—Ainda temos café pronto? Se sim, você me daria um pouco, s’il te plaît? Jogar café fora é muita maldade...

—Concordo! Vou ver se temos e já volto.

Jules retornou com uma bela xícara de porcelana de Aldara e a entregou a Hélène.

—Está meio morno... Precisamos trocar a garrafa térmica.

Merci. Mas precisava de tanto? – a moça apontou para a louça cara.

—Café é uma bênção. Sempre que possível, precisamos celebrá-lo.

Hélène riu do gracejo e tomou um gole. Ainda estava bom.

—Sem sono? – perguntou Jules.

—E sem inspiração... Mas sem querer dormir por enquanto. – tomou mais um gole e ofereceu ao rapaz – Quer?

—Não, merci. Depois das nove da noite eu evito.

—Seu velho... – provocou Hélène.

Ambos riram.

Moravam juntos havia pelo menos três anos. Era um relacionamento calmo, sólido, mas jamais falavam em noivar ou casar. Melhor assim, por enquanto.

—Está uma noite quente hoje... Vamos ver a Lua? – ele propôs.

—Vamos! – ela respondeu, com entusiasmo de criança.

A casa que dividiam, num bairro ligeiramente afastado do Centro de Dunquerqueville, contava com um amplo solário, que usavam para aproveitar o Sol e observar a Lua e as estrelas.

—Hoje é Lua cheia. Está linda! – disse Hélène, acomodando-se numa chaise-longue.

—Está mesmo! – era Jules, recostando-se na outra – E dá para ver o céu com clareza.

As estrelas têm um efeito interessante ao nosso olhar: quanto mais tempo as observamos, mais brilhantes e definidas nos parecem. Até os “traços” que formam as constelações ficam vívidos, como que riscados a giz pelo próprio Criador.

—O cinturão de Órion está perfeitamente nítido hoje. – comentou a moça.

—Em alguns lugares, essas estrelas são chamadas “Três Marias” – não me pergunte o motivo.

—Qual o motivo? – riram do gracejo de Hélène.

—Boba... – ele afagou o rosto da namorada e voltou-se novamente para as estrelas – Aquela é Betelgeuse. Dizem que era amarelada há uns dois mil anos. Agora ela está vermelha porque entrou em sua fase final: “só” lhe restam mais alguns bons milênios.

—Será que o nosso Sol também é uma estrela amarelada para quem nos vê de “fora”? – perguntou ela, sem tirar os olhos do céu.

—É uma boa pergunta! Acredito que sim.

— Aposto que neste exato momento, bem longe, alguém está apontando para o céu e dizendo: “Olhe, aquela é a Terra!” – seja lá qual for o nome do nosso planeta no idioma dessa pessoa (ou não-pessoa).

—Não duvido! A infinitude do Universo com certeza guarda surpresas ilimitadas.

—Basta saber observar. – disseram ambos, quase ao mesmo tempo.

Olharam-se. Seus olhos brilhavam mais do que as estrelas no céu — e, como elas, intensificavam seu brilho a cada instante. Jules tomou a mão de Hélène e a beijou.

—Você é sempre tão cortês... – ela corou, como costumava fazer.

—Porque você é minha estrela maior. – ele sorriu, sincero.

De mãos dadas, voltaram-se para o céu novamente. A intensidade das estrelas era tamanha que dava vontade de registrar toda a abóbada celeste. Não sendo isso possível, pelo menos não com meros smartphones ou câmeras digitais, contentaram-se com a observação.

—Veio a inspiração? – ele perguntou à namorada, que era escritora.

—Hum... Não exatamente. Mas, ainda que tivesse vindo, eu continuaria aqui com você e com nossas amigas distantes. Está tão agradável!

—Está sim! Então vamos ficar quanto tempo você quiser.

—Você não precisa acordar cedo? Já passa de meia-noite.

—Amanhã — ou melhor, hoje — trabalho em casa. Posso acordar mais tarde. – piscou. Ela sorriu.

—Que bom que o céu está tão límpido. Assim podemos observar tudo.

—Já pensou se aparecesse uma estrela cadente?

—O que você pediria? – Hélène perguntou, curiosa.

—Isso é segredo... Um desejo desses só pode ser contado quando enfim se realiza.

—Malvado... Agora fiquei curiosa!

—Outro dia eu conto. – riu.

O relacionamento já durava cerca de um lustro e era sempre nesse ritmo. Os dois tinham trinta anos e se viam juntos, nessa celebração ao Agora, pelas próximas décadas.

—Por que você não arrisca um poema sobre o céu? – sugeriu Jules.

—Não sei... Não sou boa com poesia. Mas posso tentar.

—Já quero ler! Sei que será muito bonito, como tudo que você escreve.

—Bobo... – foi a vez dela de soltar a mão do namorado e afagar-lhe o rosto. Ele sorriu, satisfeito e contente.

—Parece que a temperatura está caindo um pouco. Quer entrar, Hélène?

—Vamos ficar só mais um pouquinho, Jules? Estou sentindo chegar a inspiração...

—Claro! Leve o tempo que for necessário.

Ela pegou o smartphone e abriu um aplicativo de notas. Pôs-se a escrever enquanto alternava o olhar entre a tela e a abóbada.

—Hum, está ganhando forma, mas ainda não está bom... – Hélène comentou, mais para si do que para o namorado – Só alguns ajustes e eu chego lá.

Ele apenas sorriu. Gostava de ver a namorada produzindo e realmente apreciava o que ela escrevia.

—A-ha! Acho que terminei. Quer ler?

—Claro! – ele pegou o aparelho que ela lhe entregara.

—E então?

—Ficou belíssimo! – devolveu-lhe o telefone – Precisa estar em algum romance seu!

Merci beaucoup. – sorriu – Quem sabe?... É uma boa sugestão. Vou salvá-lo na nuvem para usá-lo depois.

Tão logo fez isso, virou-se para o namorado e disse:

—Acho que agora é o momento de entrar. Podemos?

—Podemos! – Jules se levantou primeiro e deu a mão a Hélène.

Caminharam em direção à porta para o andar de baixo. De mãos dadas, pareciam duas estrelas unidas pelo tracejado que formam as constelações.