Um dia, uma pequena coisa escureceu o paraíso dele. Um estorvo a que não dera importância, uma sombra que lhe passou por dentro, sem aviso. Ainda assim, o corpo dela desmoronou-se sob o seu num êxtase obsceno a que não puderam fugir, apesar de viverem uma espécie de neutralidade espacial. Um lugar contaminado pela forma mais severa de aniquilamento do ser humano: a perda da memória.
Toda a vida dele fora um desacontecimento. Um vazio constante, sem morada fixa para cartão de visita, pautado pela inércia, pelos azares, pela falta de vontade e de sorte. E, ainda assim, conseguia enchê-lo de fantasmas e histórias. Talvez porque sempre quisera estar noutro lugar, noutra função, noutro tempo. Percurso errático a que precisava de deitar mão a outros lembrares para tentar percebê-lo.
Lembrares — dizia ele, como se a palavra tivesse sido inventada apenas para o ajudar a segurar o passado. Viajava muito pelas recordações. Espécie de castigo imposto, que aceitava, porque era o único tipo de viagem pouco atreito a incidentes. Ainda assim, aqui e ali, aleijava-se. Termo que lhe era grato pelo cheiro a antigo, como uma ferida de infância que nunca chegara a sarar. As palavras foram sendo expurgadas da sua substância concreta. Magoar ou sofrer dano tornou-se inócuo, como se a própria dor fosse higienizada. Talvez desse tanto espaço e tempo a esses lembrares porque as palavras se esvaziam, como os dias. Como as relações.
Era, ao mesmo tempo, um homem persistente, inquieto, insatisfeito. A vida, para ele, era um armário com as gavetas trocadas de propósito por alguém superior, mais afoito. Não tinha memória para fixar onde guardava o mais importante; por vezes, abria as gavetas e já lá não estavam as coisas. Um armário numa saleta, uma antecâmara num palacete de família onde parecia ser preciso justificar a vida e o custo de mantê-la. Tudo tinha de ter um propósito firme, visível, palpável, numa humanidade de gosto uniforme, comum, indivisível, uma natureza idêntica a morar em cada um e a manifestar-se pelos mesmos desejos e impulsos, a mesma coragem ou fraqueza. Só as circunstâncias ou os espaços de movimento diferiam.
Nascera numa tarde seca de verão, numa época em que não havia espaço para crises emocionais nem para depressões. Tudo se tratava no maior recato, do sofrimento à alegria, da dor ao alívio.
Conhecera a mulher na infância. Nunca tinham saído da terra. Andaram na escola juntos e juntos ficaram, num casamento que lhes dera uma filha que se fixara em Lisboa a trabalhar. A vida no campo só era boa nas férias. E assim, se passaram muitos anos de uma vida feita a contar tostões e gastar entre o centro de saúde e a terra.
Já não contava com nada. Achava que não se conseguia vencer o nada e tentava proteger o pouco que possuía: a mulher, com quem vivera o melhor e o pior, na alegria e na dor, na saúde e na doença. A propriedade tornava-se questionável quando tudo à volta se diluía no esquecimento dos outros. A filha tinha um bom emprego que lhe consumia o tempo todo. As visitas eram raras e, tirando uns copitos com os velhos — como ele, que ainda resistiam na aldeia —, pouco mais havia para fazer do que contemplar um bom dia de sol, fazer festas ao cão e cuidar da mulher.
Ela passava os dias sentada junto à janela, a olhar a estrada onde já quase ninguém passava. Ele falava-lhe baixinho, chamava-a pelo nome, dizia-lhe que o jantar estava pronto, que o médico viera ver como estava a tensão. Ela sorria, às vezes, com um sorriso pequeno, como quem se lembra do som de uma música, mas não da letra.
Uma noite, ao voltar do café, encontrou a porta aberta. O cão deitado no degrau, mudo. Dentro de casa, o cheiro da sopa fria. A cadeira vazia junto à janela. Chamou-a uma, duas vezes, o nome a ecoar como pedra num poço. Saiu para a rua. Procurou-a nos caminhos que davam ao rio, entre os sobreiros, na vereda de terra batida. Nada. Nenhum vestígio.
No dia seguinte, apareceram os vizinhos, a GNR, até um cão de busca. Vasculharam os campos, os poços, o mato. Tudo em vão. Diziam que podia ter seguido a estrada, confundida, talvez pensasse que ia à missa. Outros diziam que o rio a chamara, como às vezes chama os que já viveram tudo.
Ele nunca acreditou nisso. Continuou a pôr-lhe o prato à mesa, a deixar o casaco dela sobre a cadeira, a falar-lhe como se ela apenas tivesse ido lá fora ver se o tempo melhorava.
Anos depois, ao vender a casa para ir viver com a filha, o novo dono encontrou, entre o forro do sofá e a parede, uma pequena moldura virada ao contrário. Dentro, a fotografia dos dois, ainda miúdos, de bata branca e sorrisos sérios, e atrás um bilhete com uma caligrafia quase ilegível:
Não te preocupes. Eu apenas fui ali, lembrar-me.















