Eu sempre começo as minhas apresentações pessoais, em entrevistas de emprego ou em outras dinâmicas, dizendo que contar histórias é o que eu faço de melhor, e acredito que de fato é o que eu sei fazer de melhor, sim.

Contar histórias, conversar, ouvir. Tudo aquilo que faz parte do universo da comunicação me interessa, me deixa inquieta e curiosa. Eu sempre quero saber mais. Entender mais sobre as pessoas, suas histórias, seus gostos, o que as inspira e as ajuda a seguir em frente.

Mas só ouvir não é o suficiente, preciso externar o que estou sentindo. E colocar os sentimentos para fora em palavras sempre foi um desafio para mim. Pensar é muito mais fácil do que falar. Ouvir os outros também é mais fácil do que ouvir a si mesmo. E o que ninguém sabe, e talvez nem imaginem, é que eu tenho uma enorme dificuldade em começar. Qualquer coisa.

Começar exige muito de mim. Admito que tenho sérios problemas com isso. Começar sempre me trava, me afeta, divide meus pensamentos entre “sou capaz” e “não sou capaz” e é por isso que estou sempre recomeçando, sempre refazendo, reestruturando. Edito e reviso o mesmo texto várias vezes, tiro um parágrafo de um lugar, encaixo em outro, sempre buscando a tão sonhada perfeição.

E isso é claro, vai adiando as coisas. O tempo vai passando e eu fico presa pensando no momento certo. As coisas vão ficando para trás e eu só percebo lá na frente. Porque tudo o que escrevo reflete o que eu senti, o que eu sinto e o que eu sou. Se alguém me lê, consequentemente conhece um pouco mais sobre mim, sobre os meus sonhos, meus interesses, meus pontos fracos…

Só que pensamentos como esses só servem para nos deixar frustrados. O medo se sobressai aos nossos sonhos e de repente estamos perdendo tempo com ideias que não irão nos levar a lugar nenhum. Mas chega um momento em que precisamos parar e encarar esse elefante branco na sala. Qual é o problema das pessoas conhecerem mais sobre nós? No que isso muda quem somos?

E afinal, que diferença isso vai fazer na nossa vida? Um dilema um pouco sem sentido, eu diria. Por que nos importamos tanto com pessoas desconhecidas e com as conhecidas também? Sendo que muitas vezes passamos despercebidos, alguém vê, lê, pode gostar ou não, mas amanhã nem vai lembrar de nós. Que mania estranha de dar poder a pessoas aleatórias.

Ou no final das contas, todos esses sentimentos são apenas desculpas que vamos inventando ao longo do caminho para evitar começar alguma coisa? Para fugir do que desejamos. Ficamos presos na ideia do que os outros vão falar ou pensar, quando na verdade o pior juiz é a voz na nossa cabeça dizendo que não iremos conseguir ou dar conta daquilo que queremos fazer, que nunca estaremos prontos.

É aí que está o segredo. Nunca estaremos prontos. O momento certo não existe.

Talvez por isso começar exija mais do que coragem, exija também um pouco de fé. Fé em nós mesmos, naquilo que queremos para a nossa vida, não importa o que seja. Escrever um livro, viajar, mudar de emprego, começar um curso diferente de tudo o que já fizemos…

De qualquer maneira, precisamos entender que o momento certo acontece em um dia qualquer, num instante. Um dia acordamos e nos damos conta do que acabou ficando para trás pelo simples fato de não admitirmos o que queremos e desejamos para a nossa vida.

Independentemente do que você precise começar, do que precise ser feito, apenas faça. O momento ideal é aquele em que você decide que precisa mudar, que mesmo não estando pronto, entende que está preparado. Porque se não vai passar o resto da vida contando muitas histórias, sim. Mas nenhuma delas será a sua.

Ouvirá todo mundo, conhecerá histórias diferentes, vai rir e chorar com as pessoas. Vai contar o que ouviu, vai criar com o que aprendeu, mas a sua história mesmo não será contada. Vai ser sempre o que aconteceu com outros, como eles reagiram, o que fizeram com o que foi apresentado para eles.

E então vai se dar conta de que tudo dependia apenas da sua coragem de colocar em prática tudo aquilo que tem ensaiado há uns bons anos. Que só precisava contar a sua própria história também, sem medo dos julgamentos, dos começos angustiantes, do frio na barriga. E aí está, a virada de chave.

O momento exato em que tudo se encaixa, os caminhos se cruzam e as coisas começam enfim a acontecer. Não é o momento certo, repare bem. Mas aquele em que você toma a decisão de colocar a mão na massa, como dizem por aí, é essa decisão que traz paz para sua vida.

É o seu encontro com quem você realmente é. Com aquela criança sonhadora que você reprimiu uma vida inteira, que tinha muitos sonhos que foram engavetados e esquecidos. Agora você abre a gaveta, limpa a poeira e dá um novo significado para a sua própria história.

Agora sim. Os astros se alinharam. As coisas são como sempre deveriam ter sido. Você venceu o medo de começar, de construir e de falar sobre os seus sentimentos. Não importa se vão gostar ou não. Se vão ler, se vão rir, vão achar triste ou engraçado.

Em algum lugar, alguém vai se deparar com as suas palavras e se emocionar, vai decidir começar, vai desengavetar um sonho e vai ter coragem de encarar as coisas como elas são.

Nesse dia, tudo fará sentido.

Por fim, o que eu posso dizer é que os começos são assim mesmo, um pouco estranhos, confusos inicialmente. A gente sempre acha algum defeito naquilo que está fazendo. Só para poder adiar mais um pouco. Mas não tem jeito. Se você não fizer, um dia vai acordar e perceber o tanto que deixou ir, vai se sentir frustrada e até mesmo chateada ao pensar nos momentos que poderia ter aproveitado e que o medo de começar te tirou.

Nesse ensaio pessoal eu falo sobre a escrita, sobre aquilo que eu sempre disse que fazia tão bem, mas que na verdade, nunca havia feito de fato. Mas isso serve para qualquer coisa, qualquer sonho, grande ou pequeno, tanto faz.

Escrever exige de nós coragem. Começar também. De qualquer forma, precisamos aprender a olhar para nós com mais carinho. Acreditar que podemos muito mais do que imaginamos. E o mais importante: que isso é um exercício diário.

O primeiro passo muda tudo, o primeiro ato, o de começar, é o que irá nos levar a grandes realizações.

Façamos.