
Telê Ancona Lopez, muito prazer! Na mesura kneeling, eu me apresento à revista Meer: uma velha professora, debruçada no gosto de aprender. Rubem Alves, humanista sem jaça e bambambã na crônica, abominava a designação “idoso”. Dizia-se um velho, vivido e brabo. Estou com ele!
Nasci em Ribeirão Preto. Morávamos num sobradinho à rua Comandante MaLcondes Salgado, o L na expressão da cidade paulista crivada de vozes mineiras. Quando fui ao Guimarães Rosa, quantas palavras não reconheci... Escrevo este perfil, circundado ao meu ofício de cronista bissexta, naturalmente arisca. A esse ofício acheguei-me aos 14 anos, no curso ginasial das ursulinas.
Depois de um jornalzinho datilografado, A rosa dos ventos, na parceria com a colega Yêdda Dias Lima, nossa professora de Português, Eugênia Vilhena de Morais, mandou-me para o Diário de Notícias, em 1952. Ao meu pai, jornalista de A Tarde, e à estante aberta da minha casa, devo algumas leituras renovadoras, tomadas como bula, que me sustentavam, modernosa, no estilo telegráfico, ingenuamente desafiador. Nesse jornal continuei durante o colegial, no Ginásio do Estado Otoniel Motta, onde fui aluna de Florianete Guimarães. A ela e ao meu pai, Sebastião Porto, atribuo a busca do rigor que me obriga a ler ouvindo meu escrevinhar e o alheio.
Exige-me a atenção ao sentido e ao ritmo da frase, ao emprego das preposições decisivas; ao valor da sonoridade no intuito de evitar indesejados cacófatos, gaguejantes quequeques e linguagem carimbada. Cronista fui igualmente nas cartas encaminhadas a jovens da Califórnia, nos contatos de boa vizinhança, incentivados por uma colega das minhas aulas de inglês, com o Prof. Cícero Proença Lana, que juntavam, ao entardecer, moços e gente madura.
Severo no ensino da gramática, rematava as aulas com foxes e outras músicas norte-americanas, cujas letras acompanhávamos datilografadas nas cópias carbono em papel de seda. Love letters straight from you hear partiam dos corações separados pela Guerra e cortavam os nossos. Cantarolávamos as Camptown races e seguíamos os santos na marcha pra eternidade. Seu Cícero, sabia ensinar! Minhas cartas, peças únicas, eu as encenava na graça do tempo presente, inconsciente, todavia, de que se perdiam na água rasa da descrição e do self, pouco aproveitando das minhas leituras do romance russo e dos clássicos do marxismo, alardeadas no grêmio da escola.
Croniquei em jornaizinhos universitários depois de 1957, ao estabelecer-me paulistana, matriculada em cursos de Letras. Primeiro Anglo-germânicas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Universidade de São Paulo, ingressando, no outro ano, depois de outro vestibular, na Universidade Católica, onde me formei em 1961, com duas especializações em Literatura Brasileira e Portuguesa. Ao fazer outras especializações na FFCL-USP (depois Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, FFLCH-USP) em 1962 – Literatura Brasileira, Portuguesa e Teoria Literária/Literatura Comparada –, participei de um projeto de pesquisa nessa área, orientado pelo Prof. Antonio Candido de Mello e Souza, de quem sou aluna, por toda a minha vida!
Ensinei Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo – no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP). Conto com o privilégio de estudar os caminhos de um escritor que elevou o Brasil “ao concerto das nações” – Mário de Andrade – e as vanguardas, os modernismos, os gêneros de fronteira (crônica, carta, diário etc.); cultivo interrogações sobre a criação literária, lidando com manuscritos à luz da crítica genética.
Às vezes, cometo crítica de artes plásticas. Sou professora emérita do IEB-USP, onde permaneço entusiasmada como colaboradora sênior. Meus projetos de pesquisa, individuais e institucionais foram respaldados pela FAPESP, pelo CNPq, pela VITAE. Também pelo CNRS da França. Celebro as conquistas de alunos e ex-alunos que, ontem e hoje, pesquisam, ensinam, publicam no Brasil, no mundo, por aí. Com eles transitei pelas páginas do polígrafo Mário de Andrade (sobretudo), de Valdomiro Silveira, Menotti del Picchia, Dalton Trevisan, Antonio Callado, Cecília Meirelles, Millôr Fernandes, de cronistas e carteadores. Meu “Currículo Lattes”, na internet, especifica discência, docência, curadoria de exposições, concursos e publicações.
Tenho testemunhado importantes descobertas dos meus alunos, em todos os níveis, desde que me postei numa sala de aula, escutando suas falas; ou que leio seus escritos. Outra faceta fundamental do meu viver é o meu empenho na educação voltada para os direitos dos animais que nada mais significa do que alertar o bicho-homem para o desenvolvimento necessário da própria consciência e sensibilidade. Educá-lo! Nessa esfera, em 2001, ao lado do Reitor, Prof. Jacques Marcovitch, da Profa Julia Matera e de outros professores, integrei a implantação do Programa USP CONVIVE – Seres humanos e animais. Orgulho-me disso.
Fecho aqui o meu Perfil. Esta é a minha perspectiva como cronista colaboradora da revista Meer.
