A diversidade virou estratégia de marketing. Hoje, qualquer obra audiovisual que queira parecer contemporânea insere personagens que representam minorias raciais, sexuais ou de gênero. Porém, essa presença raramente vem acompanhada de substância, complexidade ou protagonismo real. No lugar de narrativas transformadoras, o que se vê é uma vitrine identitária vazia, recheada de personagens definidos exclusivamente por sua identidade — “o gay”, “a trans”, “a negra” — como se isso bastasse para chamar isso de revolução.
Esses personagens existem apenas como ponto visual de inclusão, mas suas histórias giram sempre em torno da dor, do preconceito e da diferença, sem espaço para crescimento individual, ambições, erros humanos ou nuances. São arquétipos congelados que se pretendem símbolo, mas que soam como rascunhos. Isso reduz o impacto da diversidade e a transforma em um gesto simbólico, e não em mudança efetiva.
O caso das novelas da Globo nos últimos anos é exemplar. Mania de Você recebeu uma enxurrada de críticas. Parte da rejeição foi motivada sim por racismo, um reflexo do preconceito ainda enraizado na sociedade brasileira, no entanto, a maior parte da insatisfação do público veio pela forma como a protagonista foi escrita: chata, sem carisma, mal desenvolvida, além de iniciar sua trajetória como traidora da melhor amiga. A protagonista negra foi mal construída, e o roteiro raso apenas reforçou estereótipos, ao invés de quebrá-los. O final da novela foi ainda pior, com Viola praticamente sendo jogada para escanteio e seu par na novela tendo morrido (outro personagem que sofreu rejeição massiva).
O mesmo vale para o remake de Vale Tudo, que escalou duas atrizes negras nos papéis que foram de Regina Duarte e Glória Pires. A mudança parece progressista, mas ignora completamente o contexto da trama, especialmente o impacto que a vilã Odete Roitman exercia como símbolo do elitismo branco e autoritário. A adaptação soa artificial, sem repensar a estrutura da narrativa para comportar essas mudanças. Não apenas isso, mas o remake já havia sido criticado por não ter função de existir, pois a própria novela original de 1988 continua sendo um retrato do Brasil de 2025.
Pior ainda são as críticas maciças à autora Manuela Dias, cuja escrita tem sido apontada como rasa, cheia de clichês e recheada de personagens mal desenvolvidos. Sua abordagem às pautas identitárias tem sido superficial, panfletária e ineficaz. Outros autores trataram dos mesmos assuntos que a autora tenta tratar de forma muito melhor, mais aprofundada e sem passar para o público a impressão de “panfletamento militante” e sim de uma história orgânica dentro da narrativa. A própria Vale Tudo original tratava desses assuntos de forma muito melhor, e isso vindo de uma novela de 37 anos atrás.
A novela Garota do Momento também enfrentou fortes críticas por ser “uma novela de época que não parece ser de época”. Ambientada em um Brasil do final dos anos 1950, a produção simplesmente ignorou os problemas raciais, sociológicos e políticos da época retratada. Ignorou completamente a situação das pessoas negras e LGBT+ na época, escrevendo a trama como se ela se passasse em 2025, não apenas isso, mas até os estilos de cabelo e de roupa foram totalmente ignorados para uma narrativa de “aceitação” que na época não existia, pelo menos não da forma que existe hoje em dia.
Veja a diferença, por exemplo, com o filme Hairspray, que é um retrato muito mais próximo de uma narrativa passada nos anos 1950. A novela em vez de construir um retrato histórico honesto, optou por incluir diálogos anacrônicos, pautas atuais de forma extremamente forçadas (e incabíveis naquela época) e um presentismo que prejudicou a verossimilhança da trama. Não é porque é uma “obra de ficção” que não se precisa ter o mínimo de coerência com a época, afinal isso acaba por ser um apagamento histórico em nome de uma representatividade rasa e descontextualizada.
E o problema não é exclusivo da teledramaturgia nacional. A Disney tem enfrentado queda de audiência e fracassos consecutivos nas bilheterias ao tentar aplicar diversidade de forma superficial. O próprio CEO da empresa, Bob Iger, afirmou que a companhia “errou a mão” em sua abordagem de inclusão, reconhecendo que a implementação apressada e sem profundidade afastou parte significativa do público, com o último filme da Branca de Neve sendo um dos maiores fracassos da Disney. Isso também se reflete nos desempenhos dos filmes da Marvel (The Marvels, Eternals), da Pixar (Lightyear), e até projetos da franquia Star Wars. O público sente quando a diversidade é inserida como obrigação de checklist, e não como construção narrativa real. Pior, as classes minoritárias sabem disso.
Inserir diversidade em roteiros ruins não é revolução, é simplesmente oportunismo. O público não é burro. Ele percebe quando a personagem negra, gay ou trans está ali apenas para cumprir cota. A representatividade precisa ser orgânica, bem escrita, relevante e inserida dentro de um contexto narrativo sólido. Não basta copiar bordões de militância do Twitter ou replicar slogans vazios em diálogos artificiais. É preciso comprometimento com as histórias e com as pessoas que essas histórias pretendem representar.
Viola Davis, em seu discurso no Oscar, disse: “Não peçam apenas para que atores negros interpretem papéis escritos para brancos. Escrevam histórias para nós, com nossos conflitos, nossa cultura, nossa complexidade.” Isso vale para todas as minorias. Representar é mais que substituir. É criar com profundidade. Sem isso, a inclusão vira um espelho deformado.
Enquanto isso, se fala tanto de inclusão das minorias, mas a população trans continua sendo a menos representada na mídia. Um estudo da GLAAD de 2024 apontou que apenas 2 personagens trans estavam presentes entre as 775 personagens recorrentes das principais séries americanas. No Brasil, a situação é ainda mais crítica, com presença quase nula de pessoas trans em papéis protagonistas, seja em novelas, filmes ou séries. Isso demonstra que a inclusão ainda é seletiva, e covarde. Mais grave ainda é o próprio fato das pessoas (e até mesmo da comunidade) bater palmas quando se têm apenas 1 exemplo de uma atriz/ator ou cantor(a) trans e dizerem que “as coisas melhoraram muito”, mas melhoraram mesmo? Será que, honestamente, alguém pode dizer, sem pensar muito, um filme, uma série, uma novela que seja em que a/o protagonista seja uma pessoa trans? E se tiver, que a história dela não gire em torno de “ser trans”?
Outro ponto negligenciado é o uso do chamado pink money como estratégia de consumo da classe LGBT+. Empresas e produtoras inserem bandeiras, casais gays ou slogans em datas estratégicas, mas não apoiam a comunidade fora do marketing. Isso esvazia causas legítimas e transforma militância em palanque comercial. Aliás, uma das críticas mais recentes a “produções LGBT” é o fato de sempre ter, de alguma forma, conteúdo sexual, com pouquíssimas exceções, além do fato de que todas tratarem sempre dos mesmos tópicos, nunca podendo ser apenas uma simples história de amor ou um filme de ação, ou comédia ou qualquer outro gênero.
Dentro desse panorama, o filme Barbie se destacou por conseguir apresentar diversidade de forma criativa, natural e integrada ao roteiro. Mulheres negras, asiáticas, latinas e até uma Barbie trans são apresentadas não como símbolos isolados, mas como personagens funcionais, com humor, profundidade e função narrativa. Não há panfleto, há humanidade. E isso faz toda a diferença.
Por fim, é preciso reforçar: o racismo, a homofobia e a transfobia continuam extremamente presentes na sociedade. Mas a forma rasa como a mídia tem feito a inclusão apenas mascara esses problemas. Ninguém está ganhando com personagens negros, gays ou trans mal escritos, ninguém está ganhando com narrativas rasas e apontamentos dos mesmos problemas sendo tratados sempre da mesma forma, com as mesmas falas, mesmos diálogos e quase sempre com o mesmo desfecho. Se os problemas sociais dessas pessoas continuam os mesmos, ou até se agravam, então essa “representatividade” não tem valor. Ela não empodera. Ela engana.
Não adianta dizer que “se pode pensar em duas coisas ao mesmo tempo” quando na realidade o que acontece é as minorias perderem o foco do que é realmente importante (defender seus direitos, lutar por direitos iguais, segurança e tantas outras coisas) para baterem palma porque uma série ou filme ou novela teve “representatividade”. Isso é exatamente o que as pessoas no poder querem, manter o Status Quo através do “Pão e Circo”.
Qualidade é mais importante que quantidade, as pessoas precisam entender isso. É muito melhor ter uma personagem negra/gay/trans dentro de uma narrativa e ela ser escrita de forma fantástica (o filme Meninas Malvadas é um ótimo exemplo da diversidade sendo usada da maneira correta) do que ter um elenco com 70% de representatividade e a maioria dos personagens tem a profundidade de uma poça de água num pires e nenhuma personalidade marcante. A presença simbólica não significa avanço real.
Colocar uma atriz negra em uma novela racista não é reparação, é marketing e oportunismo. Transformar pautas sociais em frases de efeito não é progresso, é distração. Se a inclusão não vem com estrutura, roteiro forte, autores representativos e espaço de criação verdadeiro, ela é só mais uma forma de silenciamento, agora travestida de virtude.















