Às vezes eu me pego pensando em como seria se eu tivesse encontrado sons melhores, melodias únicas que nunca tivessem sido ouvidas. Não falo só de música, mas da vida em si, de ter feito escolhas diferentes, de ter encontrado caminhos que me tornassem mais autêntico.

É como se eu tivesse sempre a sensação de que algo ficou pelo caminho, de que não usei todas as notas que poderia ter usado. Eu queria ter uma voz melhor, não só para cantar, mas para falar o que sinto, para expressar sem medo as palavras que sempre guardei. Mas, em vez disso, me vejo tropeçando em rimas previsíveis, em discursos que soam repetitivos, como se eu estivesse preso em uma canção que não me pertence.

Quando eu era criança, diziam que, ao crescer, meus medos iriam diminuir, que eu me tornaria mais forte, mais seguro, mais livre para ser quem eu realmente sou. Acreditava nisso como quem acredita em uma promessa simples. No entanto, agora que estou aqui, adulto, percebo que a insegurança não foi embora. Pelo contrário, ela cresceu comigo, se enraizou em cada gesto, em cada pensamento. Eu me importo demais com o que os outros pensam, e isso me corrói. É como se houvesse uma voz constante dentro da minha cabeça me lembrando: “Você nunca será suficiente.” Essa voz tem nome, e o nome é insegurança. Às vezes sinto que esse nome me define mais do que qualquer outro.

É por isso que eu vivo desejando voltar no tempo. Gostaria de regressar aos bons e velhos dias, quando eu não precisava provar nada a ninguém, quando bastava deitar na cama e ouvir minha mãe cantar para eu adormecer. Era simples, era puro, e eu acreditava que o mundo era feito de possibilidades infinitas. Hoje, no entanto, tudo se resume a pressão, a metas inalcançáveis, a cobranças silenciosas que pairam no ar. Estou estressado. Estamos todos estressados.

De vez em quando, um cheiro surge do nada e me leva de volta à infância. Pode ser o perfume de uma flor, o aroma de uma comida esquecida, ou até mesmo o cheiro da terra depois da chuva. Esses momentos me fazem lembrar de quando a vida era leve, de quando não existia urgência em tudo.

É engraçado, porque nunca consigo identificar de onde exatamente o cheiro vem, mas sei que, se pudesse capturá-lo, faria dele uma vela só para manter viva a lembrança daqueles dias. Talvez ninguém se interessasse por essa vela, talvez eu vendesse apenas uma, mas ela seria suficiente para mim e para o meu amigo imaginário, porque nós compartilhamos o mesmo nariz, a mesma infância, as mesmas memórias de tardes brincando perto do riacho, jogando pedras e acreditando que o mundo era pequeno o bastante para caber em nossas mãos.

Aquelas lembranças me fazem pensar no quanto tudo era mais simples quando nada realmente importava. Naquele tempo, a escolha mais difícil era entre construir uma casa na árvore ou sonhar com aventuras que nunca existiriam. Não havia empréstimos, dívidas, contas ou a necessidade sufocante de ganhar dinheiro. Havia apenas imaginação. Eu e meu amigo imaginário criávamos universos inteiros na nossa mente, dávamos nomes diferentes a nós mesmos, fingíamos ser astronautas ou heróis, e acreditávamos, de verdade, que podíamos construir um foguete e voar para bem longe.

Hoje, quando penso nesses sonhos, percebo como eles foram engolidos pela realidade. A infância nos permitia acreditar em coisas impossíveis, mas a vida adulta se encarregou de rir na nossa cara, de nos dizer que era hora de acordar, de ganhar dinheiro, de sermos úteis. É como se alguém tivesse arrancado os fios invisíveis que me ligavam à imaginação, substituindo-os por correntes pesadas de obrigações. Eu costumava sonhar com o espaço sideral, e agora mal consigo sonhar com o amanhã.

Às vezes me pergunto quando foi que tudo mudou. Foi de repente ou foi aos poucos? Um dia eu estava construindo foguetes de papelão e, no outro, estava olhando para boletos acumulados sobre a mesa. A transição foi tão sutil que quase não percebi, mas agora é impossível ignorar. A vida adulta exige de mim algo que eu não sei se tenho para dar. Eu acordo todos os dias com a sensação de estar atrasado, de estar devendo, de não estar à altura.

E, no entanto, no fundo, ainda carrego dentro de mim aquele desejo de brincar de faz de conta. Ainda existe uma parte minha que gostaria de voltar a dar nomes diferentes para as coisas, para as pessoas, para mim mesmo. Uma parte que sonha em construir foguetes, não para fugir da Terra, mas para fugir dessa sensação constante de estar preso em um ciclo sem fim. Eu sei que não posso regressar, sei que os bons e velhos tempos ficaram para trás, mas isso não me impede de desejá-los.

Cada vez que penso nisso, me pergunto se todos os outros também sentem o mesmo, ou se é apenas comigo. Será que todos carregam esse peso? Será que todos, em silêncio, desejam voltar à infância, nem que seja por um instante? Talvez seja por isso que essa memória coletiva de tempos mais simples nunca desapareça. Talvez seja porque, em algum nível, todos nós ainda somos aquelas crianças que acreditavam em foguetes de papelão.

No fim das contas, eu continuo aqui, tentando lidar com a voz que insiste em me lembrar de que preciso ser mais, produzir mais, conquistar mais. Mas, ao mesmo tempo, continuo carregando dentro de mim essa saudade, essa nostalgia que me prende ao passado. Entre o desejo de voltar e a obrigação de seguir em frente, vou me equilibrando como posso, tropeçando nas rimas que não escolhi, tentando transformar inseguranças em canções, tentando encontrar sentido em um mundo que insiste em cobrar.

Se eu pudesse escolher, voltaria. Voltaria para o quarto em que minha mãe cantava para eu dormir, voltaria para o riacho onde jogávamos pedras, voltaria para as tardes em que acreditávamos que o universo cabia em nossas mãos. Mas, como não posso, sigo escrevendo, sigo cantando, sigo sonhando, mesmo que agora eles riam da minha cara e me digam que é hora de acordar.