O terror governava o mundo, as pessoas, cabisbaixas não se tentavam a mostrar um sorriso, era proibido. Um mundo na sombra, um mundo em tragédia.

Nas ruas o único som era do silêncio, até o vento soprava mudo. Qualquer interferência, qualquer intervenção, caía o mundo e o mar.

Um Tratado de Ordem, um muro perante as emoções.

Estabelecia-se um regime em que a opinião do indivíduo, o gosto e o prazer eram vistos como insignificantes para o futuro do planeta. E assim se tomou medidas para que houvesse uma paz sobre todos.

O primeiro a ser preso foi o sol, que embora mudo, era música para se viver em harmonia e felicidade. Anos passaram e quem nascia neste regime já se acostumava à censura. Nada nem ninguém, piava. Dos pássaros sobravam animais de asas cortadas, desbicados, os segundos a serem encarcerados. A liberdade de voar era nem história para crianças.

Depois o azul do céu foi coberto por um manto industrial. As nuvens que pairavam vinham das chaminés que sopravam o silencioso som que dominava o mundo. Os trovões provenientes destas misturas tóxicas avistavam-se, mas não se ouviam. Apenas um barulho constante de água fervente.

As árvores deixaram de ter folhas, perderam o propósito. As plantas nasciam descaídas, sem forças, com flores que desabrochavam secas. Jardins e florestas repletos de tons castanhos. Como se o próprio mundo se tornasse todo ele desprovido de vida.

Os edifícios ganhavam uma humidade por fora; no interior as cortinas fechadas, portas trancadas, as salas vazias. Apenas o som e o desaparecimento.

A comida era insípida, as especiarias eram também elas fruta proibida por trazer prazer a algo que deveria ser apenas sustento. O comércio fechou, a ração escasseava, todo o foco da vida era trabalhar para a indústria e para um futuro recto – assim denominavam os senhores do mundo.

Albino, nasceu neste mundo, filho de Alecrim e Lavanda, no dia 17 de Outubro. Viviam nos arredores de uma aldeia, descendentes de uma família revolucionária. Os nomes faziam-nos relembrar quem eram, mas estes, sucumbidos ao regime, castrados pelo sistema, trocaram os seus nomes para José e Manuela. Eram perseguidos só pelo nome, castigados por manterem viva a memória da beleza e da vida.

Albino, nasceu e desde o primeiro choro rompeu o silêncio de toda a região. Chorava como quem ria, o som era paradoxal e chocou no imediato quem o rodeava. Alecrim e Lavanda, José e Manuela, esconderam-no numa manta silenciando aquele chorriso para o mais longe que puderam.

Quando chegaram à casa, os vizinhos já sabiam daquela tragédia, receosos pela cumplicidade fechavam as persianas, trancavam-se na sua própria falsa ignorância. Notícias como esta voavam como os antigos pássaros e poucos dias depois bateram à porta de José e Manuela. Estes, esconderam Albino no sótão na parte de trás da casa.

A polícia entrou, sem esperar por convite, e procurou por mais gente. Perguntaram aos proprietários se tinham mais alguém em casa, que receberam uma queixa de ruído, como que um choro feliz. José e Manuela, amedrontados, seguravam-se um ao outro negando com um movimento de cabeça, de olhos fixos no chão. Viam as botas pretas, altas, envernizadas, fivelas douradas, exímias a andar de um lado para o outro. “Suspeitas como estas não vos deixam a salvo, quero ser vosso amigo, por isso ajudem o amigo.” José respondeu, quase murmurando “É falso, não temos ninguém nesta casa para além de nós”. “Conhecem o Tratado de Ordem, e o incumprimento é fatal”, aconselhava o agente num tom imperativo. José e Manuela mantiveram-se em silêncio apenas concordando com a cabeça.

Após alguns demorados minutos, a Brigada saiu da sua propriedade. “Lembrem-se que sou vosso amigo.”, disse o agente ainda enquanto o carro se afastava.

Ao olharem o carro dos agentes afastar-se, sentiram os vizinhos de olhos postos neles. Todos o ouviam, aquele menino que sorria chorando. Uns com medo, outros com repulsa, qualquer um poderia ter chamado a Brigada. Eles não se sentiam seguros, mas não podiam abandonar a sua vida e decidiram criar e educar o filho para que este pudesse ter uma vida pacífica.

Após alguns meses, Albino estava quase a completar um ano, mas as complicações aumentavam. Albino costumava descansar sobre uma árvore, o que costumava ser uma árvore, que começou a desabrochar novos ramos junto da cadeira baloiço onde o bebé dormia. Pequenos ramos com pequenos brotos circundavam-no. Da terra que antes fora um jardim, brotavam pequenos rebentos verdes que contrastavam com a paisagem acastanhada. Alecrim e Lavanda tinham medo de que levassem o bebé para as instituições onde educavam crianças para serem frutos desta sociedade. O agente não voltara, mas, para se protegerem dos olhares curiosos, isolaram a casa com vedações altas.

Albino, sorria. Brincava com o cão que a pouco e pouco ganhava vida e um dia ladrou. Enquanto estavam a arrumar o quarto do bebé, entreolharam-se, como se não tivessem percebido o que ouviam. O cão voltou a ladrar e olharam pela janela: Albino ria enquanto brincava com o cão que abanava a cauda e corria loucamente pelo jardim até parar de frente ao bebé e assim repetia. Albino ria. Ao descerem as escadas a campainha tocou.

Lavanda corre para o filho e dá-lhe de mamar, Alecrim dirige-se à porta. Abre-a depois de ver que era um vizinho “Bom dia, José!”. “Como estás?”, responde ao vizinho que esperava um convite para entrar. “Entra!”, convidou-o depois de ver que o bebé mamava em silêncio. “Alecrim, Lavanda, não posso negar a felicidade que sinto ao ouvir o vosso bebé a chorrir”.

Este vizinho era amigo da família, amigo dos pais de Alecrim, chamava-se Amor Perfeito, mas era conhecido como Júlio A.P.. Amor Perfeito era hoje velho, de cara enrugada de tristeza, com cicatrizes de um passado difícil. Nasceu antes desta mudança e como os pais de Alecrim era um revolucionário que lutou contra esta imposição de regime. Lembrava-se de campos verdes e floridos onde corria e brincava até cair de alegria com os amigos daquele bairro. Foi torturado assim como todos que lutavam contra, perdeu um dedo, ganhou um coxear permanente, mas mantinha na sua feição uma ternura que nunca perdera. A.P. casou com Rosa e tiveram uma filha – Estrelícia. Ambas foram levadas por incumprimento do Tratado e nunca mais teve notícias delas, assim como muitas outras famílias.

“A.P., não se preocupe, nós estamos a educá-lo.”, Alecrim aquecia um chá para todos enquanto falava com a visita. Lavanda sentava-se ao lado de A.P. que espreitava o bebé de olho azul. “O olho do teu avô”, dizia, “não há dia que não me lembre da minha Rosa e da minha Estrelícia”.

Lavanda, coloca Albino no colo de A.P.. Dos olhos dele nasciam lágrimas saudosas. “Ele saiu ao avô, não só os olhos, mas a garra.”, dizia Lavanda que observava o bebé no colo do vizinho. “Foi o medo que me atraiçoou, não sucumbas nunca, meu pequeno guerreiro”, disse-lhe Júlio ao ouvido.

“Não o eduquem segundo o regime, isto ... um dia tem de acabar, ... os vizinhos falam, mas deixem-nos falar”.

“Não podemos, Júlio ...”, A.P. olha para Alecrim com um ar reprovador. “A.P. ... desculpa... Já chamaram o agente uma vez. E ele vai voltar, eu sei!”.

“No dia que eles voltarem eu cá estarei”, disse A.P. enquanto bate com o pé no soalho de madeira. Lavanda olha Alecrim que entrega o chá, partilham um ar de compaixão por este velho amigo da família.

Os pais de Albino, perceberam que era um risco. Se o A.P. sabia desta condição outros também saberiam e estavam todos em risco. Assim Albino foi para a escola. A escola do estado era convencional, fiel ao regime, conhecido pelo seu sucesso em educar as crianças de forma exímia. Era um instituto correccional e Lavanda escondia as suas lágrimas por saber que o seu filho, ainda pequeno, iria ter um percurso difícil.

A escola fora construída por cima de um cemitério de revolucionários, cujos descendentes, acreditavam que, das cinzas, renasceriam os espíritos encarnados nas crianças que eram ali educadas.

Anos se passaram, e o mito corroborado. Da escola saíam pessoas cinzentas e castanhas da cor do céu e da natureza que agora se impunham, cresciam, de asas cortadas, submissas e cúmplices deste mundo atroz.

Albino, voltava para casa, envelhecido, a sua jovialidade negligenciada, desabitado. Da sua ignorância infantil crescia uma dor adulta e penosa. As marcas de chibatadas nas mãos, as olheiras fundas de olhos sem brilho: “Olá, pai; olá, mãe” e no entretanto encaminhava-se para o seu interior descolorado num silêncio mutilado. Os pais olhavam-se, no andar lento e arrastado do filho. Sentiam-se doentes por não terem a coragem de seguir as palavras de A.P.. O filho deles era só mais uma sombra de um mundo sombrio. Mais um sucumbido, mais um lamento aos tempos de outrora.

A campainha toca, e o inspector está de novo à porta, vestido de arrogância e botas de tortura. José abre a porta, e o visitante entra sem esperar por permissão. “Bom filho a casa retorna, e que bem que o vejo.”, “Bom dia sr. Inspector...” responde José. “Tenho ouvido que Albino foi um casco difícil de quebrar, mas da sua cor já pouco resta. Acredito que mais um ano ou dois e ele estará de volta de vez, curado dessa displicência hereditária. Esse nome de família deve ser um fardo, meu caro.”

Manuela chega com uma bandeja, um bule e três chávenas. “não vai chamar o menino?” pergunta o inspector. José levanta-se, mas Manuela impede-o com a mão sobre o ombro.

Manuela sobe as escadas e encontra o seu filho no quarto, sentado de costas para a porta. Nas suas mãos feridas segura uma caixa com alguns trapos esquecidos do seu passado recente e que já pouco se lembra. “Esta caixa estará sempre aqui, para que nunca te esqueças quem és. És Albino das Silvas Floridas!” diz-lhe olhando-o nos olhos. Albino ao ouvir o seu nome levanta-se e abandona a caixa sobre a cama, o seu coração palpita. Uma revolta e uma ternura se envolvem harmoniosamente ao ouvir o seu nome. Lavanda arruma a caixa e fecha-a deixando-a escondida por baixo da cama. Vê o seu filho e sente a dor que ele sente. Ele olha a janela como se se olhasse por dentro.

A campainha toca novamente, os presentes entreolham-se, “Não vai abrir?” pergunta o inspector. José levanta-se na direcção da porta, abre. “A.P., ... Júlio!, não é boa hora ...”

“Porque não é boa hora, caro José, deixe-o entrar.”, volta a atacar o inspector. A.P. entra e olha para o convidado, percebe que não é convidado e resmunga “Sr. ainda por estas bandas, pensei que já se tivesse reformado, está com um ar cansado.” O inspector analisa o velho, de alto a baixo, “Júlio, o velho que não morre. Nunca percebi o A.P. que lhe chamam, será hoje?”

“Júlio António Pereira!” respondeu Albino ao entrar na sala. Este pisca o olho a A.P. discretamente “Vou buscar mais duas chávenas.”

“Eu ajudo-te, Albino.” O velho seguiu-o.

“Como te estás a aguentar meu rapaz?”. “É difícil A.P., não posso esconder. Todos os dias alguém quebra!”. “Sim, acredito, mas nunca te esqueças que das fundações daquele edifício jazem os ossos da minha mulher e da Estrelícia, do teu avô Jasmim e da avó Dália”. “Eu sei, A.P., é a única coisa que me mantém vivo”. “É das flores do passado que renascerá a floresta, meu filho.”

“É melhor voltarmos, a presença daquele inspector nunca vem por acaso.”, aconselha Albino para o seu velho amigo da família.

“Achava que se tinham perdido”, ironiza o inspector, “vim para falar consigo, Albino”. Albino senta-se de frente ao inspector, depois de servir o chá a todos os presentes. “Os professores do instituto falam-me que tens boas aptidões de liderança e um bom instinto. Quero apresentar-te a candidatura para a Força de Inspecção, do qual eu próprio me ofereci para ser teu tutor.”

Os olhares preocupados cruzam-se telepaticamente, todos ali sentiram o medo presente na sala. “Agradeço a cordialidade, inspector, mas ainda me faltam dois anos para terminar os estudos”. “Estou a par, estou a par, mas esta candidatura dar-te-á privilégios como esses. Dou-te até amanhã para uma resposta”. O inspector levanta-se, sem nunca ter tocado no chá e sai perante a apatia de todos naquela sala.

Albino sabe que é uma forma de o corromperem, uma vez que não conseguiram através dos métodos usuais do Instituto. Na Força de Inspecção será levado à exaustão e poderá nem terminar a recruta como muitos outros que desapareceram.

A mãe e o pai olham agora Albino silencioso e pensativo. “Parece que pode ser uma boa saída, filho.” A.P. levanta-se com estas palavras do pai “Tu perdeste a cabeça, Alecrim, não sabes que é pura manipulação?” Nesta discussão, Lavanda vai ao encontro do filho, faz-lhe um carinho no cabelo e diz-lhe, murmurando: “Meu filho, esta decisão é tua e só tua. Eu estarei sempre do teu lado.”

Albino levanta-se enquanto ainda a discussão está acesa, atravessa o corredor na direcção do jardim: a árvore seca, a terra desnutrida, a campa do cão.

Senta-se nas escadas e olha o céu de nuvens industriais. Inspira profundamente o ar impuro, a atmosfera densa, o chão quente. Tudo se mantém constante num mundo desvalido.