Diante de um templo que parecia egípcio, adornado por desenhos iridescentes que pareciam iluminados por outra fonte que não eletricidade, havia um grupo de jovens aguardando por uma cerimônia. Dentre eles, Louis, que via tudo em primeira pessoa, como se participasse ativamente daquela cena. Os demais falavam em um idioma a princípio ininteligível, mas ao qual o rapaz estranhamente entendia.
Chegaram pessoas mais velhas, com túnicas de ouro e pedras coloridas, provavelmente preciosas. Traziam medalhas que brilhavam como os desenhos nas paredes do templo. Faziam um pequeno anúncio e, sob os aplausos da multidão que assistia ao evento, colocavam o prêmio no pescoço dos jovens, um a um.
Quando chegou a vez de Louis, ele se arrepiou: naquela língua desconhecida ouvia claramente que estava sendo agraciado com louvor por ter escrito de forma exemplar sobre aquele tempo e aquela dimensão – sim, a palavra usava correspondia a “dimensão”. Empunhando uma crux ansata, o ancião que havia colocado a medalha no pescoço do rapaz agora o “abençoava”, dizendo mantras ritualísticos.
Louis sentiu mais um arrepio, dessa vez fortíssimo, e as palavras do velho sacerdote (ao menos parecia ser um) ressoaram em sua mente e em seu coração: “Agradecemos, ó jovem, por teres ajudado a descortinar, aos mortais de outras eras, o véu de Ma’at.”.
Acordou novamente num sobressalto, assustando Pláton, que miou e pulou para longe da cama – retornaria logo depois. O rapaz olhou no celular e percebeu que ainda eram três da manhã. Sentiu fome e foi até a cozinha, onde pegaria algo para comer na geladeira. Ao passar pelo grande espelho no corredor entre o quarto e a sala, espantou-se: de relance, em seu reflexo, viu exatamente as mesmas roupas do sonho; porém, quando olhou novamente, estava com seu pijama. Esfregou os olhos e correu para a cozinha – “Preciso de um café!”, pensou.
Retornou rápido para a cama. Como era daquelas pessoas para quem o café não altera o sono, não demorou muito a voltar a dormir. Não sonharia mais até as 8h00, quando programara o alarme para despertar, com exceção da imagem de uma águia com um disco solar na cabeça, que teimava em aparecer vez ou outra.
Havia chegado o grande dia! Eugène Hyndormais tinha marcado para aquele sábado a noite de autógrafos do livro. O evento, que seria numa galeria de arte próxima ao Musée Égyptien, reuniria vários convidados especiais chamados pelo editor, entre eles o próprio Charles Vicarty, que viajara especialmente para Dunquerqueville para participar do evento. Louis estava animadíssimo desde que soubera da presença do ilustre escritor no lançamento de seu primeiro livro.
Aquele dia transcorreria mais devagar do que o rapaz gostaria, mas lhe seria possível controlar a ansiedade. Deixaria tudo pronto – a roupa que usaria e o breve discurso que faria – logo pela manhã e aproveitaria o resto do dia para relaxar um pouco. Almoçaria nas Galeries Boursonnot e, depois de uma volta por elas, retornaria para seu apartamento. Lá, ele se arrumaria e iria para o local do evento.
A modesta galeria de arte, apesar de seu tamanho reduzido, era um verdadeiro point para a juventude artística em Dunquerqueville. Louis ouvira falar daquele lugar, mas ainda não tinha reunido a coragem para visitá-lo. Mal sabia que exatamente ali seria o lançamento de seu primeiro rebento literário.
Havia “tribos” de todo tipo: desde os mais “comportados” aos underground, passando pelos mais “clássicos” e os hipsters – a quem Louis, que não se considerava de nenhum grupo, gostava de chamar de “modernosos”.
Como o rapaz chegara cedo, veria a quantidade de pessoas aumentar aos poucos. Logo depois dele, o velho editor dava o ar de sua graça, sorrindo muitíssimo e num terno Armani que costumava usar em situações que considerava importantes.
—Bonsoir, M. Rélleivaux! Chegou o dia, não é? Como está se sentindo? – perguntou Hyndormais, com entusiasmo sincero, ao jovem autor.
—Bonsoir, M. Hyndormais! Estou contentíssimo! É difícil até de me conter, mas vou tentando. – riu de nervoso e o editor acompanhou-o, para ajudar a acalmar o rapaz – Serei eternamente grato ao senhor pela oportunidade.
—Agradeça ao seu talento, ao seu trabalho e às Musas! Só ajudei a tornar real esta sua conquista – que seja a primeira de muitas!
Louis agradeceu com um aceno e corou. Hyndormais sorriu.
—Olhe quem vem lá! – comentou o editor, ao observar certa movimentação na porta principal da galeria.
Era ninguém menos que Charles Vicarty, Visconde de Nouvelle Toulon e um dos principais autores publicados pela Hyndormais. Alto e de porte atlético, estava com um terno Lapharge de corte moderno e usava um broche com a insígnia da família dos viscondes, os Habéromchard. Ao seu lado, bela e igualmente bem vestida, estava Chantal, a viscondessa.
—Hyndormais! – bradou o visconde, ao aproximar-se do editor e de Louis – Como está? Então é este o novo autor de quem tanto tenho ouvido falar?
—Tudo ótimo, e hoje melhor ainda! E sim, é ele! Permita que os apresente: Louis Rélleivaux, Charles Habéromchard-Vicarty.
O rapaz fez uma breve reverência e se dirigiu ao visconde:
—Votre Altesse.
—Deixemos disso, por favor. Apesar dos meus quarenta anos, sou da nova geração de nobres. Não me ligo tanto a certos protocolos, ainda mais quando a estrela da noite é o senhor, M. Rélleivaux.
—Merci, Altesse. – Louis quase fez outra reverência, mas limitou-se a um sorriso tímido.
—Li seu livro e estou muito surpreso, de forma positiva. – comentou Charles – Lembra um pouco a flamme dos meus primeiros escritos, mas com um tom totalmente seu, muito perceptível e característico. Minha esposa também leu e adorou.
—É verdade, M. Rélleivaux. – Chantal aproximava-se dos três – O senhor é muito talentoso. Parabéns!
—Merci beaucoup, Altesses. – Louis não resistiu e beijou a mão da viscondessa. Embora ela tivesse o mesmo tipo de pensamento que o marido quanto a regras protocolares, apenas sorriu, agradecida.
—Vô, está quase na hora. – era Victor-Honoré Hyndormais, neto do editor, que chegara alguns instantes antes – O senhor quer que eu faça o anúncio?
—Pode ser, Victor. Veja por favor com M. Parlavac se está tudo em ordem e logo mais vamos começar. – depois do comando do avô, o jovem acenou com a cabeça e foi atrás de Étienne Parlavac, secretário de Hyndormais.
Louis, que até então estava “calmo” (anestesiado?), começou a ficar um tanto ansioso. Logo começaria uma nova fase em sua vida, e a partir dali muita coisa haveria de mudar – para melhor.
A cerimônia, apesar de contar com os ritos que o velho Hyndormais ainda fazia questão de seguir, transcorreu com bastante fluidez. O jovem autor se atrapalhou um pouco com o microfone no início de seu discurso, trocou o nome do Secretário de Cultura da cidade (que, a pedido do editor, estava representando o Maire de Dunquerqueville) e gaguejou nas primeiras palavras. Mas o evento transcorreu sem problemas, pois todos ali foram muito compreensivos – sobretudo sua família, que chegara bem no início do discurso, para surpresa do escritor: seus pais e seus irmãos haviam “mentido”, dizendo que não poderiam ir, e viajaram de Lanesville especialmente para a ocasião.
Na mesa preparada para receber as pessoas e assinar os exemplares, cumprimentou com alegria, além da própria família, também aqueles que tanto ajudaram em suas pesquisas: o Prof. Hakeem al-Najib, Gérard de Joutronnard e Rosalie d’Astrournal, que parabenizaram o jovem escritor pela publicação, prometendo que teceriam comentários depois da leitura – e de fato o fariam.
Dentre as últimas pessoas da fila (algumas dezenas de livros haviam sido vendidos, e vários dos compradores aproveitaram para pegar o autógrafo do autor) estavam o visconde e a viscondessa, que aguardaram pacientemente sua vez. Louis jamais imaginou que um dia estaria autografando um livro para Charles Vicarty.
—E este é para meu pai, por favor. – pediu o visconde. Caprichando ainda mais na letra, Louis escreveu: “Para o grande Edgard Vicarty, com os votos de que goste bastante desta singela primeira obra de um novo autor.” – e assinou. O casal nobre agradeceu e logo atrás vieram os Hyndormais, avô e neto.
—Que maravilha, M. Rélleivaux! – era o editor, sempre entusiasmado – Parabéns novamente pelo livro: é um sucesso!
—Parabéns, M. Rélleivaux! – disse Victor-Honoré, e piscou. Louis corou discretamente.
—Merci beaucoup aos dois! – agradeceu o autor – E a M. Parlavac também, por toda a ajuda. Eu estou lisonjeado, grato, e todos os adjetivos positivos que não me vêm à mente agora… – os três riram – Foi uma noite inesquecível, sem dúvida!
A mãe de Louis, Hélène, se aproximara do grupo e, depois de pedir licença, perguntou:
—Filho, você deve estar com fome. Vamos comer alguma coisa? Pensámos em comemorar no Tour Bleue. Que tal?
Era um restaurante que Louis adorava, mas não costumava frequentar por conta dos preços.
—Hoje é uma noite especial, então eu aceito! – deu uma pausa – Gostariam de ir também, MM. Hyndormais? – o rapaz se dirigia ao avô e ao neto.
—Seria ótimo! Vou inclusive convidar Suas Altezas, se me permitir. – disse o velho editor.
—Claro! Será uma honra! – exclamou Louis. Hélène cobriu a boca com a mão, espantada (e também honrada) com o que acabara de ouvir.
—Já volto! – saiu.
Alguns instantes depois, Hyndormais retornou com o visconde e a viscondessa. Hélène ligou para o restaurante para verificar se seria possível expandirem a reserva que tinham feito e, uma vez confirmada a possibilidade (não sem antes o editor comentar a presença de Charles no grupo...), combinaram em quais carros as pessoas iriam. Saíram da galeria e, no caminho, Louis cumprimentou a curadora, a quem agradeceu mais uma vez. Satisfeita, ela retribuiu com um aceno de cabeça.
Diante da porta principal, o jovem virou-se novamente para se certificar de que não era apenas um sonho. Sorriu com satisfação quando viu os grandes cartazes com a foto de seu livro, em cuja capa estavam uma crux ansata, uma águia com um disco solar na cabeça e o título, em letras douradas: Sob o véu de Ma’at.















