Aquele 21 de abril de 2025 marcou corações. Fiéis do mundo inteiro, vindos de todas as partes para as celebrações da Páscoa, ainda ocupavam Roma, o Vaticano e imediações, quando, no meio da manhã, perto das 10 horas, da basílica de São Pedro, o cardeal Kevin Joseph Farrell anunciou a partida do Papa, em retorno ao Pai, ocorrida no início do dia.
Malgrado esperada – vez que o Santo Padre era diuturnamente consumido por enfermidades terrenas terríveis e insuperáveis –, a notícia causou estupor. Somado a comoção e desacorçoo. Adicionados a incompreensão. Revolta e indignação. Sentimentos confusos. Dispersos e aziagos. Comumente manifestos na despedida de um parente ou amigo. Alguém próximo e querido. Como o guardião de família. Marido, esposa, amante ou mentor. Íntimo.
Conseguintemente, conventos de todos os continentes puseram-se subitamente em vigília. Monastérios também. Paróquias e catedrais dobraram os seus sinos. Colocando cristão todos – católicos ou não – em contrição. Acenando um descanse em paz à Sua santidade. Ao homem-povo: Jorge Mario Bergoglio (1936-2025). Ao Papa: Francisco. Homem de Deus. Líder deles todos.
Tornado sacerdote supremo na primavera dos tempos daquele 13 de março de 2013. Ali mesmo. No Vaticano. Onde encontram-se os concílios. Templos de transição. Em busca do novo eleito do Altíssimo. Encarregado de guiar e renovar a Igreja. Uma instituição mais que milenar. Mais que consistente. Mais que altaneira. Mas, desde muito, abatida. Soterrada em contradições. Carcomida de pecados. Submersa em abusos e omissões. Clamando e ofertando perdão. Aguardando outro alguém para encarná-la.
Escolheu-se Bergoglio.
Vindo do “fim do mundo” e prometendo novação. Gerando rupturas. Rompendo decoros. Beirando à iconoclastia. Fazendo-se notar. Primeiro no falar. Depois no vestir. Para alguns, até no andar. Chegando ao rezar.
Tudo novo.
Inovador, diferente.
Outro Papa.
Papa novo: Francisco.
Primeiro argentino. Vindo das Américas. Novo Mundo. América do Sul. Hemisfério Sul. Não-europeu. Primeiro jesuíta. Saído de congregação. Primeiro totalmente integrado ao Concílio do Vaticano II. Primeiro sem mistérios. Esgueirado ao povo e ao popular. Primeiro a nunca antes nem depois celebrar missa em latim. Primeiro a jamais dar de costas aos fiéis no ofício. Primeiro declaradamente peronista. Primeiro a firmar-se abertamente antagonista dos regimes autoritários latino-americanos. Primeiro a rivalizar com ecumenismo desbragado da Igreja. Primeiro a negá-lo. Primeiro a condenar a Teologia da Libertação. Primeiro a divulgar a Teologia do Povo. Primeiro a teorizar sobre a “crise espiritual” da Igreja nas Américas. Primeiro a demandar mais fé. Primeiro a pedir mais Deus. Desde o Sul, hemisfério Sul, América do Sul.
Arcebispo de Buenos Aires desde 1990.
Primeiro a romper com os padrões da função. Notadamente em seu garbo – nitidamente, exagerado; ocasionalmente, em fastio.
Primeiro a impor-se pela austeridade.
Sendo modesto. Simples. Gente simples. Jeito simples. De palavras simples. Endereçadas aos mais frágeis. Pobres e simples. Seus ouvintes. Sua paixão.
Apreciador de Karol Wojtyla (1920-2005) e Joseph Ratzinger (1927-2022). Papa João Paulo II e Papa Bento XVI. Homens de muita fé e inspiração. Que Bergoglio foi, pouco a pouco, talhando-se para suceder. E sucedeu. Mas não para bonanças. Antes, para tempos demasiado bicudos. “Sombrios” como diria Hannah Arendt. Quando a Igreja vivia um momento crítico. Mais um. Especialmente em seu berço, a Europa. Em seu tudo, o Ocidente. Em seu espaço vital, o mundo inteiro.
Um momento quando o catolicismo sangrava às jorras.
Num Ocidente pós-cristão. Quase anticristo. Pós-teísta. Entorpecido pelo imanente. Atropelado pelo imediato. Absorvido pelo presente. Presente contínuo. Singrando sem rumo. Soterrado no instante. Refém do agora. Avesso às tradições. Contrário à transcendência. Imune à fé e aos mitos. Superficial. Esvaziado de Deus. Desencantando e desencantado. Singrando em descrédito. Quebrando a Igreja em pedaços. Tornando-a migalhas. Fragmentos de uma obra desabando e desabada. Diminuída em fé. Diminuta em prestígio. Apartada das liturgias. Relativa. Relativizando. Deformando-se.
Tendo os seus integrantes – padres e aspirantes – expostos à injúria e à indignação. Muita vez, à prisão. Opróbio de criminosos. Envolvidos em escândalos financeiros e sexuais. Coisa de marginais. Canalhas. Não raro, confessos. Que aceleram a detração da dignidade da Igreja. Obrigada a penitências incomuns para expiar seus pecados. O que, mesmo assim, no conjunto, desencoraja, assusta e afasta a brava gente imitadora de Paulo. Pois a desconfiança – na Igreja e nos seus – virou imensa.
Tornando a casa do Pai um lugar vastamente inóspito. Insólito. Banal. Impróprio. Alheio ao bem-comum. Lejos de Dios. Sem salvação. Lejos del mundo. Sem portas ao refúgio. Justamente agora. Quando o refúgio, como raras vezes, reabilitara-se como imperativo, necessidade, agasalho e corta-luz para os fiéis. Vez que tudo, além-Cúria, pelas ruas, praças, vilarejos, países e continentes, mundo afora, mundo inteiro, parecia desabado, desabando, em queda livre. Carente de referências. Desejoso de portos seguros, âncoras e bússolas. Capazes de conter a fluidez desse mundo à deriva. Com lógicas em suspenso. Ordens conflagradas. Convulsões banalizadas. Submerso em erosões. Após os Papas – João Paulo II e Bento XVI. Após os homens – Wojtyla e Ratzinger. Após os soviéticos. Após o 9/11. Após 2008. Sob o post truth. Após a história recomeçar. Eis os desafios de Francisco.
Vindo simples. Antes Bergoglio. Monge de estilo. Nítido plebeian. Despido de luxo. Sempre fraterno e tranquilo. Sem afetações. Doutor em liturgia. Mestre na presença. Severo. Erguido Papa, e decidido a sê-lo completamente. Obcecado pelos inauditos. Aqueles pobres, invisíveis, renegados. Corpos ausentes. Que precisavam voltar à Igreja e à fé sob o manto do “vinde a mim”. Lugar de conforto. Marca pétrea da Igreja. Que desde Paulo impõe-se ao mundo pela essência dos katholikós: iluminados, universais, iluminadores. Aqueles com a função moral de guiar povos, forjar cenários e criar mundos novos.
Assim se queria. Assim se fez.
E avante avançou Francisco.
Iniciando em Lampedusa. Ao Sul da Itália. Onde acentuou o drama da (i)migração. Depois em Washington. Sob a presidência de Barack H. Obama. Onde movimentou-se em favor de Havana. Adiante, no México, em Ciudad Juarez. Onde reiterou a sua convicção sobre a “globalização da indiferença”, um fidedigno brado de indignação diante da sorte infortuna dos pobres deste mundo. Após tudo, o Brasil. Onde anunciou o sentimento de Sínodo, para uma Igreja mundial, planetária, celestial, mas sinodal. Permanentemente atenta ao local. Como demonstrado em suas principais encíclicas. Fratelli Tutti e Laudato si. Sem esquecer-se dos africanos nem dos asiáticos. Tampouco dos martírios ucranianos. Menos ainda dos sofrimentos dos povos de Israel, Palestina e Gaza.
Foi Francisco.
Um Papa abrangente. Navegante. Olhos atentos. Cheios de vida. Inquirindo todas as faces do mundo.















