Desperto às 4:00 da madrugada após uma noite dormida de forma entrecortada na expectativa do voo às 6:00 para o Rio de Janeiro. Tenho dificuldades em confiar 100% no despertador! Passo a noite cochilando todas as vezes que necessito acordar cedo para algum compromisso. Tomo um banho, me arrumo e sigo para o Aeroporto de Congonhas. Preciso chegar com a antecedência de uma hora. Tarefa simples considerando a equação da proximidade da minha residência com o aeroporto e o horário (4:30 da madruga! Argh!). Simples até a entrada do aeroporto. A partir daí a balbúrdia se inicia! A alça de acesso ao aeroporto para quem vem de carro desde Interlagos é uma curva em 90°.

Na esquina, os restos mortais do antigo edifício-sede da VASP (Viação Aérea São Paulo). Empresa que já desapareceu há anos, mas por algum imbróglio jurídico sua antiga sede segue ali, abandonada, sem destino, se esfacelando, gradativamente se transformando em ruínas... como uma edificação mal-assombrada. O mais inacreditável é que estamos falando do segundo aeroporto mais movimentado do Brasil! A primeira impressão já não é das melhores.

A bagunça impera na pista interna do aeroporto! Para chegarmos na área de embarque, temos que passar pela área de desembarque, com táxis especiais, comuns e carros de passeio tentando resgatar alguém que acabou de chegar à direita ao mesmo tempo em que outros tentam sair do aeroporto à esquerda. Todo este volume de veículos concorre pelo espaço com os carros que apenas querem chegar até a área do embarque. Chegando a área de embarque outro problema: Como encostar o carro junto ao passeio para propiciar o desembarque do passageiro? O espaço de uma outra época já nitidamente saturado para receber a demanda de carros. Caos! Caos! Caos!

Uma vez ultrapassada esta primeira maratona, entramos na área do “Check-in” do aeroporto e, enfrentamos um novo transtorno. Filas quilométricas para se fazer o “check-in” em totens e depois mais filas para despachar malas (se este for o caso). Obviamente, caso já tem feito seu “check-in” via APP (aplicativo) apenas terá que encarar a fila para despachar as malas (se também for este o caso). O que se salva nesta etapa? O belo piso em mosaicos quadrados em preto e branco desta parte do aeroporto!

Como apenas vou pegar a ponte aérea para o Rio de Janeiro para uma reunião de trabalho não preciso passar por esta parte do aeroporto, pois já tenho o meu cartão de embarque eletrônico emitido via APP. Entro pelo saguão principal. Um belo saguão que sintetiza o estilo “Art Déco” do projeto original do aeroporto. Sempre penso “um dia este conjunto ‘Art Déco’ deve ter sido muito bonito!”. Hoje virou um grande jogo de puxadinhos tentando, de alguma forma, preservar o conjunto original. O grande saguão poderia estar melhor não fosse o apetite voraz de aluguel dos espaços entulhando as portas de entradas dele.

Mas o pior ainda está por vir...

Após passarmos pelo Raio X, que normalmente funciona bem, nos deparamos com uma sala de embarque onde quase não há espaço para circulação, pois novamente o apetite desenfreado pelo aproveitamento de todos os espaços para locação empilha quiosques atrás de quiosques por toda a área potencialmente livre. Parece uma grande feira livre! Só que com preços extremamente abusivos, afinal é um aeroporto! Vende-se de tudo! Lanchonetes, cafeterias, chocolateria, vinhos, sorvetes, lembrancinhas, bugigangas mil. Você precisa andar desviando de diversos obstáculos ao longo do corredor central da sala de embarque. Cada vez mais parecem retirar as cadeiras para abrir espaços de aluguel para mais quiosques.

Não bastasse o problema do pouco espaço de circulação disponível, o Aeroporto de Congonhas costuma brincar de “ande duas casas e volte dez”. O seu cartão de embarque até pode marcar um determinado portão, mas será muito pouco provável que o seu voo realmente esteja nele. Então, jamais se dirija ao portão indicado no cartão. Melhor parar em algum ponto estratégico logo após o Raio X e ficar atento aos painéis de indicação dos portões dos voos e ao sistema de som. Caso contrário corre-se o risco de ficar andando, mais de uma vez, de um lado para o outro entre os portões 1 ao 12 do piso superior ou mesmo, o pior cenário, que é se dirigir ao piso inferior para os portões 13 a 22 e depois retornar novamente para o piso superior. Coisa de louco! Já fiz muito esta maratona! Não faço mais! Atualmente só caminho para o portão de embarque quando aparece o aviso “Embarque imediato / Now boarding”.

Ah! Tenho certeza de que há um leve desnível no piso superior, pois a sensação é que estamos subindo uma ladeira.

Aproveito o tempo de espera para o embarque para fazer um desjejum, afinal a companhia aérea me oferecerá apenas água, talvez suco e um minúsculo pacote de biscoito de vento. Preciso me alimentar para enfrentar o voo e a rotina de reuniões matinais que virá. Talvez consiga alguma mesa e cadeira para tomar este café da manhã, talvez o tome em pé mesmo. Loteria!

Após todo este estresse, finalmente embarco com destino ao Rio. Desembarco no Santos Dumont e me deparo com mais outro aeroporto com puxadinhos. O antigo aeroporto em estilo modernista (limpo) mesclado com a sua ampliação estilo... bom... não sei! Um prédio quadrado com pouco estilo, ou melhor estilo “shopping center” que relegou à antiga construção a função ínfima de abrigar as esteiras de bagagem. Um total desperdício de um espaço tão bonito! Para completar alguém teve a brilhante ideia de projetar uma sala de embarque toda de vidro na ampliação do aeroporto. A ideia seria apreciar a bela paisagem do Rio. Apenas esqueceram dos 40° do verão carioca. Fico sempre imaginando o absurdo de energia elétrica demandada para resfriar aquela estufa!

Participo da reunião num prédio empresarial em Botafogo, almoço pelas redondezas, encaro outra reunião e no final da tarde me dirijo ao Santos Dumont para apreciar a vista do Rio na sala de embarque estufa. Me pego imaginando “em plena era pós pandêmica ainda há pessoas que precisam fazer reuniões presenciais. Desperdício de tempo e recursos!” Este pensamento junto com a minha espera na sala-estufa me faz concluir “Tudo muito pouco ESG!”

De volta a Congonhas, o avião não para numa ponte finger, então precisamos esperar o ônibus que irá nos resgatar do desembarque remoto. O ônibus circula, circula e circula no aeroporto até chegarmos na área do desembarque. No caminho vemos o agitado trânsito de veículos do aeroporto (ônibus, carrinhos de mala, tratores de reboque etc.). Finalmente chegamos na área de desembarque e nos depararemos com o salão de esteiras de bagagem lotada de pessoas que se amontoam aguardando suas malas. Normalmente numa única esteira se alocam as bagagens de no mínimo três voos distintos! Penso “Ainda bem que não tenho malas despachadas!”

Caminho em direção a área externa para pegar um táxi. Ouço os avisos do aeroporto sobre pegar apenas taxis oficiais, sobre golpes etc. Entro no táxi e me percebo de volta a balbúrdia dos carros querendo sair brigando com os carros que querem entrar. Agora, diferentemente do tranquilo trânsito da madrugada, também terei de enfrentar o horário do rush com seus enormes congestionamentos na volta para casa. O que me resta? Chegar em casa e me reconfortar no abraço de um bom banho quente!