos ainda há quem sobreviva a…
No caos circundante e ruidoso do quotidiano que nestes tempos de cóleras várias vamos vindo a viver existem ainda paradoxalmente quem tente relativizar a pressa gritante e se tente aguentar ao ritmo tenso e galopante da velocidade que vai atropelando vias mais suaves e distendidas…
E não, nada nunca haverá de superioridade ou inferioridade nisto… Por certo que na contramão do tráfego constante se encontre mais resistência do que esperança resistente e ambição de exposição vaidosa e sobranceira…
Na viagem por estes tempos e dias de estio, talvez o pouco que se almeje seja algum fugaz momento para o momento da memória de brisa calma que estiole o calor que afugenta a reflexão e impele a serenidades, hoje quase obscenamente marcadas para serem exterminadas em qualquer rede de raiva feita… censuras e condicionamos cancelantes estão e são moda que vai dominando…
Da narrativa destes dias, destes tempos infaustos, nem Fausto quer vender a alma a qualquer diabo atraentemente dourado que lhe surge prometendo mirífico prazer ilimitado e eterno…
Também da narrativa destes dias se deva extrair que já nem o diabo é o que foi…
Da génese narrativa destes caos instalados muito sobreviverá, muito se estatelará na ignomínia ou no lixo dourado do efémero trajecto tingido da vanitas de reis e senhores de escravos e também muito se verá de viagem descoberta de mundos e vias lácteas de incandescente beleza e leveza mais intemporal do que qualquer fatwa condenatória ou pretensa de pura verdade insofismável…
E sim, aí estarão os vates e os escribas iconoclastas do tempo que foge e nada quer deixar para trás…
E sim, a única consolação e alimento de esperança que se vai esvaindo das suas veias livres e não canceladas será visível, por ínfimos segundos apenas, em linhas de tinta sulcando oceano de página em branco de estórias, versos que perenes ficarão nem que seja nas margens da tal história que se antevê permanente finda… continuando infinitamente intemporal…















